Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Cazeneuve, o soldado que vai salvar Valls e Hollande?

reuters

Bernard Cazeneuve, novo primeiro-ministro francês para apenas meio ano, é um discreto, consensual e eficaz socialista. Foi escolhido por ser um dos poucos que pode amparar o Presidente, François Hollande, que quer sair dignamente do Eliseu. E também porque, aparentemente, pode ajudar o seu antecessor, Manuel Valls, na campanha para as presidenciais. Mas nada, neste momento, é certo em França, até porque Valls é suspeito por alguns de ter apunhalado Hollande pelas costas

Homem consensual no muito dividido PS francês, Bernard Cazeneuve tem como missão dirigir o Governo até às eleições presidenciais e legislativas da primeira metade de 2017. Mas, simultaneamente, terá, em princípio, uma outra dupla tarefa: preparar da melhor forma possível a saída de cena de François Hollande, que não se recandidata a um segundo mandato na Presidência francesa, e ajudar o até agora primeiro-ministro, Manuel Valls, na sua difícil campanha para o Eliseu.

Contudo, com um Presidente que perdeu autoridade ao ser obrigado a renunciar à recandidatura, e um candidato à presidência, Manuel Valls, suspeito de ter apunhalado o Presidente pelas costas para poder avançar com a sua ambição presidencial, as tarefas de Cazeneuve parecem muito complicadas, senão impossíveis.

O PS francês está mais dividido do que nunca e, dentro do partido, há quem não esconda querer ajustar contas com o antigo primeiro-ministro, que dissera, dias antes da renúncia de Hollande, estar disposto a avançar contra ele. Os “hollandistas” não perdoam a Valls o que chamam, em privado, “uma traição” da sua parte em relação ao Presidente. Juntam-se a eles os “frondeurs” (revoltados, da ala esquerda do PS), que sempre atacaram duramente o até agora chefe do Governo. Martine Aubry, antiga líder do partido, já colocou reticências à sua candidatura às primárias socialistas e ao Eliseu e o mesmo acontece com outros “frondeurs”, como o deputado parisiense Pascal Cherki. Este último disse ao Expresso, que “tanto critica a renúncia de Hollande como contesta a candidatura de Valls”.

O homem da coesão no dividido PS?

Bernard Cazeneuve era até agora ministro do Interior e era um dos governantes mais apreciados pelo conjunto dos socialistas e pelos franceses. Chegou à chefia do Governo depois de uma reunião, na manhã desta terça-feira, no Eliseu, de Manuel Valls com o Presidente François Hollande. Aparentemente, os dois homens concordaram que é o homem certo para ocupar a chefia do Governo nas atuais circunstâncias muito difíceis para os socialistas franceses.

ADEUS E ATÉ JÁ. O primeiro-ministro cessante, Manuel Valls

ADEUS E ATÉ JÁ. O primeiro-ministro cessante, Manuel Valls

reuters

No entanto, a sua alegada tarefa de ajudar Valls a chegar à presidência parece condenada ao fracasso, porque, atualmente, todas as sondagens dão qualquer candidato socialista, seja ele qual for, duramente derrotado logo na primeira volta das presidenciais, a 23 de abril de 2017. Com efeito, todos os estudos e projeções apontam para uma segunda volta entre o conservador François Fillon e a nacionalista, herdeira da extrema-direita, Marine le Pen.

Com 53 anos de idade, Bernard Cazeneuve foi uma das figuras menos polémicas do governo de Manuel Valls, designadamente no seio dos socialistas. Valls, que lançou já a sua campanha para as primárias socialistas, sempre foi, ao contrário, muito criticado por uma larga franja do PS francês. Cazeneuve poderá transformar-se no homem da coesão e da união dentro do dividido PS? Ninguém o pode garantir neste momento tamanhas são as divergências, as guerras e mesmo os ódios entre os militantes das diversas fações do partido.

Uma figura discreta

Político discreto, Bernard Cazeneuve enfrentou com calma e algum sucesso, como ministro do Interior, diversas crises muito graves como a série de atentados terroristas sem precedentes que atingiu a França. Teve de gerir também as vagas de migrantes e refugiados, resolver o problema, que parecia insolúvel, do imenso bairro da lata de Calais, e o estado de urgência em que a França vive desde os atentados de 2015.

SAIO EU, ENTRAS TU. Manuel Valls passa a chefia do Governo a Bernard Cazeneuve

SAIO EU, ENTRAS TU. Manuel Valls passa a chefia do Governo a Bernard Cazeneuve

reuters

Foi um político apagado até à vitória de François Hollande nas presidenciais de 2012 mas, desde essa altura, foi sempre o homem das missões difíceis. Foi, nesse ano, nomeado ministro dos Assuntos Europeus e foi ele que fez a maioria dos socialistas aprovar o Pacto de Estabilidade Europeu que o candidato Hollande tinha prometido, durante a campanha eleitoral, renegociar. A seguir, em 2013, foi também ele que foi apagar o fogo no ministério do Orçamento, quando Jérôme Cahuzac foi afastado por ter contas bancárias escondidas na Suíça. Foi depois chamado, em 2014, para a pasta do Interior para substituir Manuel Valls, nomeado então primeiro-ministro após uma retumbante derrota dos socialistas nas eleições municipais. Agora volta a substituir Valls, na chefia do Governo.

Bernard Cazeneuve nunca eleva a voz, é de pequena estatura física mas é firme e determinado, como o demonstrou pela forma fria como reagiu durante os terríveis ataques terroristas a França. Tem sido eficaz e foi sempre o homem de todas missões impossíveis do presidente Hollande - missões que tem sempre cumprido como se fosse um soldado obediente e inteligente. No entanto, a atual, à frente do Governo, vai ser certamente a mais complicada de todas as que aceitou.