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Internacional

ONU pede intervenção de Aung San Suu Kyi para proteger minoria muçulmana

RAVEENDRAN

Conselheiro especial do secretário-geral da ONU para a Birmânia apela à líder de facto do país que visite o estado de Rakhine, onde está em curso uma operação militar que já levou 21 mil muçulmanos Rohingya a fugirem para o Bangladesh

As Nações Unidas instaram esta quinta-feira a líder de facto do Governo birmanês, a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, a proteger a minoria muçulmana Rohingya que vive no noroeste do país, na província de Rakhine, perante acusações renovadas de abusos cometidos pelo exército.

O pedido foi feito pelo conselheiro especial da ONU para a Birmânia, Vijay Nambiar, que referiu que a organização continua "seriamente preocupada" com a situação em Rakhine, onde o Exército tem em marcha uma "operação de segurança" contra os Rohingya. Esta operação começou depois de um ataque armado a 9 de outubro contra postos policiais atribuído pelo poderoso Exército birmanês a elementos da minoria muçulmana, perseguida há várias décadas no país.

"Na atual situação, sinto que as autoridades da Birmânia devem não só implementar as medidas de segurança necessárias para limitar novas ondas de ataques por elementos criminosos da região como também dar passos para construir a confiança e garantir à população local que a sua segurança, dignidade e bem-estar são protegidos", disse Nambiar. "Neste cenário volátil, é da responsabilidade de toda a gente gerir as alegações e rumores com grande cuidado", avisou.

As declarações são vistas como uma mensagem endereçada à líder de facto da Birmânia, a mulher que lutou contra a ditadura da Junta Militar ao longo de décadas e que no início deste ano viu o seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), ganhar com maioria absoluta as primeiras presidenciais livres da Birmânia em várias décadas. Suu Kyi não pode ocupar a presidência mas é tida como a verdadeira responsável pelos destinos do país desde as eleições de março. Ativistas e organizações de direitos humanos têm tecido duras críticas à líder pela inação e silêncio face à perseguição dos Rohingya em Rakhine.

Esta quinta-feira, o conselheiro especial para a Birmânia condenou a "recusa das autoridades birmanesas" em assumirem uma posição forte e o facto de manterem uma "postura defensiva em vez de uma estratégia proativa que garanta a segurança da população local" daquele estado, o que tem "gerado frustração entre os locais e desilusão a nível internacional". "Só endereçando concretamente estas preocupações é que o Governo será capaz de resolver a crise e manter a sua posição internacional", acrescentou Nambiar em comunicado, apelando a Suu Kyi para que visite a região.

No início da semana, a Organização Internacional para as Migrações anunciou que "cerca de 21 mil Rohingya já chegaram a Cox's Bazar [no Bangladesh] entre 9 de outubro e 2 de dezembro", em fuga do que vários políticos e ativistas dizem ser uma tentativa de genocídio.

O Governo birmanês já apresentou uma queixa formal contra um oficial do Bangladesh na ONU que disse que as forças do país estão a executar uma "limpeza étnica" de muçulmanos em Rakhine. No sábado, o primeiro-ministro malaio, Najib Razak, também acusou a Birmânia de "genocídio" da minoria Rohingya, durante um protesto que liderou na capital para exigir o fim da perseguição dos muçulmanos, considerados imigrantes clandestinos sem Estado pelas autoridades birmanesas.