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Trump. É “confuso” e “contraditório”. Será “business as usual”?

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Um mês depois da eleição que surpreendeu o mundo, ainda se tenta adivinhar como será o mundo do Presidente Donald. Três especialistas convidados pelo think-tank de Paulo Rangel no Partido Popular Europeu atiraram os búzios, leram as folhas de chá, analisaram as pistas e tentam responder às dúvidas. Mas as perguntas ainda são mais do que as certezas

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Bruxelas

Jornalista da secção Política

Um mês depois da inesperada vitória do "Donald", tentar adivinhar como será a sua presidência e que impacto esta terá no mundo ainda é um exercício político de alto risco. Uma mistura de análise, palpites e adivinhação, com cientistas políticos e especialistas em diplomacia a escrutinarem pistas como se lessem o futuro em folhas de chá.

Giovanni Grevi, investigador sénior do European Policy Centre, não se acanha em dizer que é tudo "um bocado confuso", mas por enquanto ainda tem mais perguntas do que respostas. "O presidente eleito quer mesmo fazer aquilo que diz e estará preparado para implementar as suas principais promessas eleitorais sobre política externa? Que margem de manobra terá o presidente Trump quando estiver na .casa Branca, tendo em conta os constrangimentos internos e externos? Com Trump a personalidade do presidente terá mais peso nas tomadas de decisão do que com os seus antecessores, tornando a política externa norte-americana possivelmente mais volátil e imprevisível?" Perguntas, perguntas, perguntas...

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Foi para tentar responder a estas e a outras que o think-tank European Ideas Network (EIN), ligado ao Partido Popular Europeu (PPE) e dirigido pelo eurodeputado Paulo Rangel, reuniu em Bruxelas três especialistas em relações internacionais - dois norte-americanos e um italiano - para uma conferência a que o Expresso assistiu sobre o que se pode esperar depois das eleições norte-americanas. Grevi, o italiano, não tinha só perguntas - tem as suas ideias sobre quais podem ser as respostas. Os restantes também. Mas antes do exercício sobre como será o futuro, olhemos para o passado e recuemos um mês. Ou um ano.

Três mensagens simples

Michael Maibach, diretor do James Wilson Institute on Natural Rights, não esconde o seu alinhamento com boa parte das ideias de Donald Trump, e tão pouco esconde o gozo que lhe deu o facto do milionário ter escrito uma história que todos diziam impossível. "Há um ano que se falava na falência do Partido Republicano, pânico no Partido Republicano, a implosão do Partido Republicano, da forma como Donald Trump deixaria o partido irremediavelmente dividido..." E, "guess what?", Trump ganhou. "O meu padre, na missa de domingo, costuma dizer que o seu trabalho é confortar os aflitos e afligir os que estão confortáveis. Seguramente Trump conseguiu fazer isso!"

Maibach tem a sua explicação para a vitória de Trump, e vai buscá-la às três mensagens essenciais do candidato: 1) A América é um país; 2) o governo americano está a falhar; 3) há que manter vivo o sonho americano. Todas, explica, acertaram em cheio no sentimento da maioria do eleitorado, a começar pela primeira, que parece uma evidência mas é uma afirmação política determinante. "Para ser um país de oportunidades, a América tem, antes de mais, de ser um país". Ora, quando mais de onze milhões de pessoas entraram livremente e sem documentos nos EUA, "as pessoas começam a questionar-se se a América é mesmo um país". Não é coisa pouca, pois "não existe isso da cidadania global, os cidadãos são cidadãos de um país" - e quando Trump promete construir um muro, Maibach ouve uma metáfora: "o que ele está a dizer é que somos um país e vamos fazer um país outra vez".

Por outro lado, quando boa parte do eleitorado considera que o Governo está a falhar, Hillary Clinton, que foi primeira dama e secretária de Estado, "faz parte desse falhanço". A herança de Obama, deste ponto de vista, é o contrário de uma história de sucesso, nomeadamente na política externa, onde Hillary foi protagonista - e deu argumentos a Trump para a atacar, por responsabilidades reais ou imaginária, fosse pelo desastre em que se transformou a Síria, pela ascensão do Estado Islâmico ou pelo ataque aos americanos em Bengazi, na Líbia.

d.r.

Terceira e última mensagem: manter vivo o sonho americano implica resultados económicos. "It's the economy, stupid!", foi o mote do senhor Clinton "e acho que a senhora Clinton não percebeu isso", diz Maibach. Embora um dos oradores seguintes, Peter Chase, tenha notado que Obama deixa os EUA a crescer e a criar empregos consideravelmente tendo em contava dimensão da crise de 2008, Maibach conta outra história: uma em que muitos eleitores se sentiram deixados para trás, enquanto Obama passava "300 dos 400 fins de semana da sua presidência a jogar golfe". Foi a esses trabalhadores que Trump falou diretamente, com a promessa de pôr fim a acordos comerciais que, do seu ponto, de vista, desequilibraram os pratos da balança em prejuízo dos EUA.

O "durão" isolacionista

Contada esta história, com três mensagens simples e eficazes, como o confirma o resultado eleitoral, prognósticos só no fim do jogo, como dizia o outro. Mas o italiano Giovanni Grevi juntou pistas sobre o que pode vir aí sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. Para início de conversa, temos as posições essenciais de Trump durante a campanha, a começar pela ideia de colocar "a América primeiro", ou seja a promessa de dar sempre prioridade ao "interesse nacional", em detrimento de abordagens multilaterais dos EUA enquanto pivô do mundo.

"A questão é como é que se define o interesse nacional e se isso é compatível com o envolvimento dos EUA nas questões internacionais", acrescenta o especialista em relações internacionais. A sua resposta, para já, é que "Trump tem uma visão bastante estreita do interesse nacional"; porém recorda que uma abordagem centrada nos Estados Unidos não tem de equivaler a um alheamento dos compromissos e acordos assumidos no passado por Washington. A prova? Ronald Reagan também tinha a retórica "a América primeiro" e deu cartas na política externa.

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Se Trump apresenta com um discurso nacionalista e isolacionista que rejeita o globalismo, também revela aquilo a que Grevi chama uma "visão transacionalista das relações internacionais": tudo é julgado de acordo com o ganho que possa trazer para os EUA, um perspetiva em que "a história, a tradição e as alianças não são proeminentes". O "namoro" de Trump com Putin, bastante referido ao longo da conferência, ilustra bem este ponto; bem como o distanciamento do futuro presidente em relação à Nato.

Destas linhas-mestras podem já retirar-se algumas prováveis prioridades da próxima administração: a renegociação ou denúncia dos grandes acordos comerciais internacionais, a reavaliação das políticas dirigidas às mudanças climáticas, uma nova abordagem militar focada no combate e prevenção do terrorismo e menos na projeção de tropas para outros países, seja para manutenção de paz ou "nation-building".

Mas muita coisa pode mudar durante o mandato, devido a diversos fatores: seja pela força de novas circunstâncias, seja pela personalidade de Trump, seja pela equipa que venha a formar ou pela pressão dos valores e tradições do Partido Republicano.

O facto de Trump ser Trump não pode se ignorado. "Ele é uma personagem incomum e tem usado a sua personalidade para projetar uma imagem de alguém que impõe e exige respeito", diz Giovanni Grevi. Sim, até agora, Trump tem mostrado uma "atitude de durão" - mas tendo em conta que "as relações internacionais dependem de compromissos, veremos como esta atitude resultará".

E há o Partido Republicano - o tal que sofreu bastante no último ano, mas não se esfrangalhou, ao contrário das previsões. O que significa que Trump não tardará a sentir a pressão das "várias fações e tradições" partidárias. O G.O.P. nunca foi um monólito na abordagem da diplomacia e, no partido, sempre coexistiram três tendências, diz Grevi: os conservadores anti-intervencionistas, os conservadores internacionalistas e os conservadores nacionalistas. Trump, diz o analista italiano, parece encaixar na escola dos conservadores nacionalistas, com um "twist" anti-intervencionista.

Pôr a economia a crescer

Será mesmo? "Eu diria que ele encaixa em todas as em todas as escolas em simultâneo" - Peter Chase, o orador que se seguiu na conferência, pegou na deixa do antecessor para por a audiência a rir. "Senior fellow" do German Marshall Fund e antigo diplomata norte-americano especializado nas relações com a UE, este especialista em economia transatlântica puxou o debate para o terreno económico. Com uma certeza: sobre políticas económicas, "Donald Trump tem muitas coisas para dizer, nem todas consistentes e algumas contraditórias" - mas "make America great again" podendo significar muita coisa, "significa por a economia a crescer".

Chase considera que, no plano macro, Trump recebe um país que conseguiu "um crescimento tremendo" tendo em conta o abismo da crise de 2008, mas admite que foi o plano micro, ao nível da perceção de cada eleitor, que se impôs no voto de novembro: as pessoas que perderam o emprego e ainda não voltaram ao mercado de trabalho, os que perderam a casa, os que veem a globalização a puxar mais por outros países do que por estes milhões de norte-americanos que "sentem que a economia não está bem".

A receita terá ingredientes de Reagan, na prometida redução de impostos, terá investimento em infraestruturas e uma aposta no reequipamento das forças armadas que não deve ser desvalorizado. O programa de reabilitação de infraestruturas - o lado keynesiano das promessas de Trump - tem levantado muitas dúvidas sobre como será concretizado (a hipótese das PPP agrada a variados ouvidos e bolsas), mas será uma das marcas da futura presidência, e por diferentes razões. "Trump é um construtor, esta é uma questão com apoio nos dois partidos e os EUA precisam mesmo de promover o investimento em infraestruturas." O programa de investimento em equipamento militar também - Chase está convencido de que "a parte secundária de make América great again é repor o poder militar", para contrariar a convicção, expressa várias vezes por Trump, de que "os inimigos não nos temem e os aliados não confiam em nós".

E há, claro, o elefante no meio da sala que é o comércio internacional. Peter Chase classifica o discurso de Trump como "altamente mercantilista", na medida em que quaisquer que sejam as políticas que venham a ser adotadas, serão para "promover as exportações americanas". O conceito operativo de Trump será a dicotomia comércio livre/ comércio justo (soa melhor em inglês: "free trade/ fair trade"), que lhe permitirá pressionar jogadores importantes como a China, que "não tem uma abordagem justa" ao comércio internacional. Mas, por isso mesmo, o ex-diplomata vê como contraditório o anúncio de que Trump quer renegociar ou denunciar o acordo de comércio transatlântico (TTIP no acrónimo inglês). "Se a China é a sua principal preocupação [de Trump], o TTIP foi a forma de os incentivar a fazer comércio mais leal. Se Trump rasgar o TTIP, acaba por dar um benefício à China, é uma mensagem errada aos aliados [europeus] sobre a confiança nos EUA".

O anti-Kissinger

Certo. Isto é tudo muito bonito, mas este é o momento em que Michael Maibach, o único dos três oradores que se encaixa no pensamento de Trump, traz a conversa de novo à terra. "Ele é um homem de negócios, não é um teórico. A pergunta dele é: o que é que nós queremos, e o que é que eles têm?" Tão simples como isto. "Seja com o Putin, seja com a China". Toma lá, dá cá.

Ninguém espere de Trump uma grande elaboração teórica sobre o papel dos EUA uma nova ordem mundial, seja de comércio internacional, seja de segurança e defesa. "Ele não tem um grande esquema, é uma abordagem anti-Kissinger": o que é que eles têm para nós, o que é que nós queremos deles.

Visto assim, pode parecer tudo mais fácil. Também pode ser tudo mais perigoso, pois olhar para Trump deste ponto de vista terra-a-terra é o primeiro passo para o normalizar. E queremos normalizar Trump? O Donald é o modelo do novo normal, dos novos políticos que aí vêm? A questão foi colocada por Danuta Hubner, ex-comissária europeia para a Política Regional, que estava entre a assistência. A polaca, que atualmente é eurodeputada, também lançou perguntas sobre a atitude da UE perante Trump. "Estamos a esperar para ver, e depois adaptamo-nos, e isso preocupa-me, porque também é nossa responsabilidade sermos muito claros sobre aquilo que esperamos dos EUA." Entre os oradores, ninguém pegou na deixa.

No final, Paulo Rangel mostrou-se satisfeito porque "estamos finalmente a ganhar calma" para olhar para os Estados Unidos depois do choque de há um mês. E também o eurodeputado português fez a sua perninha no negócio da futurologia. Falou em "alguma confiança de que muitas coisas vão mudar, mas muitas coisas vão continuar. É business as usual."

Será? Giovanni Grevi, ao seu lado, não contrariou Rangel. Mas o seu mais recente paper, publicado a 2 de dezembro, sobre o futuro da diplomacia norte-americana, tem como última frase precisamente a convicção inversa: "Isto não vai ser business as usual". Apertemos, pois, os cintos de segurança.