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Internacional

O telefonema de Trump com Taiwan, há muito planeado para irritar a China

Getty

Fontes da equipa do Presidente eleito dizem que retomada de diálogo com Taipé já estava na agenda do populista ainda antes de este ganhar as primárias do Partido Republicano em julho. Pequim já apresentou uma queixa formal em Washington e Trump já respondeu (no Twitter, como sempre)

Mike Pence, o vice-Presidente eleito dos EUA, tentou deitar água na fervura depois de Donald Trump ter ligado à Presidente de Taiwan, garantindo na televisão americana que a conversa de há uma semana foi "mera cortesia". Mas não é isso que dizem fontes próximas da equipa do próximo Presidente dos EUA.

De acordo com o "Washington Post", a conversa que quebrou o protocolo norte-americano, e que marcou o primeiro contacto direto entre um líder dos EUA e um líder da ilha desde 1979, é um "passo intencionalmente provocatório" que estava a ser planeado há muito, ainda antes de Trump ter alcançado a nomeação do Partido Republicano para disputar as presidenciais norte-americanas de 8 de novembro.

O jornal avança esta segunda-feira, com base em informações de fontes próximas do plano, que o telefonema com Tsai Ing-wen foi "um produto de meses de preparações e deliberações silenciosas entre os conselheiros de Trump sobre uma nova estratégia de relações com Taiwan que começou ainda antes de ele se ter tornado o candidato presidencial republicano" na convenção do partido em julho.

Para Pence e outros membros da sua equipa, que estão a tentar mitigar os efeitos colaterais da chamada nas relações com Pequim, quem critica o telefonema está a "fazer uma tempestade num copo de água", palavras do próprio vice-presidente, que no domingo lembrou que Trump falou com o Presidente chinês, Xi Jinping, depois de ganhar as eleições e que as suas posições quanto à China e aos territórios que o país clama como seus serão clarificadas assim que tomar posse no início de 2017.

"Depois de 20 de janeiro, o nosso novo Presidente vai tomar decisões sobre qual será a política dos EUA. Prometo-vos que a América vai começar a ganhar nos palcos mundiais outra vez e a ganhar economicamente", disse o número dois de Trump no programa "The Week" do canal ABC.

Um dia antes dessa entrevista, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês anunciou que tinha acabado de apresentar uma queixa formal em Washington. "Devo sublinhar que só existe uma China no mundo e que Taiwan é uma parte inseparável do território chinês", sublinhou o porta-voz do ministro Wang Yi num comunicado publicado no sábado. "O princípio de 'uma China só' é a fundação política das relações entre a China e os EUA", acrescentou Geng Shuang. Wang diria depois aos jornalistas que o telefonema foi um "truque barato" de Taiwan.

Qual é afinal o conflito diplomático?

A controvérsia começou na sexta-feira, quando Trump voltou a recorrer ao Twitter — a sua rede social de eleição, que tem usado como plataforma primordial para fazer anúncios sobre futuras estratégias presidenciais aos já quase 17 milhões de seguidores — para anunciar que falou com a Presidente de Taiwan. Pence e uma porta-voz do Presidente eleito garantiram de imediato que foi Tsai quem pegou no telefone. Nesse mesmo dia, a Casa Branca de Barack Obama sublinhou que a posição dos EUA em relação a Pequim e a Taipé não se alterou e que os EUA continuam "firmes no seu compromisso com a política de 'uma China só'".

Apesar de os aliados de Trump estarem investidos em convencer o público de que este foi só mais um telefonema de uma líder mundial a congratular o magnata pela sua eleição, a conversa marca um momento histórico inédito em mais de 35 anos — já que nenhum Governo norte-americano mantém relações diplomáticas formais com a ilha desde 1979, o ano em que a reivindicação de soberania da China sobre Taiwan foi reconhecida pelo então Presidente americano Jimmy Carter.

No rescaldo do anúncio de Trump no Twitter, as notícias sobre essa conversa foram censuradas no território chinês. Um jornal próximo do Governo de Xi, o "China Daily", que sublinhou que o telefonema demonstra inexperiência da parte de Trump, deixou avisos a Taiwan contra quaisquer tentativas de aproximação aos EUA.

A cisão entre a China e Taiwan remonta a 1949, data da Revolução Chinesa liderada por Mao Tsé Tung. O até então líder chinês, Chiang Kai-shek, deposto por Mao, fugiu para a ilha a partir de onde formou um governo autónomo com o apoio dos Estados Unidos. A ONU não só chegou a reconhecer a soberania de Taiwan como o governo de Chiang foi um dos membros fundadores da organização e um dos cinco membros com assento permanente no Conselho de Segurança até ter sido substituído pela República Popular da China em 1971.

A partir desse ano, apenas esta última passou a ser reconhecida como país e, até hoje, apenas 22 nações reconhecem o Governo eleito e a autodeterminação de Taiwan. Os EUA cortaram relações diplomáticas com a ilha em 1979, embora tenham continuado a fornecer armamento à região. A China tem vários mísseis apontados a Taiwan e já ameaçou usá-los se o país tentar declarar unilateralmente a sua independência.

E agora?

Ontem, Trump voltou ao Twitter para defender a sua estratégia, acusando a China de ser uma "manipuladora de divisas", em linha com as várias acusações que teceu durante a campanha presidencial contra Pequim por "roubar postos de trabalho" aos norte-americanos.

"A China por acaso perguntou-nos se era OK desvalorizarem a sua moeda (tornando a competição mais difícil para as nossas empresas), aprovarem impostos altos sobre os nossos produtos que entram no país (os EUA não taxam os deles) ou construírem um complexo militar massivo no meio do Mar do Sul da China? Não me parece!", escreveu o Presidente eleito na rede de microblogging, num de vários tweets com a mira posta em Pequim.

Já esta segunda-feira de manhã, um porta-voz da diplomacia chinesa, Lu Kang, voltou a repetir aos jornalistas em Pequim que uma queixa foi apresentada ao "lado relevante" dos EUA, escudando-se a avançar mais pormenores sobre esse contacto. "O mundo inteiro conhece a posição do Governo chinês quanto a Taiwan. Penso que o Presidente eleito Trump e a sua equipa também foram claros. O lado chinês em Pequim e em Washington fez uma apresentação solene ao lado relevante dos EUA. O mundo está bem ciente da posição solene da China. O lado dos EUA, incluindo a equipa do Presidente eleito Trump, foi bem claro quanto à posição solene da China sobre este assunto."

Pressionado para referir a que "lado relevante" é que o protesto diplomático foi apresentado formalmente, o porta-voz disse apenas: "Acho que é fácil perceber qual é 'o lado relevante'. Na verdade, a China tem mantido contactos e comunicações com a equipa do Presidente eleito Trump", declarou Lu. Dizendo que não quer especular sobre o que potenciou a chamada entre Trump e Tsai, o porta-voz declarou ainda que a questão de Taiwan é o assunto mais importante e delicado das relações diplomáticas entre a China e os EUA.

Para baralhar ainda mais as contas, o "South China Morning Post" avançou ontem que Trump está a ponderar escolher para o cargo de embaixador norte-americano em Pequim um "amigo de longa data de Xi Jinping", Terry Branstad, atual governador do Iowa. Alguns analistas vêem na escolha uma tentativa de amainar as tensões com a China, embora não seja para já certo que repercussões poderá ter no futuro das relações entre os dois países.