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Um tractor chamado Renzi

Quem é o político e o homem que jogou tudo por tudo no referendo e perdeu. Ou será que não?

Qual foi a primeira aparição televisiva do actual primeiro-ministro italiano Matteo Renzi? Líder estudantil? Simpatizante futebolístico? Quadro duma juventude partidária? Nada disso. A primeira aparição pública de Renzi nos ecrãs remonta a 22 de Janeiro de 1994, às 19 horas, pré-horário nobre, portanto. Foi no Canal 5, no concurso Roda da Sorte, onde um dos concorrentes era um jovem de 19 anos, de óculos, vestido com um casaco demasiado largo e com forte sotaque toscano. Nada que o impedisse de se revelar bem preparado para enfrentar um dos pilares do império mediático de Berlusconi, o apresentador Mike Bongiorno, e de sair de cena com um prémio equivalente a 25 mil euros actuais, o suficiente para financiar o seu curso de Direito.

Outro qualquer tentaria camuflar este episódio no seu currículo mas não Renzi que se limita a rir e a dizer “não sou como os outros [políticos]”. Como os heróis das séries de aventuras poderia fazer seu o lema “o perigo é a minha profissão”. Daí os riscos que correu ao pôr todas as fichas neste referendo de alteração à Constituição, rejeitado por quase 60% dos italianos este domingo em referendo.

Mas toda a sua história foi feita assim. Em 2004, aos 29 anos, foi eleito para dirigir a província de Florença, cargo que os outros políticos desprezavam por parecer ter pouca visibilidade. Foi o trampolim para o ataque à Câmara de Florença para a qual viria a ser eleito quatro anos depois. Também nessa altura tinha dito “se perder volto para casa”. Nem voltou para casa, nem perdeu. E ganhou nessa altura a alcunha de “il rottamotore”, literalmente o que manda as velharias para a sucata. Quem? Nem mais nem menos que a classe dirigente do seu próprio partido, o Partido Democrata, coisa que de resto fará para chegar a primeiro-ministro há três anos, derrubando o seu correligionário Enrico Letta.

Em finais desse mesmo ano de 2008 houve um evento em Roma com jovens quadros do Partido Democrata para ver se estava em gestação algum émulo italiano de Obama. Renzi chegou atrasado mas falou com tal fluência e convicção que ficou claro quem era o mais bem colocado. “Não tive quaisquer dúvidas, tal era a diferença de estilo”, explicou Giuliano da Empoli, ao diário francês “Le Monde”. Tanto que foi assessorar Renzi na Câmara de Florença (actualmente lidera o think tank Volta).

Qual tractor de lagartas, mal foi eleito presidente da Câmara de Florença anunciou que acabaria num mês o projecto de transformação da Piazza dcl Duomo em zona pedonal que se arrastava há anos. Nem o método nem o estilo mudaram. O problema é que, apesar de tudo, é mais fácil pegar num mandato de autarca e reordenar o trânsito no centro de uma cidade turística, do que ser primeiro-ministro e conseguir ultrapassar todas as resistências inerentes a mudar a lei laboral ou a própria constituição que era o que agora estava em causa.

Por isso mesmo, ao reagir à derrota no referendo, depois de dizer que se demitia de primeiro-ministro conforme prometera em caso de derrota, recusou-se a admitir um revés político pois “quem luta por ideias” [neste caso tentar aproximar os cidadãos da política e combater o populismo] nunca se pode considerar derrotado”.

Se a demissão é certa e irreversível não é de espantar que o Presidente da República, Sergio Mattarella, o vcnha a convidar para encabeçar um governo de gestão na perspectiva de eleições legislativas antecipadas de 2018 já para o ano. E se assim for Renzi ganhará uns meses para preparar o contra-ataque. Até porque com Hollande quase a sair de cena e politicamente enfraquecido, quem mais pode aspirar a pegar na tocha do centro-esquerda europeu?