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A guerra que alimenta a fome que mata no Iémen

MOHAMMED HUWAIS/GETTY

Em dois anos, a guerra civil transformada num conflito regional sectário e esquecida pela comunidade internacional fez taxa de subnutrição infantil subir 200%. Bombardeamentos e economia decrépita já levaram à suspensão de metade dos hospitais e centros médicos de um país onde há mais de três milhões de deslocados internos e 19,4 milhões de pessoas sem acesso a água potável nem saneamento

O marido de Wafaa Hatem é taxista. Antes do início da guerra no Iémen, tinha poucas ou nenhumas dificuldades em encontrar clientes, mas com o impacto da campanha de bombardeamentos da coligação liderada pela Arábia Saudita na economia e nas infraestruturas do país, hoje em dia mal consegue fazer dinheiro suficiente para alimentar a família. "Às vezes o meu marido arranja trabalho, às vezes não consegue encontrar nada. Às vezes comemos, às vezes não conseguimos arranjar nada."

Wafaa acabou de ser mãe. Deu à luz dois meninos, gémeos. Um morreu logo à nascença. O outro, Ibrahim, continua a agarrar-se à vida há 21 dias, apesar de ter nascido profundamente subnutrido. Nas mãos do médico, relata o correspondente da BBC em Hajjah, no norte do Iémen, a cabeça do bebé parece "impossivelmente pequena". Por comparação, tudo à volta dele parece "improvavelmente grande". Apesar disto, Ibrahim teve sorte. Os médicos estão esperançosos que consiga sobreviver e crescer minimamente saudável, ao contrário do irmão que nunca irá conhecer e de tantas outras crianças que não resistem à fome que a guerra fez brotar no Iémen.

A família Hatem é uma em mais de três milhões que foram deslocadas pela guerra dentro do território iemenita. A sua existência diária está circunscrita ao desafio de tentar encontrar o que comer. Desde o início do conflito entre o governo apoiado pelos sauditas e os rebeldes que querem depô-lo, há dois anos, a taxa de subnutrição infantil disparou 200%. Metade das instalações médicas e hospitais existentes no país deixaram de funcionar, alguns porque foram atingidos pelos bombardeamentos da coligação liderada por Riade, outros porque não têm financiamento que garanta a sua sustentabilidade.

As estradas e pontes essenciais do território estão sob ataque frequente, o que dificulta ainda mais a distribuição de ajuda humanitária, quer sejam alimentos, medicamentos ou cuidados médicos. E os bens de primeira necessidade que as organizações não-governamentais conseguem pôr a circular no território são muitas vezes capturados pelos rebeldes, que querem controlar a sua distribuição. Muitos funcionários públicos, incluindo os do setor da saúde, não recebem salários há pelo menos quatro meses. Grupos como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) tentam aliviar algumas famílias mas é uma tarefa que desafia a realidade e que depende de recursos muito limitados.

Assim se encontra o Iémen, o país da guerra esquecida, onde há dois anos estalou uma guerra civil que os sauditas transformaram num conflito sectário regional com um impacto devastador para os 27 milhões de habitantes do país. Neste momento, 3,3 milhões de pessoas estão deslocadas internamente, com 14,1 milhões a viverem em insegurança alimentar e pelo menos 19,4 milhões sem acesso a água potável nem saneamento — os números são do gabinete da ONU que coordena os Assuntos Humanitários.

"Há um sistema implementado, com centros de alimentação, programas de nutrição, mas é muito difícil monitorizar esses programas e temo que muitas famílias simplesmente não consigam sequer chegar a um desses centros, para serem examinadas e integradas nos programas", conta ao enviado da BBC Colette Gadenne, diretora da missão dos MSF no Iémen, no hospital al-Jumhouri, em Hajjah, uma das áreas mais afetadas pelo conflito. "Todo o sistema está a colapsar, os hospitais fecham regularmente, é muito assustador ver como este país, que já era tão afetado pela pobreza e fraca governação, está a afundar-se mais e mais a cada dia."

O jornalista Fergal Keane diz que, diariamente, é abordado por dezenas de pessoas esfomeadas e desesperadas — muitas olham simplesmente para ele com esperança de que traga comida e ajuda, ladeadas pelos filhos e os netos esfomeados, algumas fazem-lhe pedidos diretos.

É o caso de Aisha Ali, que perdeu um filho para a subnutrição há cinco meses e que está desesperada para encontrar comida e medicamentos para a filha Asma, de quatro meses, que sofre de doença crónica. Os olhos de Asma estão amarelos por causa dos problemas de fígado provocados pela falta de alimento. "Precisamos de tratamento, se tiver. O que tem consigo? Algum tratamento, algum medicamento? Precisamos de qualquer coisa, precisamos de medicamentos. Se nos puder dar, agradeço-lhe."

A escala da procura é tão grande que mesmo as equipas humanitárias no terreno, como os voluntários da Save the Children que estão a trabalhar em Hajjah, não têm forma de dar resposta aos pedidos. Estão assoberbados. A falta de água limpa só veio piorar a situação, gerando há um mês um surto de cólera que, em poucas semanas, já afetou pelo menos 1400 pessoas, segundo contas da Organização Mundial de Saúde. A juntar a isso há inúmeros casos de pneumonia e diarreia aguda, duas maleitas que afetam profundamente grupos vulneráveis, como as crianças.

Só em Hajjah há mais de 17 mil pessoas a viverem em abrigos feitos improvisados a partir de uma mistura de palha, encerado e lama. Mahdi Ali Abdullah, a sua mulher e os seus nove filhos vivem num desses abrigos. "Estamos com medo dos ataques aéreos, mudamo-nos de um sítio para outro."

As guerras da Síria e do Iraque, conta o jornalista da BBC, ofuscaram o conflito do Iémen; nem 50% da ajuda financeira prometida por dadores chegou realmente ao destino até agora. Jamie McGoldrick, enviado da ONU ao Iémen, critica duramente a atitude da comunidade internacional (ou a falta dela). "A política desta situação sobrepôs-se à humanidade. A humanidade deixou de funcionar. O mundo faz vista grossa ao que está a acontecer no Iémen e neste momento é extraordinário quão poucos recursos temos para [lidar com] esta crise."