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Itália: nove respostas para explicar as consequências do referendo aos estrangeiros

Itália: Matteo Renzi, primeiro-ministro demissionário (à esquerda), com o Presidente da República Sergio Mattarella

EPA

Para já, a única crise que a vitória do ‘Não’ provocou foi o anúncio da demissão do primeiro-ministro Matteo Renzi. Mas no “estrangeiro a perceção dos resultados é diferente” da que se viveu no país, diz ao Expresso o politólogo Goffredo Adinolfi: “Em Itália, este resultado não criou uma dicotomia entre democracia” de um lado, e “populismo e extrema-direita” de outro

Dois dias depois da vitória do ‘Não’ no referendo, o mais jovem primeiro-ministro de Itália de sempre, ameaçou trocar a equipa principal pelo banco dos suplentes. Entrevistado pelo Expresso, o politólogo italiano Goffredo Adinolfi, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa, diz que a Democracia não vive nenhuma crise. Com “a vitória do ‘Não’ mantém-se o texto Constitucional” de 1948, que foi pensado para “evitar uma ditadura da maioria”.

A única certeza é que a data escolhida por Renzi para a realização do referendo – que era obrigatório para levar avante a reforma constituicional – condicionou o resultado final da votação. No princípio deste ano, o homem que fez depender a sua continuidade no cargo de primeiro-ministro do referendo à Reforma da Constituição nunca julgou que os resultados iriam ser estes. No último domingo, cumpriu o que tinha prometido e demitiu-se perante a expressiva derrota nas urnas. Segunda-feira, fez um recuo tácito depois de ser recebido pelo Presidente Mattarella, que lhe terá pedido para se manter em funções até o Orçamento de Estado ser votado pelo Senado. Só o tempo dirá se Renzi consuma a intenção de se demitir no final desta semana, depois do referendo que mobilizou 68,48 % da população recenseada.

Na sua opinião, a perceção sobre os resultados do referendo de 4 de dezembro não é a mesma dentro de Itália ou fora do país?
A campanha para o referendo foi fraturante, mas o que está em causa não é uma dicotomia entre o populismo de extrema-direita e a democracia, como foi referido por alguma imprensa internacional. Digamos que os resultados do referendo são uma coisa estritamente italiana.

O que é esse fenómeno italiano que foi a votos?
O referendo deste domingo foi sobre a terceira grande tentativa de reformar o sistema constitucional italiano. A primeira tentativa remonta a 1992, quando o regime que ficou conhecido por I República entrou em crise. Foi na época da operação “Mãos Limpas”, que investigou a corrupção [e que atingiu políticos como o ex-primeiro-ministro Bettino Craxi]. Em 2006, no tempo de Berlusconi houve uma segunda tentativa, e os italianos recusaram em referendo a proposta de reforma da Constituição.

O sistema político italiano é complexo, há um senado e uma câmara de deputados. Renzi já tinha feito alterações à lei eleitoral...
Em Itália, a lei eleitoral é ordinária, tem tido várias mudanças nos últimos 20 anos. A última alteração que foi feita, já no tempo do governo de Matteo Renzi, só contemplou a câmara dos deputados...

4 de dezembro de 2016: O ainda primeiro-ministro, Matteo Renzi, aguarda a vez de votar no referendo ao sistema Constitucional, na companhia de Agnese, a sua mulher. Assembleia de voto de Pontassieve, arredores de Florença

4 de dezembro de 2016: O ainda primeiro-ministro, Matteo Renzi, aguarda a vez de votar no referendo ao sistema Constitucional, na companhia de Agnese, a sua mulher. Assembleia de voto de Pontassieve, arredores de Florença

REUTERS

Ou seja, deixou de fora o senado porque Renzi tinha intenção de acabar com esta câmara? E foi isso que levou a Itália ao referendo de 4 de dezembro?
A ideia da reforma passava por uma agilização do processo legislativo. Quando começou a falar do referendo, todo o discurso de Renzi foi baseado na redução do número de políticos, na redução de custos com a política, no mandar embora a casta dos políticos...

Renzi escolheu mal o timing do referendo? Sem perceber que já não tinha o mesmo apoio dos italianos que tinha tido em abril quando a câmara dos deputados aprovou com 361 votos a favor, a reforma constitucional que prentendia reduzir os poderes do Senado?
Essa é a grande pergunta: se ele devia ter percebido que os italianos já não estavam do lado dele. E esse é também o grande paradoxo: Renzi julgou que o marketing político jogaria a seu favor, que o apelo ao voto no ‘Sim’ para mudar a casta dos políticos funcionaria, e não viu os contras da sua política de centralizar quase tudo em torno dele, não mediu os efeitos da Itália ser o único país da Europa cujo PIB quase não cresceu nos últimos 20 anos, de ter um enorme desemprego juvenil. Acreditou no marketing político e fez grandes promessas: por exemplo, dois dias antes do referendo prometeu aumentar os funcionários públicos.

E agora o que vai acontecer?
Temos um Presidente da República que tem uma grande experiência política e que sabe fazer consensos. Mattarella vai ouvir os atores políticos. É impossível dizer o que vai acontecer, mas acredito que vá fazer tudo para estabelecer pontes. A Itália precisa de serenar os ânimos, porque a campanha eleitoral para o referendo foi fraturante.

Pier Carlo Padoan,66 anos,professor universitário,foi diretor do FMI e ministro da Economia e Finanças de Matteo Renzi. É apontado como o mais provável líder do próximo Governo italiano

Pier Carlo Padoan,66 anos,professor universitário,foi diretor do FMI e ministro da Economia e Finanças de Matteo Renzi. É apontado como o mais provável líder do próximo Governo italiano

TONY GENTILE/REUTERS

Qual é o pior cenário para sair da crise desta crise governativa?
O pior cenário é haver eleições antecipadas. O Beppe Grillo já mudou o discurso sobre isso. O clima está muito tenso, e um cenário de eleições antecipadas poderia ser capitalizado pelos populistas.

E qual é o melhor cenário ou pelo menos o mais provável e razoável?
Não creio que possa haver eleições, até porque o Tribunal Constitucional nunca se pronunciou sobre a última alteração à lei eleitoral. Para além disso, pode [sempre] formar-se um novo governo liderado pelo Partido Democrático com Renzi ou sem ele. A imprensa fala de Pier Carlo Padoan [ministro da Economia e Finanças de Matteo Renzi], que é um tecnocrata moderado. Um homem que não tem o mesmo discurso de desmantelamento [de tudo o que estava para trás] com que Renzi conquistou o partido. Pode ser uma solução.