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O que esta fotografia não diz

ANO E MEIO. Foto de família tirada em junho de 2015. Dos cinco, quatro já disseram adeus

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Os líderes dos países mais poderosos do mundo estão a mudar – eles e os ideais políticos que representam. Menos Merkel, que vai a eleições no próximo ano na Alemanha. Pode a chanceler que foi acusada de querer destruir o euro ser a salvadora da União Europeia dos nacionalismos que a põem em causa?

Se estar de mãos cruzadas é estar parado, estar parado não é fazer nada: é talvez ter de fazer tudo. Por isso recentre os olhos das mãos que acenam para as que sustêm o movimento: Angela Merkel é a líder que resta desta fotografia subitamente anacrónica. A fotografia tem um ano e meio. É uma fotografia do passado.

“2016 numa fotografia” foi a legenda desta imagem hoje no Twitter, depois de ter sido publicada na conta de GreekAnalyst – e republicada por milhares de pessoas nas horas seguintes. É uma foto de 7 de junho de 2015, tirada numa cimeira do G7 na Alemanha. Os que diziam adeus então às câmaras dizem agora adeus aos cargos que ocupam. Barack Obama termina o seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, François Hollande já anunciou que não se recandidatará nas eleições presidenciais de França do próximo ano, David Cameron demitiu-se de primeiro-ministro do Reino Unido após a derrota do “não” no referendo do Brexit, Matteo Renzi anunciou este domingo a demissão do cargo de primeiro-ministro de Itália após a derrota do “sim” no referendo a alterações constitucionais. É por isso que a foto é simbólica: pelo adeus. Mas também é simbólica por Merkel, que irá a eleições na Alemanha no próximo ano. E porque na próxima fotografia deste género a chanceler alemã estará rodeada de líderes mundiais que representam ideais políticos muito diferentes. Talvez por isso a última visita de Barack Obama à Europa, há semanas na Alemanha, foi interpretada por vários analistas como um endosso: ela passará a ser a líder do mundo ocidental livre e tolerante. Merkel… Quem diria?

Por “mundo ocidental livre e tolerante” entenda-se aquele que (era?) liderado por partidos próximo do centro político, abertos à integração, ao comércio internacional, à imigração e às diferenças religiosas, mas também aquele que representa um “sistema” em que países endividados são mais vulneráveis ao sistema financeiro que eficientes na redistribuição de riqueza e criação de emprego.

Nos Estados Unidos, Obama é sucedido por Donald Trump; em França, as sondagens mostram um crescendo de Marine Le Pen, David Cameron foi substituído por Theresa May, em Itália o “palhaço” Beppe Grillo pode chegar a primeiro-ministro. Não mudam apenas as caras, mas as políticas, tendencialmente nacionalistas e adversas ao “sistema” que inclui a União Europeia, pelo menos tal como a conhecemos. Menos na Alemanha.

Quando eles iam ser infelizes e não sabiam

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Viagem no tempo, junho de 2007, a primeira reunião do G8 em dez anos: Stephen Harper (primeiro-ministro do Canadá), Tony Blair (PM do Reino Unido), José Manuel Durão Barroso (presidente da Comissão Europeia), Nicolas Sarkozy (presidente de França), Vladimir Putin (presidente da Rússia), Shinzō Abe (PM do Japão), Angela Merkel (chanceler da Alemanha), Romano Prodi (PM de Itália) e George W. Bush (presidente dos EUA).

G8 com dez? Sim, porque a Rússia e a Comissão Europeia foram convidados, o primeiro pela ascensão em vista, o segundo pela representação da UE. Da reunião saíram conclusões relacionadas com o aquecimento global, comércio internacional e sistemas de defesa de mísseis. Mas o mundo estava prestes a mudar: nesse verão eclodiria a crise financeia do “subprime”, que um ano depois ganharia dimensões globais e levaria à queda de bancos.

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“Este é o homem. Adoro este gajo. Ele é o político mais popular da Terra.” Obama nem saberia que as câmaras estavam a apanhar o som quando assim cumprimentava Lula da Silva, então no pico da sua popularidade. Hoje, está envolvido no maior escândalo de corrupção de sempre no Brasil.

Estávamos em abril de 2009, Obama tinha sido empossado Presidente dos Estados Unidos havia pouco mais de três meses, a Europa e os Estados Unidos travavam forças contra o sistema financeiro global que mergulhara o ocidente na profunda crise que sobreveio ao “subprime”, que levara à quebra do Lehman Brothers alguns meses antes.

A reunião do G20 tinha precisamente essa missão. Foi nela que a China passou para o primeiro plano das grandes potências mundiais. E da reunião sairia uma lista de decisões promissora, que basicamente pretendia a retoma do crescimento económico e enjaular o sistema financeiro.

Vale a pena reler a declaração conjunta do final dessa cimeira de Londres. Objetivos: restaurar a confiança, o crescimento e a criação de empregos; consertar o sistema financeiro para repor níveis de crédito à economia; robustecer a regulação financeira; capitalizar a reformar as instituições financeiras internacionais, de modo a superar a crise que então se vivia e prevenir crises futuras; promover o comércio internacional, rejeitar o protecionismo, garantir a prosperidade; promover uma retoma económica inclusiva, verde e sustentável.
Os líderes mundiais pareciam mais seguros sobre os objetivos a perseguir do que sobre o modo de conseguir cumpri-los.

De volta à reunião de 2015

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Dos cinco líderes mundiais, quatro deixaram ou estão em vias de deixar de sê-lo. Em Inglaterra e em Itália, por causa de dois referendos relacionados com a União Europeia, cujo desfecho a enfraquece. Nos Estados Unidos, por um processo que elegeu Trump, um político nos antípodas de Obama; em França, o desgaste da crise económica, a incapacidade de impor a agenda de esquerda que desafiava as políticas austeritárias da UE e ataques terroristas sangrentos deixaram o seu Presidente com popularidade baixíssima.

Na Alemanha, a direita extrema ganha popularidade em detrimento do centro político, mas Angela Merkel já anunciou a sua candidatura, mesmo depois de derrotas eleitorais em que o seu partido terá sido penalizado pela sua política de abertura aos refugiados. As hipóteses de ganhar essas eleições são válidas, tendo em conta as sondagens (com a ressalva de que as sondagens têm falhado sucessivamente em eleições como a americana ou em referendos como o britânico).

A última mulher de pé

Merkel é a única mulher destas três fotografias que se mantém no poder e tem a expectativa de se manter. Mas outro homem ganhou força desde aquela primeira fotografia de 2007: Vladimir Putin.

A Rússia e a Alemanha mantêm relações tensas, sobretudo porque os interesses da musculada política de Putin incluem uma fragilização da União Europeia. E a sua relação com Donald Trump, que ainda não é clara, não é antagónica, “entalando” a União Europeia numa possível fragilidade diplomática entre os dois líderes.

“Pensei sobre isto durante muito tempo. A decisão para um quarto mandato, após 11 anos no cargo, é tudo menos banal”, disse Angela Merkel, presidente da CDU (desde 2000), a 20 de novembro último. Depois de três mandatos, a chanceler voltará a ser candidata à liderança da Alemanha, nas eleições previstas para setembro de 2017.

Anunciou-se como candidata contra “o populismo e o extremismo que registam um crescimento nas democracias ocidentais”. Lamentou a onda de notícias falsas e de contrainformação a que passámos a chamar “pós-verdade”. Mas assiste no seu próprio país ao crescimento do partido Alternativa para a Alemanha, que representa a direita xenófoba.

Parte da viragem do eleitorado do ocidente estará relacionado com o medo proveniente das ameaças terroristas, mas uma parte maior parece residir na impaciência com a incapacidade para o sistema se regenerar por dentro. Os objetivos mundiais ausentes da reunião de 2007 foram prometidas em 2009 mas estão longe de estarem cumpridos.

“Com a saída de Obama do cenário mundial, Angela Merkel pode ser a última defensora da ordem liberal do Ocidente”, escrevia o The New York Times em novembro. O The Observer concordou dias depois: “A vitória de Trump e os riscos de governos de direita na Holanda e na França fazem de Angela Merkel uma figura fundamental para a sobrevivência dos valores democráticos”.

É irónico que grande parte dos países europeus que tanto criticaram Merkel pela ortodoxia das políticas de austeridade impostas na União Europeia agora nela vejam o último reduto para manter já não o projeto do euro mas a coesão da União Europeia. É também por isso que no próximo ano as eleições da Alemanha (como as da França) serão vistas com atenção por todos os europeus. Porque o que interessa já nem é quem fica bem ou mal na fotografia - mas apenas quem é que entra na fotografia.