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Internacional

Porque são duplamente inéditas as presidenciais austríacas?

Alex Domanski/Getty

A derrota do candidato presidencial da extrema-direita contraria as sondagens, o efeito Trump, e prenuncia um rearranjo político na Áustria

Norbert Hofer, candidato do Partido da Liberdade austríaco (FPO), formação que não esconde o seu ideário xenófobo e de extrema-direita, repetiu este domingo uma imagem que os fãs de futebol bem conhecem: jogando em casa e com a baliza aberta, não só não marcou golo como permitiu que o adversário reagisse e levasse a melhor.

À partida tudo se conjugava para que a candidatura de Hofer se transformasse num passeio triunfal até à presidência austríaca. A maioria das sondagens era-lhe favorável (ainda que por margens relativamente estreitas). Nas eleições anteriores, a 22 de Maio (agora repetidas por razões formais) ficara a uns meros 30 mil votos da vitória. E, por último mas não menos importante, o ambiente internacional era favorável, uma vez que toda a ultra-direita europeia, eurocépticos e xenófobos embandeirara em arco com a vitória de Trump nos EUA, vista como o prenúncio de uma viragem política à escala global.

Não foi assim e os primeiros números sugerem que o adversário de Hofer, o ecologista Van der Bellen, (que tudo indica será o novo presidente austríaco) tenha multiplicado por sete a diferença de votos. No plano europeu é um revés para as forças xenófobas e eurocépticas (Frente Nacional francesa, Partido da Liberdade holandês, etc) que teriam ganho alento com uma viragem política na Áustria. Internamente dá fôlego ao governo de coligação entre sociais-democratas e conservadores que, sem um presidente hostil, não deverá ter dificuldades em cumprir o mandato até às eleições de 2018.

Contudo, fica claro que a alternância de poder e/ou as coligações entre esquerda e direita parecem ter os dias contados. De facto, para derrotar a extrema-direita foi preciso ir buscar um candidato fora do arco governativo habitual, o ecologista Van der Bellen. E este, abdicando de radicalismos ambientalistas, congregou um vasto eleitorado entre jovens, esquerda tradicional e direita pragmática.

Que pode ter falhado na campanha de Norbert Hofer? A dinâmica gerada pelo Brexit (23 de Junho) e pela vitória de Trump (8 de Novembro) era favorável mas pode ter gerado alguns anticorpos no eleitorado. Em primeiro lugar, os contornos que vai ter a saída do Reino Unido da União Europeia continuam muito mal definidos quer interna, quer externamente. Alguns sectores da população podem ter passado a olhar para o Brexit de uma forma diferente, tanto mais que é óbvio que se houve país que beneficiou, quer da sua entrada na UE (1995), quer da entrada dos vizinhos da Europa Central (2004) foi a Áustria. Acresce que o ziguezague de declarações de Trump uma vez eleito, seja sobre o papel das Nações Unidas, seja sobre a NATO a Europa e o comércio internacional pode ter sido de molde a assustar alguns sectores que, à partida, tinham visto com bons olhos a sua vitória. E nesse contexto a serenidade e a bonomia de Van der Bellen terão parecido mais tranquilizadoras que a retórica xenófoba de Hofer sobretudo na perspectiva de saber qual dos dois, num contexto internacional difícil, melhor defenderia o lugar da Áustria na Europa e no mundo.