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Matosinhos celebra a poesia com versos de fazer parar o trânsito

D.R.

A “Festa da Poesia” volta a invadir Matosinhos durante três dias, com muitos versos dilacerantes pelo caminho, flores de onde brotam poemas, enquanto outros brincam ao quarto escuro

Nas ruas. Nas passadeiras. Nas encruzilhadas. A poesia encontra-se por toda a parte em Matosinhos e, ao virar de cada esquina, um verso inscrito nos lugares mais improváveis pode fazer parar e refletir os transeuntes. Trata-se de mais ume edição da “Festa da Poesia”. Entre esta quarta e sexta-feira o município transforma-se numa “cidade-poema”, com a exaltação e leitura de autores tão variados, como a apaixonante e intensa Florbela Espanca, o homem multiplicado Fernando Pessoa, o surrealista Alexandre O’Neill, o desconcertante Al Berto ou ainda, de uma geração mais recente e que aprendeu a “rezar na era da técnica”, Gonçalo M. Tavares.

“Se as pessoas não vão à procura da poesia, a poesia vai até às pessoas”, começa por dizer o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Matosinhos, Fernando Rocha, em declarações ao Expresso. “Também vamos a escolas, lares de terceira de idade, juntas de freguesia, cafés… Tentamos tirar a poesia dos lugares formais”, explica o responsável. Porque a poesia não tem lugar. Pode ter correntes, mas não se acorrenta. E é para todos.

Este será o décimo segundo ano em que o evento, promovido pela autarquia, se realiza, na cidade onde Florbela Espanca viveu e acabou por colocar fim à vida, a 8 de dezembro de 1930, no dia em que completava 36 anos.

“Chamamos-lhe ‘Festa da Poesia’ porque a poesia ainda é vista como uma coisa difícil, de acesso não tão imediato e só para algumas pessoas. Dar-lhe o nome de “festa” foi um pouco para desmistificar um certo preconceito à volta da poesia”, conta o vereador.

Atenção ao caminho. Há versos dilacerantes e poemas que brotam de flores

“Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade”, escreveu a poetisa. Passados todos estes anos, a verdade inegável é que Matosinhos não a esquece e por toda a parte, desde o centro da cidade até Leça da Palmeira ou São Mamede de Infesta, os seus versos e de outros autores, como Alice Sat’Anna, Diego Callazans ou Mariano Marovatto, surgem impressos a “stencil” em várias zonas de intenso tráfego automóvel. Trata-se da iniciativa “No meio do caminho havia um verso”, já iniciado em 2015, e é caso para dizer que a poesia chegou preparada para fazer parar o trânsito.

“A mudança era uma morte que viria no meio da noite”, lê-se agora numa das ruas de Matosinhos o verso de Marovatto. Num outro ponto da cidade, mantenha-se atento ao percurso, pois “minh’alma de sonhar-te anda perdida”, avisa Florbela Espanca a todos aqueles que, apressados, atravessam uma das muitas passadeiras do município, assim que o sinal verde indica para avançar.

Mas há muito para ver, com mais calma, nesta “Festa da Poesia”. Em jeito de antecipação, poemas vão brotar de 500 flores, distribuídas a outras tantas mulheres, com a iniciativa “Poemas com(o) flores”.

A programação oficial arranca esta quarta-feira, pelas 10h, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, com a sessão “Trava-Lengas”, uma oficina dedicada a “deixar a língua num nó”, avisa a organização. À mesma hora, num outro local, “Há rap na escola”, com o rapper Mundo Segundo a promover junto dos alunos da Escola Secundária/3 Padrão da Légua uma nova abordagem da poesia.

No mesmo dia, pelas 21h30, na biblioteca municipal há lugar a uma entrevista de vida com o poeta e ensaísta Nuno Júdice. Uma hora mais tarde bebe-se “O Vinho dos Poetas”, uma homenagem à relação entre a poesia e o néctar de Baco, presente na escrita poética de autores tão variados, como Ary dos Santos, Manuel Alegre, Ricardo Reis ou João Cabral de Mello Neto.

No feriado os poemas jogam ao “Quarto Escuro”

No feriado, dia 8 de dezembro, a programação recomeça às 15h com a apresentação do livro “Viajar com… Luísa da Costa” e às 16h45 é também apresentada antologia de nova poesia brasileira intitulada “Naquela língua – Cem poemas e alguns mais”, ambas na Biblioteca Florbela Espanca.

Às 17h30 apagam-se as luzes e há “Poemas no Quarto Escuro”, um espetáculo onde se pretende proporcionar uma experiência sensorial através da palavra dita e que conta com leituras a cargo de Miguel Guedes, Sónia Balacó, Alexandra Gonçalves e Jaime Rocha. “O quarto escuro é literal. As pessoas ouvem os poemas sem luz absolutamente nenhuma e não veem quem está a dizer o poema. Às vezes ficam muito surpreendidas quando descobrem, no final, quem ali estava a recitar”, explica Fernando Rocha.

Matosinhos será capital de “Portugal dos Poetas”

Dia 9, último dia da “Festa da Poesia”, o Cineteatro Constantino Nery será, pelas 21h30, a capital de “Portugal dos Poetas”, um recital interpretado por Natália Luiza, da companhia “Teatro Meridional”.

O espetáculo dá voz a uma grande multiplicidade de poemas e prosa de autores de diferentes tempos da história, de forma a encontrar, no tempo presente, “padrões que se repetem, realidades que se assemelham, numa matriz que identificamos como nossa”, lê-se na sinopse do espetáculo.

Ao longo da sessão, o público poderá embarcar numa viagem poética por águas tão agitadas e correntes tão díspares, ao ouvir poemas de Al Berto, Alexandre O´Neill, Ana Haterly, Antero de Quental, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Gonçalo M. Tavares, Jorge de Sena, Luiz Vaz de Camões, Mário Henrique Leiria, Natália Correia, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Virgílio Ferreira, entre outros.

Sobre a motivação para Matosinhos continuar a fazer a celebração da poesia, ano após anos, o vereador Fernando Rocha explica que “o mundo está tão pouco poético”, motivo para “criar às pessoas momentos com alguma beleza e também com alguma reflexão, que não tem de passar por um bombardeamento de más notícias”.

A programação completa pode ser consultada aqui.