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Zuma avança na prova de obstáculos

SIPHIWE SIBEKO /REUTERS

O Presidente da África do Sul responde perante o Tribunal Constitucional, o Comité de Integridade e o Comité Executivo do ANC. As acusações não são negligenciáveis e a taxa de aceitação popular continua em queda

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Jacob Zuma aguenta-se apesar de as manchetes dos media sul-africanos terem razões de sobra para perguntar se a saída do Presidente “é para hoje?”. A formulação que no início desta semana fazia todo o sentido era “Sobreviverá Zuma ao fim de semana?”.

A capacidade de Jacob Zuma presidir à África do Sul foi posta em causa por uma moção de censura do ministro do Turismo do seu Governo, Derek Hanekom. Este desafio não foi apenas mais um vindo da parte da oposição a cujo embate o chefe de Estado teve de resistir. Foi o primeiro a partir das fileiras do Governo e foi a primeira vez na história que os 104 membros do Comité Executivo do Congresso Nacional Africano (ANC) ouviram o seu líder na perspetiva de o levarem a demitir-se, poder que lhes assiste.

Que Zuma tenha passado a prova ao ser reconfirmado como Presidente da República na passada terça-feira pode permitir-lhe respirar de alívio. Não sai porém ileso, tendo em conta que sobre si pende a sombra de repetidos casos de alegada corrupção, por causa dos quais terá de responder perante o Tribunal Constitucional.

Além destes, o relatório “Captura do Estado”, que foi recentemente tornado público resultando de uma investigação liderada pela ex-procuradora Thuli Madonsela, descreve em detalhe umca teia de influências sobre partes do Estado sul-africano por parte de uma poderosa família das relações estreitas de Zuma. O Presidente não é acusado diretamente, mas sai salpicado pelas ligações citadas no relatório, mas fornece provas de que os irmãos Atul, Ajay e Rajesh Gupta estiveram envolvidos em nomeações e demissões de ministros, assim como ganharam contratos chorudos da Eskom, a companhia estatal de eletricidade.

Abalado, mas não vencido

“Abalado, mas não vencido” é o título adequado que a revista “The Economist” deu à sequência de acontecimentos que levou, na terça-feira, à confirmação de Zuma como Presidente da República. Já neste sábado, o chefe de Estado enfretará a Comissão de Integridade do ANC, facto igualmente inédito. Calcula-se que os temas a abordar incluam as alegações de abuso de poder envolvendo os alegados favores referidos no relatório “Captura do Poder” e o mau resultado do ANC nas eleições regionais de agosto nas quais o partido no Governo perdeu Pretória.

Ainda que todas estas provas ao Presidente possam vir a ter desfechos inesperados, uma coisa é certa: o ANC está dividido. Foi isso que ficou provado quer pela moção de desconfiança que com origem no próprio Governo, quer pela forma como a defesa de Zuma teve de ser feita pelos seus membros de cúpula.

O homem que provavelmente não sairá incólume deste processo é Cyril Ramaphosa, o atual vice-presidente e candidato até agora muito provável à sucessão de Zuma. A partir de agora está debaixo do fogo dos apoiantes do chefe de Estado no seio do Comité Executivo do ANC, apesar das baixas taxas de aceitação popular de que é objeto.

Enquanto segundo na linha de liderança do partido, Ramaphosa não parou a tempo o processo antes que os ministros se envolvessem em insultos mútuos. Pressupõe-se, por isso, que Zuma não virá a defender Ramaphosa.