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Os hábitos de Fidel

A história de Fidel Castro através da forma como ao longo do tempo se foi vestindo. Até para um revolucionário, o hábito fez o monge. O funeral do líder cubano é este domingo, ao meio-dia, hora de Portugal

Margarida Mota

Jornalista

Hélder Oliveira

Fidel Castro, morto há oito dias, três meses depois de ter completado 90 anos, é uma das figuras marcantes do século XX. Encarnou as esperanças de democratização da América Latina quando derrubou a ditadura de Batista, em 1958. Resistiu ao boicote económico e político dos EUA e a diversas tentativas de assassínio (mal) engendradas pela CIA. Totalmente dependente do apoio militar e político da URSS em plena Guerra Fria, a revolução dos barbudos da Sierra Maestra degenerou numa ditadura que, aos poucos, se foi liberalizando, ainda que timidamente. Derradeiro elo deste processo foi a transferência do poder para o irmão Raúl (2008) e a aproximação deste ao Presidente norte-americano Obama. Trump, mal foi eleito, prometeu anular o degelo cubano-americano. Fidel já cá não estará para ver, mas recordemos o seu percurso através dos fatos com que se foi apresentando.

D.R

O traje dolorino e o rigor do ensino jesuíta

Sempre que, no Colégio Dolores, Fidel trajava de dolorino, sentia-se um entre iguais. Na escola anterior, o Colégio La Salle, também em Santiago de Cuba, os colegas apontavam-no a dedo: “Porco judeu!” Na católica Cuba da década de 30, assim se tratavam os não batizados. Nascido a 13 de agosto de 1926, em Birán, era o terceiro filho da relação proibida entre o galego latifundiário Ángel Castro e Lina, uma criada na sua quinta de Manacas.

Para acabar com o falatório, D. Ángel manda os bastardos para Santiago de Cuba. É na catedral local que, a 19 de janeiro de 1935, Fidel recebe o sacramento do batismo. O pai não está, nem o seu nome consta do registo, mas aos 8 anos Fidel deixava de ser um pária.

No Colégio Dolores, gerido por jesuítas espanhóis, Fidel absorve o rigor intelectual, “o sentido da dignidade pessoal, da honra, o carácter, a franqueza, a retidão, a valentia, a capacidade de suportar um sacrifício”, como mais tarde contará. Aos 14 anos, escreve uma carta ao “amigo Roosevelt”. Pede-lhe uma nota de 10 dólares, porque “gostaria de ter uma”, e oferece-se para o guiar numa visita às minas de ferro de Mayari. O Presidente dos EUA nunca lhe respondeu.

D.R

De fato e gravata para se ouvir na universidade

A 4 de setembro de 1945 entra na Universidade de Havana, que está em brasa, tomada por estudantes que idolatravam José Martí, o herói da independência cubana. Fidel percebe que o ambiente dos discursos, dos murros e das pistolas à cinta está talhado para ele. Veste fato e gravata para ganhar o respeito dos colegas de Direito.

Em vez de ir às aulas, fica no parque a deslumbrar com os seus dotes de oratória. “Nessa universidade, onde cheguei com um espírito rebelde e algumas ideias elementares de justiça, tornei-me revolucionário.” No terceiro ano, matricula-se em 50 disciplinas de três cursos: Direito, Direito Diplomático e Ciências Sociais.

D.R

De camisa aberta em viagem pela América

A 31 de março de 1948, de camisa aberta e com vontade de conhecer a América Latina, chega a Bogotá. Na capital colombiana, de espingarda na mão, envolve-se no Bogotazo, um motim posterior ao assassínio de um candidato à presidência. “Essa experiência fez com que eu me identificasse mais com a causa dos povos.”

Fidel vive com o dinheiro que o pai lhe manda. D. Ángel reconhecera-o aos 17 anos e, apesar da rebeldia do filho, financiava-lhe estudos e caprichos. A 12 de outubro, casa com Mirta Díaz Balart, oriunda de uma família influente. O pai falta à cerimónia e à festa no American Club, mas paga a lua de mel nos EUA.

Em Miami e Nova Iorque, Fidel deslumbra-se com o urbanismo, o tráfego automóvel e choca-se com a falta de pudor dos casais que se beijam em público. Compra “O Capital” e espanta-se por ver à venda obras que, como esta, apelam à destruição do sistema capitalista. Volta a Cuba com uma convicção: se os americanos têm Cadillacs e devoram Corn Flakes, fazem-no graças à espoliação dos sul-americanos pelas multinacionais.

D.R

Sierra acima, de camuflado azeitona

De barba cerrada, uniforme militar e o inseparável puro Cohiba, Fidel surge diante dos cubanos como o perfeito guerrilheiro. Para iniciar a libertação do país do regime de Fulgencio Batista — a quem chamam Mr. Yes, dada a sua simpatia pró-americana —, Fidel concebe a captura do quartel de Moncada, que fracassa a 26 de julho de 1953. Na prisão de Boniato, prepara a sua defesa: “A História absolver-me-á.” É condenado a 15 anos de prisão, mas beneficia de uma amnistia. Exila-se no México, onde reagrupa efetivos, recolhe fundos e conhece Ernesto (Che) Guevara.

A 25 de novembro de 1956, Fidel, Che, o irmão Raúl e 79 seguidores partem do porto de Tuxpan a bordo do “Granma”, um iate decrépito com um velho motor diesel, de 14 metros. Na véspera, Fidel redige o seu testamento. Às 4h20 de 2 de dezembro, desembarcam na Playa Colorada. “Ganhámos! Como José Martí, recuperámos a nossa terra! O tirano Batista tem os dias contados!”, diz Fidel. No refúgio da Sierra Maestra, os 16 sobreviventes olham-no como a um profeta.

A causa de Fidel desperta interesse nos EUA, e Herbert Matthews sobe à sierra para o entrevistar para “The New York Times”. No acampamento, a conversa é constantemente interrompida pelos rebeldes que comunicam as últimas. Tudo não passa de uma encenação para convencer o jornalista de que o exército é numeroso e bem organizado. Na primeira página do jornal, Fidel é retratado como um revolucionário romântico.

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Na presidência, com as insígnias do poder

Beneficiando de deserções em massa nas forças de Batista, Fidel acumula vitórias. A 8 de janeiro de 1959, entra em Havana, montado num tanque, sob aclamação popular. Menos de um mês depois, toma as rédeas do governo revolucionário. Nos ombros, ostenta as insígnias de Comandante en Chefe: a amarelo, os ramos de oliveira; o preto e o vermelho são as cores do movimento 26 de julho, que Castro fundou e disse ser “o pequeno motor” que fez arrancar a revolução.

Fora de portas, El Comandante posiciona-se como um pivô estratégico da Guerra Fria, perante a total rejeição dos americanos, que não perdoam uma revolução à porta. Aproxima-se da URSS e, a 3 de janeiro de 1961, corta relações com os EUA. Começa a era das conspirações. Só à CIA, atribui-se a criação ou financiamento de 634 operações para matar Fidel, envolvendo desde charutos explosivos a canetas envenenadas. “Se sobreviver a tentativas de assassínio fosse uma modalidade olímpica, teria ganho a medalha de ouro.”

A 17 de abril de 1961, o fracasso do desembarque de 1400 exilados cubanos treinados pela CIA, na Baía dos Porcos, estreita de vez a relação entre Havana e Moscovo. Fidel passa a dizer-se marxista-leninista e anuncia que Cuba adotou o comunismo. Em outubro de 1962, fotos aéreas revelam a existência de mísseis nucleares soviéticos na ilha, e o mundo quase é arrastado para a guerra atómica. Cuba vai mais longe do que a URSS no apoio às lutas no Terceiro Mundo. O Che morre na Bolívia, mas os cubanos salvam o regime do MPLA em Angola.

A página vira quando Mikhail Gorbatchov entra no Kremlin. Fidel refuta a perestroika e chama a Gorbatchov “coveiro do comunismo”. Em 1989, ao assinalar o 30º aniversário da revolução, vaticina: “Socialismo ou morte!”

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De look fashion, face às dificuldades

Com o fim da ajuda soviética e a continuidade do embargo norte-americano, as dificuldades económicas acentuam-se, obrigando Fidel a uma cedência doutrinal: aceita a privatização de empresas e despenaliza a compra de dólares. Aprova a visita a Cuba do Papa João Paulo II. Ainda que pouco frequentadas, as igrejas cubanas estavam sob vigilância. Fidel temia que o povo se inspirasse no movimento polaco Solidariedade.

A 21 de janeiro de 1998, no aeroporto José Martí, Fidel dá as boas-vindas ao Papa, de fato e gravata. Desde a Cimeira Ibero-Americana de 1994, em Cartagena das Índias, onde vestira uma guayabera (camisa tradicional cubana), que, em eventos internacionais ou na receção a personalidades, despira a farda de guerrilheiro.

O novo look garante-lhe as atenções mediáticas fora de portas. Mas, em Cuba, os seus longos discursos — chegou a figurar no “Guiness Book” com uma alocução de 4h29 na Assembleia Geral da ONU, a 26 de setembro de 1960 — soam cada vez mais anacrónicos. Os cubanos já não o ouvem: obedecem-lhe.

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O fato de treino do vigor e da doença

A 20 de outubro de 2004, após uma cerimónia em Santa Clara, tropeça e cai desamparado. Recupera das fraturas no braço e no joelho, mas toma consciência de que não é eterno. Na primavera de 1990, já fora operado, secretamente, no Cairo, a um tumor no cólon, e os problemas de saúde nunca mais o largaram. A 31 de julho de 2006, é operado aos intestinos e transfere poderes para o seu vice, o irmão Raúl. Conserva o título de Presidente até 24 de fevereiro de 2008.

O sigilo à volta da doença — diverticulite (provocada pela falta de fibras na dieta alimentar) — dispara a especulação sobre o seu estado de saúde e antecipa a sua morte várias vezes. Fidel resguarda-se em casa. De tempos a tempos, é fotografado na companhia de ilustres que o visitam, vestindo um fato de treino Adidas, marca que patrocina a seleção olímpica cubana.

Na escola, Fidel fora desportista de eleição no futebol, basquetebol e basebol. Nas aulas de educação física, exibia uma obsessão constante por se superar. Presença assídua nos campeonatos intercolegiais e estaduais, em 1944, fora eleito o melhor atleta estudantil nacional. Quando já estava afetado pela doença, recorreria a uma metáfora desportiva para resumir a sua vida: “O tempo passa e os homens da maratona cansam-se. A corrida foi longa, muito longa!”