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Expresso

Internacional

Derrota total de Matteo Renzi

CLAUDIO GIOVANNINI/GETTY

Proposta de revisão constitucional do primeiro-ministro progressista foi rejeitada em referendo. Demissão do Governo e eleições antecipadas são cenários prováveis

Rossend Domènech, correspondente em Roma

A crer nas sondagens à boca da urna, os eleitores italianos votaram contra a maior revisão constitucional proposta no seu país. Entre 54% e 60% dos votantes terão rejeitado a proposta do primeiro-ministro. Matteo Renzi, que procurava consolidar neste referendo constitucional o seu programa de reformas, após três anos no poder, terá, em vez disso, vários quebra-cabeças a resolver.

A afluência às urnas foi de 69,24%, um valor extremamente alto, tendo em conta outros atos eleitorais em Itália. Quer a maioria de centro-esquerda quer a oposição política estiveram envolvidas numa contenda política que alguns viam como a mãe de todas as reformas para modernizar o país os restantes como um apocalipse para a democracia.

Com a rejeição da mudança de 47 artigos da Constituição, proposta pelo Governo, a organização institucional de Itália fica como estava, mas há toda a probabilidade de que a agenda política venha a mudar. A reação de Renzi pode ser demitir-se, embora nenhum partido lho deva exigir. Nesse caso, o Presidente da República, Sergio Mattarella, incentivará o primeiro-ministro a apresentar ao Parlamento uma moção de confiança.

Quer essa votação exista ou não e quer Renzi a vença ou perca, é também muito provável que as eleições legislativas previstas para 2018 sejam antecipadas para 2017. O Executivo de Renzi poderá ser substituído por outro, igualmente de centro-esquerda, uma vez que o Partido Democrático foi o mais votado nas últimas legislativas. Desta forma Renzi contaria com um ano para preparar a sua candidatura para regressar ao Palácio Chigi, sede do Governo.

O que ninguém pode prever (mas o medo existe) é se a abertura das bolsas, na segunda-feira, irá revelar uma debacle do mercado de capitais. A instabilidade política causada pela vitória do “não” pode fazer disparar o prémio de risco (hoje de cerca de 180 pontos relativamente ao referencial alemão). Nesse caso, o Banco Central Europeu (BCE) já está pronto para comprar a granel títulos do Estado italiano, com o fim de impedir o aproveitamento por especuladores internacionais.

A maior consequência financeira do resultado do referendo será travar o plano já em marcha para sanear oito a dez bancos do país, entre os quais estão várias caixas de aforro em fase de transformação em bancos, e a recapitalização de todos eles. Hoje isso não se pode fazer com ajudas estatais, apenas com soluções encontradas nos mercados, que poderão afastar-se do projeto apresentado por Renzi para a Banca.

Face a Bruxelas, perderão fôlego as pressões de Renzi para superar o défice (2,4% em vez de 2,2%), depois dos terramotos do verão e do peso da imigração subsariana no país (170 mil pessoas em 2016). Um efeito imediato, previsto já para a próxima semana, será a exigência, por parte da União Europeia, de que a Itália reformule o orçamento de Estado para 2017, diminuindo-o em 0,1% a 0,2% (entre 15 mil e 30 mil milhões).

No âmbito político, a derrota da revisão desejada por Renzi reforçará a minoria esquerdista do seu partido, que votou pelo “não” às alterações constitucionais, provocando uma mudança de

rumo político dos progressistas. Essa minoria já anunciou que não exigirá a demissão de Renzi, embora queira, sem dúvida, conquistar mais influência nas políticas governativas reformistas.