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O liberal reformado que pôs a Europa a suspirar de alívio

VITÓRIA. Alexander Van der Bellen a votar, na primeira volta das presidenciais, em maio. Agora foi eleito Presidente

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Este domingo, o candidato que prometeu “igualdade e solidariedade” aos eleitores austríacos conseguiu tornar-se o novo presidente do país, derrotando o opositor de extrema-direita que “faz lembrar os anos 1930”. Por curar estão as diferenças que dividem o país ao meio

Há uma expressão comum que invade as páginas dos jornais nesta segunda-feira: “A Europa já pode suspirar de alívio.” Comentadores, politólogos, jornalistas respiram fundo depois de neste domingo a Áustria ter contrariado a onda de decisões imprevisíveis e antissistema que têm varrido o continente, mas também os Estados Unidos, e eleito Alexander Van der Bellen, antigo líder do partido Verde e professor universitário de Economia, como Presidente do país.

O alívio tem razão de ser: contra Van der Bellen concorria Nobert Hofer, líder da extrema-direita, símbolo da intolerância, da oposição aos refugiados, dos muros que fecham fronteiras, apoiante de Trump nos Estados Unidos, Le Pen em França ou dos extremistas do AfD na Alemanha. Van der Bellen, tratado pelos seus apoiantes como “professor” ou “Sascha” – este último deve-se às suas raízes russas, uma vez que a palavra serve de diminutivo ao seu nome -, conseguiu vencer mais um líder populista que chegou perto do poder na Europa, mas tem agora nas suas mãos um país que entregou quase metade dos seus votos (46%) a um líder de um partido de extrema-direita que se assume anti-islâmico e que tem um histórico de antissemitismo.

DERROTA. Nobert Hofer, líder da extrema-direita

DERROTA. Nobert Hofer, líder da extrema-direita

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Para muitos austríacos, a facilidade de expressão e a oratória fluida de Hofer seduziam, contrastando com a forma de falar de Van der Bellen – muitas vezes comparada até pelo opositor à que os professores, como ele próprio, usam nas aulas – e o seu aspeto despreocupado e informal. No entanto, em maio, na primeira tentativa que os austríacos fizeram para eleger o novo Presidente, Van der Bellen esclarecia: “Peço aos que não gostam de mim, mas que talvez ainda gostem menos de Hofer, para votar em mim. Estão a fazer uma escolha importante entre um estilo cooperante e um autoritário.”

A campanha mais longa e cara da história da Áustria

Na altura, Van der Bellen e Hofer enfrentavam-se numa eleição já de si atípica – pela primeira volta tinham ficado os representantes dos partidos de centro-direita e centro-esquerda que desde o pós-guerra sempre lideraram o país, e nesta decisiva segunda volta sobravam o candidato independente que recebera apoio dos Verdes e o candidato de extrema-direita, de um partido que inclusivamente já fora sancionado pela União Europeia e já motivara protestos dos austríacos no passado. Mas em maio, antes daquilo a que o “The Guardian” batiza como “os traumas gémeos Brexit e Trump”, a mudança já se sentia e esse candidato extremista quase igualava Van der Bellen em número de votos, com uma diferença de apenas 30 mil votos a separar os candidatos e Hofer a pedir a anulação dos resultados.

A anulação concretizou-se, com a campanha mais longa e cara da História do país a arrastar-se por mais de um ano e a ser marcada para outubro – acabaria por ser adiada por polémicas relacionadas com cola defeituosa nos envelopes dos boletins de voto – e finalmente para 4 de dezembro, quando Van der Bellen se tornou por fim o novo Presidente austríaco, desta vez com 53% dos votos e uma margem de 7% a separá-lo do opositor.

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Por isso, Eduardo Paz Ferreira, diretor do IDEFF e Instituto Europeu, considera este resultado “extremamente positivo”: “Em primeiro lugar, porque a vitória do candidato da democracia acabou por situar-se num valor mais elevado do que nas primeiras eleições, anuladas por força da extrema-direita; em segundo lugar, porque ocorre num momento pós-eleição de Trump e quando parecia impossível suster essa onda. O candidato da extrema-direita até ameaçou que, se eleito, o seu adversário não seria recebido pelo Presidente norte-americano…”, recorda o professor de Direito ao Expresso.

Conhecidos os números da vitória, Van der Bellen apressou-se a acalmar os ânimos, assegurando que o seu desejo é “falar ativamente para todos os eleitores, incluindo os do partido de Hofer. Eles têm preocupações reais que devem ser levadas a sério pelo Presidente”. No discurso de vitória, Van der Bellen reforçou que estas eleições foram sobre “valores”, sobre “liberdade, igualdade e solidariedade”, sem esquecer “quem não está bem no atual sistema económico”.

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É exatamente por esta posição de diálogo e tolerância mostrada pelo novo Presidente que Julia Ebner, jornalista austríaca que publica em jornais como o “The Guardian” e investigadora sobre a extrema-direita da Quilliam Foundation, diz ao Expresso ter esperança em Van der Bellen: “Será um desafio enorme para Van der Bellen curar as fissuras dentro da sociedade austríaca. Mas a abordagem inclusiva, paciente e tolerante de Van der Bellen na política vai claramente pô-lo na melhor posição possível para enfrentar a tarefa – se ele não conseguir fazê-lo, acho que ninguém consegue.”

De anticapitalista arrogante a generoso liberal de esquerda

Nascido a 18 janeiro de 1944 em Viena, Alexander Van der Bellen é filho de estrangeiros – o pai é da Rússia, a mãe da Estónia – e chegou a viver durante algum tempo num campo de refugiados antes de entrar na Áustria (as ligações à Rússia valeram-lhe acusações do seu opositor de ser “comunista” ou até de ter sido “um espião para a União Soviética durante a Guerra Fria”, que Van der Bellen classificou como “ridículas”). É também por isso que se diz um grande defensor do direito dos refugiados a entrarem na Europa – uma Europa que diz idealizar como uns “Estados Unidos da Europa”, “sem muros”.

Já na Áustria, Van der Bellen estudou e doutorou-se em Economia, antes de se tornar líder do departamento de Economia na Universidade de Viena, nos anos 1970. E foi essa atitude pedagógica que muitas vezes irritou Hofer nos debates que marcaram esta campanha, com Van der Bellen a responder ao seu opositor, que começou por se anunciar antieuropeísta e entretanto suavizou a sua posição para pedir uma Europa reformada e menos centralizada, coisas como: “Estou a falar da EUROPA. E-U-R-O-PA. Nunca ouviu falar?.”

Foi já na década de 1990 que Van der Bellen entrou na vida política, com uma ascensão rápida e notória: eleito pela primeira vez como deputado do partido ecologista, em 1994, tornou-se líder do mesmo partido em 1997 e dirigiu-o até 2008, num período de mais de uma década em que o levou a tornar-se a quarta força política do país e a níveis de popularidade nunca antes vistos. Em 2008, e perante a primeira perda de votos numas eleições desde 1997, decidiu demitir-se da liderança do partido – e agora, que voltou aos holofotes como candidato presidencial, apresentou-se como independente (embora tenha entretanto obtido o apoio e ajuda financeira do seu antigo partido, o professor reformado, de 72 anos, defende que “o Presidente deve estar acima dos partidos”).

As diferenças entre Van der Bellen e o opositor foram sempre óbvias, pelo que esta eleição acabou por se tornar – e embora para um cargo sobretudo cerimonial na Áustria – muitas vezes um concurso para escolher o menor de dois males, com Van der Bellen a pedir que os eleitores tomassem as suas decisões “guiados pela razão, e não pelo extremismo”. Afinal, o próprio Van der Bellen diz ter percorrido um caminho “de anticapitalista arrogante a generoso liberal de esquerda”.

Um alívio temporário

Hoje, o novo Presidente é um forte defensor do casamento homossexual, num país conservador (Van der Bellen já se casou duas vezes), da tolerância, da receção dos refugiados sírios e de outros países em sofrimento, mas contrário ao acordo transpacífico negociado a nível internacional. Apoiado por uma grande faixa das principais figuras públicas austríacas (o que levou Hofer a dizer que Van der Bellen podia ter as elites do seu lado, mas que ele tinha “o povo”), o que Van der Bellen diz não poder tolerar é uma vitória da extrema-direita nas ainda mais decisivas eleições parlamentares de 2018, para as quais o partido de Hofer, o Partido da Liberdade, está bem posicionado, tendo declarado que não pretende dar posse ao líder do partido como Chanceler: “Não quero que a Áustria se torne o primeiro país da Europa Ocidental a ser liderado [no pós-guerra] por um populista de direita membro da fraternidade pangermânica”. A declaração teve resposta de Hofer, que lhe chamou “o ditador verde”.

Ganhe a extrema-direita as próximas eleições gerais ou não, a verdade, lembra a imprensa internacional, é que este “suspiro de alívio na Europa” (líderes como Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, ou membros do Governo alemão já expressaram o seu contentamento com a vitória do candidato independente) pode ser temporário. “O facto de quase metade da população de um dos países mais prósperos e ricos da Europa ter votado em Norbert Hofer é muito alarmante. Há uns anos, teria sido impensável os liberais celebrarem uma votação que deu 46% dos votos a um candidato de extrema-direita cuja retórica tóxica é em vários sentidos comparável à dos nazis nos anos 1930”, explica Julia Ebner.

“Com um presidente liberal, a Áustria pode ser uma estrela brilhante num céu deserto, mas as grandes divisões na sociedade vão continuar. A questão é: quantas mais sociedades divididas consegue a Europa que conhecemos suportar até colapsar? Tanto a extrema-direita como os extremistas islâmicos têm sido extremamente bons a explorar e exacerbar esta divisões – é um ciclo vicioso.”

“Não se pode, nem deve, ignorar a onda de fundo”

Lembrando que o “problema Áustria é antigo”, Eduardo Paz Ferreira recorda o histórico do Partido da Liberdade, de Hofer, agora bem posicionado para as próximas eleições: “O problema começou com a chegada ao poder da extrema-direita, em 2000, com uma votação que se aproximou dos 30%. Em 2000, a União Europeia estabeleceu um cordão sanitário, coerente com os valores da União, mas infelizmente depois abandonado em casos como a Hungria ou a Polónia. Num contexto de subida geral da extrema-direita, que traz memórias dos anos 30 do século passado, a Áustria é uma peça fundamental.”

É por isso que as eleições na Áustria – ou as que se seguirão em França, ou os referendos no Reino Unido e na Itália – não devem ser vistas como fenómenos independentes: “Não se pode, nem deve, ignorar a onda de fundo que varre a Europa. Como Stephen Hawking escreveu recentemente no “The Guardian”, este é o momento mais perigoso para o nosso planeta. Creio que o descalabro da social democracia, particularmente evidente em França, no horrível Partido Socialista Holandês ou no tíbio PSOE, cria especiais condições para isso, lançando os seus apoios tradicionais para os braços da extrema-direita.”

  • O que esta fotografia não diz

    Os líderes dos países mais poderosos do mundo estão a mudar - eles e os ideais políticos que representam. Menos Merkel, que vai a eleições no próximo ano na Alemanha. Pode a chanceler que foi acusada de querer destruir o euro ser a salvadora da União Europeia dos nacionalismos que a põem em causa?

  • A cada ato eleitoral realizado no mundo vamos ficando mais perplexos e menos exigentes. Contentamo-nos, na Áustria com a vitória de um senhor que não sabemos exatamente ao que vem, mas que derrotou um protonazi, que sabíamos exatamente ao que vinha. Ainda que este último tivesse 46 por cento, quase metade do eleitorado. Se na Itália as coisas correram ainda pior, com o Cinco Estrelas e a Liga Norte a venceram um dos líderes mais dinâmicos do Velho Continente, se na França o PSF está destruído e todo o esforço é para derrotar Marine Le Pen, que confiança teremos numa Europa capaz de fazer frente às tormentas que se avizinham? É óbvio que essa confiança está perto do zero