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“O pai que gostaríamos que nunca tivesse partido”

D.R

O cortejo fúnebre chegou finalmente ao seu último destino. Na Praça da Revolução, em Santiago de Cuba, são sobretudo os jovens que já esperam pela realização da última cerimónia, antes das cinzas do líder cubano irem a enterrar amanhã. Entre os enlutados “fidelistas”, o Expresso recolheu o testemunho de uma senhora que garantiu ter conhecido Fidel nos tempos da guerrilha em Sierra Maestra

Cristina Margato

Cristina Margato

enviada a Cuba

Jornalista

“Mira que lindo! También queria!” A sexagenária com a pele tisnada invejava a fotografia a cores de um Fidel envergando a farda militar à volta da qual se reuniam uns jovens. A moldura que a mulher fizera para trazer à Praça da Revolução, em Santiago de Cuba, era um trabalho de colagem: a um canto colocara uma velha foto a preto e branco do líder cubano a discursar, noutro umas rosas de papel recortadas de um velho e engelhado papel de embrulho e por cima uma inscrição feita à mão que dizia: Yo soy Fidel! Os jovens animavam-na: “A sua também está bonita”.

Ela acabara de chegar, mas o dia para eles começara às oito da manhã já com a certeza de que não iria acabar sem que Fidel fosse a enterrar ao lado de José Martí, pelas sete da manhã de amanhã, domingo.

Nascida em Sierra Maestra, a sexagenária mostrava-se inconformada: “Conheci-o em criança, no tempo da guerrilha, mas nunca mais o vi. Mandei-lhe muitas cartas, durante muitos anos, mas não sei o que lhes aconteceu! Não me conformo, porque Fidel é a minha vida. É a vida de todos os cubanos e de grande parte do mundo. É o pai que gostaríamos que nunca tivesse partido. Parece-me que estou a viver um pesadelo. Não sei o que vai ser sem ele.” Desviando os olhos humedecidos para os jovens acrescentava: “Eles que continuem a luta!”

Sónia diz que tinha seis anos quando conheceu o líder cubano. “Fidel agarrou-me nos braços e deu-me cinco pesos para comprar sapatos. Estava descalça. O meu pai não tinha dinheiro para me comprar sapatos. Éramos pobres. 'Coma!', disse o meu pai. E ele respondeu-lhe: 'Não, fica para as meninas!'" Sonia lembra-se do "barbudo" a ter agarrado ao colo. "Disse-me: Boca fechada. Porque se dizes onde estou aos ‘mau-mau’, que era como os ‘campesinos’ chamavam à gente de Baptista, eles matam-me.”

Mais tarde o pai, ela e irmã foram presos pela tropa de baptista. “Eu tinha oito anos e a minha irmã 12 quando fomos apanhados. Mas nunca abrimos a boca. Não sei o que Fidel me fez mas hipnotizou-me.” E foi esse mesmo hipnotismo que a trouxe agora a praça, "para falar às cinzas de Fidel, para lhe contar esta história”. Para lhe dizer, que agora, que ‘El Comandante’ partiu, também ela já não quer viver: “Vou ficar cinco meses sem comer, para poder morrer!”

Ao lado, um outro ‘fidelista’, Angelo, de 50 anos, sensibilizado por ouvir a história da mulher avançou na nossa direção: “Senhora, vá contar essa história à televisão! Os inimigos de Fidel falam, mas deviam saber que nada pode resistir pela força se não tiver apoio popular. Fidel é um ícone para a América Latina”.