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Internacional

Votações em Itália e Áustria podem provocar “efeito dominó” na Europa

O populismo é “uma doença que se está a espalhar rapidamente pelo mundo ocidental”, alera Shada Islam diretora de geopolítica do "think tank" Amigos da Europa

Os resultados do referendo em Itália e das eleições na Áustria podem provocar um “efeito dominó” na UE, considera uma especialista em geopolítica europeia, que acredita haver razões para a Europa estar "muito preocupada" com o crescimento do populismo.

Numa entrevista à Lusa em vésperas de italianos e austríacos irem às urnas, em ambos os casos no domingo, Shada Islam, diretora de geopolítica do "think tank" Amigos da Europa (Friends of Europe), com sede em Bruxelas, aponta que o fenómeno do populismo não é apenas europeu, sendo antes “uma doença que se está a espalhar mundo rapidamente pelo mundo ocidental”, como o demonstra o triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos, mas pode efetivamente ganhar maiores dimensões na UE "se Matteo Renzi perder Itália e a extrema-direita ganhar na Áustria".

Segundo as últimas sondagens, a reforma constitucional será derrotada no referendo de domingo em Itália, com 55% para o "não" e 45% para o "sim", mas a elevada percentagem de indecisos 15% a 25% - pode revelar-se determinante.

Ainda mais incerto são os resultados da repetição das eleições presidenciais que têm lugar na Áustria também no domingo. As sondagens até agora publicadas apontam para um “empate técnico” entre os dois candidatos, Norbert Hofer (FPÖ, extrema-direita) e Alexander Van der Bellen (independente ligado aos Verdes).

“Pode criar-se uma bola de neve. E sim, devemos estar muito preocupados e não limitarmo-nos a assistir sentados ao que se está a passar”, diz a analista, que defende que os líderes da UE deveriam “combater o fogo com fogo” e dirigir-se de forma convincente à população - que acredita ser maioritária na Europa - que não é xenófoba mas que necessita de ouvir palavras “tranquilizadoras e inspiradoras”.

Com o mundo a viver “uma era de grandes incertezas, guerras, terrorismo, globalização e a crise de migrações e refugiados, que está a deixar muita gente nervosa”, Shada Islam responsabiliza a atual liderança política europeia pela ausência de respostas eficazes a “uma narrativa muito tóxica, assente no ódio, que apresenta soluções fáceis, e falsas, para questões muito complexas”.

“Penso que os políticos que temos atualmente não estão a contrariar esse discurso, mas sim a amplificá-lo, até porque há votos a disputar e eleições a ganhar”, diz, observando que o fenómeno provavelmente começou em França com o antigo Presidente Nicolas Sarkozy, “que adotou uma agenda populista para tentar combater Marine Le Pen”, cuja popularidade está novamente em alta em França, a poucos meses das eleições presidenciais (abril de 2017).

Para esta analista, o que a Europa necessitava era de uma classe política rejuvenescida cujo discurso não seja baseado no medo, até porque o sistema político atual e os políticos que estão no poder “ainda estão presos num paradigma do século XX” e visivelmente a perder a batalha das redes sociais, por exemplo.

Também a nível da UE, onde, sublinha, seria mais fácil adotar posições anti-populistas já que os responsáveis da União “não têm o peso de eleições”, a mensagem não passa porque é “demasiado tecnocrata”, permitindo assim a expansão do movimento populista, que se tornou “uma verdadeira plataforma internacional”.

Apontando que os populistas são por norma “muito xenófobos, mas também anti-UE e anti-globalização”, a responsável do Amigos da Europa observa ainda que o aumento da sua popularidade na Europa representa para o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) a vitória que estes radicais não conseguem alcançar no campo de batalha.

“Não é segredo que Daesh tem uma agenda muito específica. Como não podem vencer no campo de batalha, estão apostados em dividir a sociedade ocidental, marginalizando e estigmatizando os muçulmanos no ocidente, e desse ponto de vista estão sem dúvida a vencer essa batalha, porque quanto maior estigmatização houver, mais poder dá ao Daesh”, adverte.

A outra “tragédia” que receia vir a resultar de uma eventual subida de forças de extrema-direita ao poder nas sociedades ocidentais é a nível económico, pois, argumenta, “eles não apresentam verdadeiras soluções”, como é o caso dos defensores do Brexit.

“Sim, estou pessimista, porque as pessoas parecem estar a caminhar a dormir para o desastre e não vejo ninguém ter a força para dizer 'vamos combater o fogo com fogo'. A única líder que vejo esboçar uma reação é (a chanceler alemã) Angela Merkel, mas também ela está sob pressão no seu país e no seu partido”, diz.

Como nota positiva e de esperança, Shada Islam confia na sensatez dos cidadãos, até porque “o problema reside na crise de liderança política, não nos povos, e eles é que têm que acordar” e erguer-se, à imagem do que fizeram grandes cidades como Londres e Nova Iorque, que se mobilizaram para defender os seus valores após os triunfos do 'Brexit' e de Trump, respetivamente, aponta.