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A cidade das notícias falsas

KAREN BLEIER/GETTY

Primeiro dedicavam-se sobretudo ao desporto e meteorologia, mas depois perceberam que inventar notícias que agradassem aos apoiantes de Trump era melhor negócio

“Os americanos adoram as nossas histórias e nós fazemos dinheiro com eles”, afirma um estudante universitário de 19 anos da cidade macedónia de Veles, para onde as atenções se viraram após o “Buzzfeed News” ter indicado que foi dali que partiram muitas das notícias falsas que surgiram durante a campanha para as presidenciais norte-americanas.

“Indiciação de Hillary iminente”, “Wikileaks acaba de matar Hillary” ou “Hillary Clinton em 2013: 'Eu gostaria de ver pessoas como Donald Trump a candidatarem-se para o cargo; Elas são honestas e não podem ser compradas’”, são alguns dos destaques dos artigos visualizados e republicados no Facebook por milhares de apoiantes do candidato republicano, que acabou por vencer as eleições.

O estudante universitário, ouvido numa reportagem da BBC, refere que apenas está no oficio há um mês e que já lhe rendeu 1800 euros, uma quantia que diz ficar aquém da obtida por colegas que ganham milhares por dia. “Quem é que está preocupado com o serem verdadeiras ou falsas?”, comenta. Os jovens da sua cidade “estão simplesmente satisfeitos por fazerem dinheiro e poderem comprar roupas caras e bebidas!”

A pequena cidade macedónia de 50 mil habitantes é conhecida pela produção de porcelana, mas a possibilidade da obtenção de rendimentos mensais que ultrapassam o milhar de euros, num país onde o salário médio anda na ordem dos 350 euros, fez a nova atividade proliferar.

“As notícias falsas são as boas notícias”, afirma por seu turno um jovem de 18 anos a um jornalista da agência Associated Press, ao mesmo tempo que mostrava os números das audiências dos seus artigos, que andam na ordem das centenas de milhares. “Tem de se escrever o que as pessoas querem ver, não o que lhes queremos mostrar”, acrescenta o jovem, que a agência indica estar por trás de dezenas de sites.

Ubavka Janevska, uma jornalista macedónia, indicou à BBC ter identificado sete equipas independentes que estão a lançar informações enganosas na Internet, mas calcula que haja centenas de crianças estudantes a fazerem-no individualmente.

O Facebook dá aos editores de conteúdos uma pequena percentagem da verba paga pelos anunciantes por clique e os macedónios perceberam que a verba paga pelo artigos visualizados nos Estados Unidos é em média mais alta do que a paga pelos visualizados na Europa.

Os jovens macedónios começaram por fabricar sobretudo com notícias de desporto e de meteorologia, mas viraram-se para a campanha eleitoral quando este tipo de conteúdos se tornou populares entre os norte-americanos.

O BuzzFeed indica que de início os produtores de notícias falsas ainda criaram artigos que agradassem aos eleitores norte-americanos de esquerda, mas vieram a constatar que os apoiantes de Trump rendiam mais.

Após as eleições norte-americanas, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, desvalorizou a questão das notícias falsas na sua rede social durante a campanha, referindo serem uma pequeníssima percentagem das notícias partilhadas e que não terá sido essa a causa da vitória de Trump.

A questão já levou também o CEO da Google, Sundar Pichai, a declarar que este é um “momento de aprendizagem” e que vão dedicar-se a tentar superar o problema.