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Internacional

China deve estar preparada para “contra-ataque” aos EUA de Trump

Drew Angerer/GETTY

No rescaldo do controverso telefonema de Donald Trump com a líder de Taiwan, tablóide com ligações ao Partido Comunista Chinês diz que “birras” do Presidente eleito são um sinal de que vêem aí problemas — e que Pequim deve estar preparada para reagir

A China deve estar preparada para reagir em contra-ataque às "birras" e "provocações" de Donald Trump, que na segunda-feira continuou a alimentar uma guerra de palavras inflamada contra a China depois de uma controversa conversa ao telefone com a Presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, que o Presidente eleito dos EUA anunciou via Twitter na sexta-feira.

Esta terça-feira, Henry Kissinger, o diplomata veterano que foi responsável por restabelecer as relações dos Estados Unidos com a China no início dos anos 1970, tinha dito que está "muito impressionado com a reação calma da liderança chinesa" face à conversa de Trump com Tsai, a primeira vez que um líder norte-americano falou diretamente com um governante de Taiwan em mais de 35 anos, quebrando todos os protocolos.

Para Kissinger, tal sinaliza que o regime chinês está "empenhado em esperar para ver se vai ser possível desenvolver um diálogo calmo" com a futura administração norte-americana, que toma posse a 20 de janeiro.

Mas numa atitude oposta à do governo, o "Global Times", um tablóide estatal que muitas vezes reflete as visões dos dirigentes do Partido Comunista Chinês (PCC), foi menos calmo, publicando hoje um editorial onde avisa que as "birras" do futuro Presidente dos EUA são um sinal de problemas no horizonte e onde ataca Trump pelas suas "provocações" inesperadas e imponderadas.

"Os tweets de Trump a denegrir a China são só uma fachada para a sua verdadeira intenção, a de tratar a China como um cordeiro gordo de onde vai cortar um pedaço de carne", lê-se no editorial do tablóide. As "birras" do Presidente eleito dos EUA, continua o texto, sugerem que é agora "inevitável que as relações sino-americanas venham a testemunhar mais problemas quando ele chegar à Casa Branca".

"Devemos estar totalmente preparados, mental e fisicamente, para este cenário", avisa o "Global Times". "Independentemente do que Trump pensa, a China tem de estar empenhada em criar obstáculos aos seus pedidos nada razoáveis assim que ele tome posse e em contra-atacar se as suas decisões ameaçarem os interesses da China, sem olhar às consequências disso na dinâmica da relação sino-americana."

Na segunda-feira, já depois de o governo chinês ter apresentado uma queixa formal em Washington, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros manteve o tom cordial e comedido numa conferência de imprensa em Pequim. "Não vamos especular sobre o que tem levado o Presidente eleito Trump e a sua equipa a fazerem certas coisas, mas vamos certamente fazer-nos ouvir se o que eles fizerem disser respeito à China", disse Lu Kang, acrescentando que a equipa do magnata de imobiliário está "bem ciente da atitude solene da China".

Num artigo publicado na edição inglesa do site do "People's Daily", o jornal oficial do PCC, também se lê condenações às ações "desprezíveis e sem escrúpulos" que Trump tem assumido. "Trump e a sua equipa de transição devem compreender que arranjar problemas nas relações EUA-China corresponde a arranjar problemas para eles mesmos", avisa o jornal.

Esta terça-feira, fontes próximas do Presidente eleito disseram ao "Washington Post" que o telefonema com a Presidente de Taiwan estava a ser planeado há muito, ainda antes de Trump conseguir a nomeação do Partido Republicano para disputar a presidência com Hillary Clinton a 8 de novembro.

Mike Pence, o vice-Presidente eleito, e outros membros da equipa de transição garantem que foi Tsai quem contactou Trump para lhe dar os parabéns e continuam a entar minorizar a importância e o impacto da chamada inédita — em linha com a postura do candidato republicano durante a campanha presidencial, na qual teceu uma série de acusações à China por roubar postos de trabalho aos norte-americanos.

As cisões entre a China e Taiwan remontam a 1949, data da Revolução Chinesa liderada por Mao Tsé Tung. O até então líder chinês, Chiang Kai-shek, deposto por Mao, fugiu para a ilha a partir de onde formou um governo autónomo com o apoio dos Estados Unidos. A ONU não só chegou a reconhecer a soberania de Taiwan como o governo de Chiang foi um dos membros fundadores da organização e um dos cinco membros com assento permanente no Conselho de Segurança, até ter sido substituído pela República Popular da China em 1971.

A partir desse ano, apenas esta última passou a ser reconhecida como país e, até hoje, só 22 nações reconhecem o governo eleito e a autodeterminação de Taiwan. Os EUA cortaram relações diplomáticas com a ilha em 1979, embora tenham continuado a fornecer armamento à região. A China tem vários mísseis apontados a Taiwan e já ameaçou usá-los se o país declarar unilateralmente a sua independência.