Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Réplicas da vitória do “não” em Itália: vai haver eleições antecipadas?

Franco Origlia

Celebrações nas ruas de Roma com a demissão de Matteo Renzi, euro e bolsas a cair, juros da dívida a aumentar. Incerteza está instalada em Itália — e na Europa. A bola está do lado de Sergio Mattarella, o Presidente, que tem agora a seu cargo a decisão de convocar eleições antecipadas ou de abrir a porta a um governo de transição que fique em funções até às eleições de 2018

Algumas centenas de italianos reuniram-se no domingo à noite no centro de Roma para celebrarem a vitória do "não" no referendo convocado pelo primeiro-ministro Matteo Renzi, agora demissionário, sobre uma reforma constitucional que pretendia reduzir os poderes do Senado e dos governos regionais para fortalecer o Estado central.

A vitória do "não" foi pouco surpreendente e também sem surpresas o que se celebrou nas ruas ontem à noite, mais do que o chumbo da proposta, foi a demissão de Renzi, do Partido Democrático (PD, centro-esquerda), o principal castigado nas urnas. "Vai para casa!", gritaram alguns manifestantes. "O 'não' ganhou, Roma ganhou, não podia ter corrido melhor que isto", declarou um outro, citado pela Press TV.

Antes do referendo de domingo, o jornal "La Stampa" e outros media locais diziam, com base nas sondagens que anteviam a vitória do "não", que muitos italianos "zangados e desiludidos" iam aproveitar esta votação para castigarem Renzi, os bancos, a União Europeia e todos os que lhes têm falhado, movidos pelos mesmos medos e as mesmas incertezas relacionadas com a economia e o mercado laboral que, em novembro, levaram muitos norte-americanos a dar a presidência ao populista Donald Trump nos Estados Unidos.

A vitória de Trump há um mês foi, aliás, celebrada em Itália pelo MoVimento 5 Estrelas, um partido anti-establishement fundado pelo humorista Beppe Grillo em 2009 que começou por ganhar apoios com comícios contra Sílvio Berlusconi mas que, durante a campanha para o referendo de ontem, acabou por se aliar à Liga Norte do antigo primeiro-ministro, um partido de direita xenófobo que também aplaudiu a eleição do populista Trump.

Na sequência da vitória do "não", a moeda única caiu esta segunda-feira para o mínimo mais baixo em 20 meses e os juros dos títulos de dívida italiana a dez anos subiram 13%, antecipando-se uma queda de mais de 400 pontos percentuais na bolsa italiana e um efeito de contágio a outros países da zona euro, como refere o "Financial Times" esta manhã.

Antes da votação, a União Europeia e os mercados estavam nervosos com a possibilidade de o "não" ganhar, pelo potencial de desencadear eventos como a chegada ao poder do MoVimento 5 Estrelas, que quer referendar a permanência de Itália no euro e que, em junho deste ano, passou a controlar as câmaras de Roma e Turim no rescaldo das eleições municipais. As sondagens mais recentes apontam um quase empate entre os populistas antissistema e o PD de Renzi.

Por esse motivo, e apesar de a pergunta colocada aos eleitores ter a ver com a Constituição e, de forma menos direta, com a Lei Eleitoral, a consulta era tida como o 'momento Brexit de Itália', a terceira maior economia da zona euro, pelo potencial de mergulhar a moeda única e toda a UE em profunda incerteza sobre o futuro. Assim foi.

A grande questão agora prende-se com o que vai fazer o Presidente italiano, Sergio Mattarella, a quem cabe decidir se aceita ou não o pedido de demissão de Renzi. Quase todos os partidos italianos são a favor de um governo tecnocrático de transição que fique ao leme de Itália até 2018, data das próximas eleições legislativas, para impedir que o MoVimento 5 Estrelas capitalize nas urnas o descontentamento generalizado entre a população.

Na véspera da votação, o NYT referiu num editorial que a única hipótese de mitigar os efeitos da antecipada vitória do 'não' era Renzi permanecer à frente dos destinos do país, ignorando a promessa de demissão que fez ao longo da campanha.

"Renzi não pode desfazer o seu impulso imprudente de convocar o referendo, um atalho político que demasiadas vezes acaba por se virar contra o seu criador", escreveu o conselho editorial do jornal norte-americano. "Mas pode mitigar alguns dos potenciais efeitos [da votação] ao declarar que vai permanecer no poder durante algum tempo independentemente do resultado. Isso acalmaria os mercados e os vizinhos de Itália e ajudaria a suavizar a transição para a realidade que o referendo criar."

No mesmo artigo, o jornal lembrou que "o sistema bicameral único de Itália foi criado para manter em cheque os poderes executivos num país em tempos liderado por Benito Mussolini e mais recentemente por Sílvio Berlusconi" e que, "alterá-lo pode ajudar o sr. Renzi a aprovar reformas mas também pode ajudar um líder diferente a alcançar objetivos menos saudáveis".

Sem surpresas, o MoVimento de Grillo já está a exigir esta manhã que sejam convocadas eleições antecipadas. A decisão está nas mãos do Presidente Mattarella, que ainda não reagiu ao pedido de demissão de Renzi.