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China pede que líder taiwanesa seja impedida de aterrar em Nova Iorque

Ashley Pon/GETTY

Tensões entre as duas maiores economias do mundo continuam a adensar-se no rescaldo da controversa chamada telefónica de Donald Trump com Tsai Ing-wen, o primeiro contacto direto de um Presidente norte-americano com um líder da ilha em mais de 35 anos

A China pediu esta quarta-feira aos Estados Unidos que impeçam a Presidente de Taiwan de entrar nos Estados Unidos numa altura em que os contornos da conversa que veio quebrar todos os protocolos, entre Donald Trump e Tsai Ing-wen, continuam a ser revelados, criando fricções entre as duas maiores economias mundiais.

Tsai tem um périplo oficial planeado para a América Central em janeiro, com visitas antecipadas à Nicarágua, Guatemala e El Salvador, e tem havido especulação de que vai aproveitar a paragem em Nova Iorque em rota para aquela região para se encontrar com o Presidente eleito dos EUA antes de este substituir Barack Obama e tomar posse a 20 de janeiro. Vários conselheiros e representantes de Trump desmentem este plano.

A China, que defende que Taiwan faz parte do seu território e que não reconhece autoridade a Tsai ou a qualquer outro líder político da ilha, pediu aos Estados Unidos que impeça a entrada da Presidente taiwanesa no território norte-americano. Em comunicado enviado à Reuters, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês disse esperar que os EUA "não autorizem o trânsito nem envie os sinais errados às forças 'da independência de Taiwan'". O Ministério defende ainda que o objetivo de Tsai, que em janeiro se tornou na primeira mulher a liderar Taiwan ao vencer as eleições pelo Partido Progressivo Democrático (DPP), tendecialmente independentista, é "auto-evidente".

Um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano citado pelo "The Guardian" pareceu minimizar os pedidos da China, dizendo que os líderes de Taiwan sempre usaram os EUA como país de trânsito em viagens, parte de uma "prática de longa data dos EUA, consistente com a natureza não-oficial das nossas relações com Taiwan". Os EUA não mantêm relações diplomáticas com Taiwan desde 1979, após terem reconhecido oficialmente as reivindicações da China sobre a ilha nesse ano.

O pedido da China para que Tsai seja impedida de aterrar em Nova Iorque no próximo mês surgiu depois de o "New York Times" ter avançado que um ex-nomeado republicano para as presidenciais, Bob Dole, terá sido o responsável por orquestrar a controversa conversa telefónica de dez minutos entre Trump e Tsai, que foi anunciada por Trump na sexta-feira.

Na terça, o "Washington Post" tinha noticiado que o telefonema que tanto irritou a China — e que os assessores do Presidente eleito garantem que foi iniciado pela líder taiwanesa e apenas para congratular Trump pela sua vitória nas presidenciais de 8 de novembro — estava a ser planeado há vários meses, ainda antes de o empresário populista ter conseguido a nomeação do partido em julho.

O NYT avançaria horas depois que o republicano Bob Dole, agora lobista em Washington, terá passado os últimos seis meses a fazer o trabalho de bastidores que tornou possível esta conversa, após estabelecer contacto entre as mais altas autoridades de Taiwan e a equipa de Trump. "É justo dizer que podemos ter tido alguma influência", disse citado pelo "Wall Street Journal", referindo-se à sua sociedade de advogados, Alston & Bird, que terá recebido uma compensação de 140 mil dólares paga por um representante cultural e económico de Taiwan que funciona como embaixada não-oficial nos EUA.

A nova revelação sobre o caso cada vez mais bicudo da conversa entre Trump e Tsai — o primeiro contacto direto e oficial entre um líder dos EUA e um homólogo taiwanês em mais de 35 anos — veio alimentar críticas renovadas sobre a forma como o Presidente eleito está a gerir assuntos diplomáticos mundiais da maior delicadeza.

"Parece realmente estranho que Trump esteja a ignorar o Departamento de Estado enquanto aparentemente autoriza Bob Dole, um lobista a favor de Taiwan, a marcar encontros para ele no que parece ser uma alteração na política dos EUA e na forma como lida com Taiwan", disse ao "Politico" Fred Wertheimer, fundador e presidente do grupo de monitorização civil Democracy 21. "Os interesses de Dole neste caso certamente envolvem os interesses de Taiwan mais do que os interesses americanos e o facto de que ele foi um intermediário levanta sérias questões sobre até que ponto é que o Presidente eleito Trump vai estar envolvido na política externa dos EUA."

Na terça-feira, e apesar da aparente calma e diplomacia da parte das autoridades chinesas face a estas quebras de protocolo, dois dos jornais mais próximos do regime e do Partido Comunista Chinês (PCC) recorreram a duras palavras e ideias para criticar o Presidente eleito, dizendo que Pequim deve estar preparada para "contra-atacar" os EUA e alegando que as "birras" de Trump são um sinal de que há nuvens no horizonte das relações sino-americanas.