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Internacional

O grande jogo de damas europeu

D.R.

O futuro da UE decide-se entre Angela Merkel e Marine Le Pen, entre uma direita pró-austeridade mas solidária com os refugiados e uma ultradireita xenófoba. A menos que mais alguém vá a jogo

A seguir ao anúncio da vitória de Trump o campo xenófobo e antieuropeu exultou. Nigel Farage teve o seu momento de glória com o ‘Brexit’ mas pouca relevância política lhe resta, a não ser autopromover-se a conselheiro do novo Presidente. Passa-se o contrário com Geert Wilders, na Holanda, onde as sondagens dão boas indicações ao seu Partido para a Liberdade. E Norbert Hofer pode, em dezembro, tornar-se o primeiro Presidente de extrema-direita na Áustria desde o fim da II Guerra Mundial, na sequência da impugnação da contagem de votos nas eleições anteriores (nas quais fora derrotado, a 22 de maio).

A figura de proa ultranacionalista é Marine Le Pen que, para o ano, disputará legislativas e presidenciais num país-chave, a França, com razoáveis possibilidades de, pelo menos, passar à segunda volta das presidenciais. E para quem a vitória de Trump significou a derrota das elites e a vingança dos excluídos da globalização.

Após o tsunami político global de Trump quem emergiu como alternativa? O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, limitou-se a destacar uma evidência pouco mobilizadora para os europeus, a ignorância do eleito: “Vamos perder dois anos até o sr. Trump dar a volta a um mundo que não conhece”.

O comissário europeu para os assuntos económicos, Pierre Moscovici, disse que Tump punha dois problemas: reconhecer que a globalização não foi boa para todos (a revolta contra as elites evocada por Le Pen) e que a UE só continuará se não abdicar dos valores: recusa da discriminação baseada na cor da pele, religião, opiniões políticas ou opções sexuais.

O ex-PM belga Guy Verhofstadt lembrou que, desde a crise de 2008 a Europa ainda não foi capaz de limpar a banca, delegou a contenção da crise dos refugiados num autocrata [Erdogan] e “abandonou a Ucrânia e a Síria aos russos e americanos”. Outro compatriota seu, o escritor David Van Reybrouck, defendeu um regresso aos fundamentos da democracia ateniense, substituindo o voto popular pela tiragem à sorte de cidadãos para o desempenho de funções públicas.

Quem foi de uma clareza liminar ao cumprimentar o Presidente-eleito foi a chanceler alemã, Angela Merkel, pondo como condição para a cooperação entre as duas margens do Atlântico o respeito pelos direitos humanos, coisa da qual se costuma falar mais a propósito da China, da Rússia ou do Zimbawe do que dos EUA.

Na cimeira europeia de dia 18 em Berlim com Angela Merkel, François Hollande, Theresa May, Matteo Renzi e Mariano Rajoy, Barack Obama depositou tantas esperanças em Merkel que o historiador britânico Thimothy Garton Ash escreveu: “Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.” Logo houve água na fervura. Constanze Stelzenmüller, do centro de estudos Brookings Institution, alertou: “Não troquem já a Estátua da Liberdade por uma de Merkel”. Na sua crónica no diário “Le Monde”, Arnaud Leparmentier escreveu que Merkel 
lhe lembrava mais uma Trümmerfrau (mãe-coragem) a colar cacos nas ruínas de Berlim em 1945 do que uma líder capaz de reconstruir a UE.

Niels Annen, porta-voz para as relações externas dos sociais-democratas, parceiros de Merkel na coligação, disse que as expectativas relativamente à Alemanha eram inversamente proporcionais aos meios de que o país dispõe para as tornar reais.

Se, na Alemanha, Merkel parece de pedra e cal, em França o ambiente é outro. Domingo passado, a oficialização da recandidatura da chanceler a um quarto mandato foi quase uma formalidade e resolvida longe dos cidadãos. À mesma hora quatro milhões de franceses mobilizavam-se para votar nas primárias da direita e criavam um duplo facto político: humilhação do ex-Presidente Sarkozy e vitória na primeira volta do candidato menos cotado, o conservador católico e economicamente liberal François Fillon. O discurso sereno deste pode captar o eleitorado conservador, transformando-se no pior pesadelo de Marine.

Marine aposta na moderação

Marine Le Pen distanciou-se das controvérsias que têm dividido a direita e a esquerda na escolha dos candidatos às presidenciais de abril e maio de 2017. Continua a tentar demarcar-se do extremismo que se colou ao partido fundado, em 1972, pelo pai, Jean-Marie Le Pen. Ele sim, provocador, antissemita e xenófobo.

Inaugurou há dias a sede da campanha, perto do Eliseu. Nem a famosa chama tricolor, emblema histórico da Frente Nacional (FN) se vê. O logótipo é uma rosa azul com as palavras “Marine” (sem o nome Le Pen) e “Presidente. O lema será “Em nome do povo”. Na sede, não há palavras de ordem xenófobas, muito menos ataques aos adversários. Há fotos de Brigitte Bardot, Clint Eastwood, Einstein, Rolling Stones e um manifestante a lançar rosas azuis.

A aposta na moderação tem gerado resultados melhores do que os do pai. Beneficia das consequências do terrorismo e das crises económica, social e migratória do mandato de Hollande. Votam nela antigos comunistas, sindicalistas e outros desiludidos com a esquerda e a direita. As sondagens colocam-na em primeiro lugar para a primeira volta das presidenciais (23 de abril). É contra o euro e a UE, que acusa de não deixar espaço à soberania das nações. O ‘Brexit’ e a vitória de Trump ajudam-na. Quer um ‘Frexit’, através de referendo.

Pensa que se passar à segunda volta pode ganhar 15 dias depois, mesmo que os outros se unam contra ela. Recorda Trump. “Também não faço, como ele, parte do sistema. Chega de serem sempre os mesmos no poder e de continuarmos a ser vítimas da globalização e da imigração”. A FN já bateu a “frente republicana” em 11 municípios.

O principal adversário pode ser François Fillon, conservador, que enfrenta amanhã na segunda volta das primárias da direita Alain Juppé. Se Hollande se recandidatar não será o pior adversário para Marine devido ao seu descrédito. Fillon, católico praticante, será mais complicado, mas Marine, Hollande ou outro socialista terão argumentos. Fillon foi primeiro-ministro de Sarkozy, propôs cortes brutais no sector público e que os franceses trabalhassem 39 horas por semana (com 37 pagas). A esquerda hesitará num duelo Marine-Fillon. Ela acredita numa surpresa, a maioria dos franceses não. Diz-se na sede da FN que também ninguém acreditava em Trump...

Merkel volta ao papel de Mutti

“Levo muito tempo e as minhas decisões chegam tarde”, disse Angela Merkel no domingo passado em Berlim depois de confirmar o que já todos presumiam, a sua candidatura a chefe do Governo nas eleições do outono de 2017. Há 11 anos chanceler, este quarto mandato fá-la-á ultrapassar o primeiro chanceler da Alemanha do pós-guerra, Konrad Adenauer, que serviu de 1949 a 1963, e a quase igualar Helmut Kohl, o seu mentor que ficou conhecido pelo “eterno chanceler” depois de ocupar a chancelaria de 1982 a 1998.

Merkel chega ao final de 2016 sem rivais entre as fileiras democratas-cristãs da CDU, que lidera desde 2000, e com os potenciais contendores do segundo partido mais votado e parceiro no Governo — os sociais-democratas do SPD — como aliados no país (Sigmar Gabriel) e na UE (Martin Schulz, caso seja o candidato do SPD, como se espera).

A “líder por defeito”, como lhe chamou “The Economist”, obrigou no domingo os políticos alemães a tomarem posição. Os democratas-cristãos ficaram aliviados porque Merkel é mais popular do que eles. Os cristãos sociais do partido irmão da Baviera, CSU, terão ficado menos contentes... paciência. Só a líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), Frauke Petry, ganhou a oportunidade de confrontar a mulher que provocou “o caos dos migrantes”, e Martin Schulz, o ainda presidente do Parlamento Europeu, que “representa o insucesso da Europa”.

As circunstâncias internacionais fizeram-na passar de executora implacável das dívidas dos países do Sul da Europa, com a Grécia à cabeça das vítimas, a garante da democracia. Olhada agora como representante da estabilidade e moderação num mundo cada vez mais instável, Merkel volta a ser referida pelas suas qualidades de constância, pela “política de pequenos passos”, fiabilidade de competências negociais.

Barack Obama pensaria em Trump, Putin e Erdogan quando, há uma semana, sublinhou em Berlim a importância da líder alemã como parceira dos EUA. Merkel aproveitou a deixa e justificou à cabeça a sua candidatura prometendo defender a “democracia, liberdade e respeito pelos direitos humanos e individuais” numa evocação da Europa dos valores.

Angela Merkel parece ser a última líder europeia com estatura para defender os valores ocidentais perante os desafios no horizonte. Mas a Europa vai precisar de mais do que isso para permanecer à tona.

Angela Merkel

Experiência
Chanceler há 11 anos, não tem entre os democratas cristãos da CDU quem ameace fazer-lhe sombra. A experiência política e as suas competências negociais nos momentos mais tensos das crises externas conferiram-lhe um prestígio internacional ímpar, ao ponto de ser atualmente referida 
como o garante da estabilidade europeia.

Popularidade
Uma sondagem (Emnid) de domingo passado revelou que 55% dos alemães a querem como chanceler por mais quatro anos. Uma boa recuperação na taxa de aceitação 
desde o ponto mais baixo de março passado, com 35 pontos, 
e dos 42 de agosto. Os 78% que detinha no final de 2014 foram seriamente abalados pela sua defesa intransigente da política 
de acolhimento de refugiados.

Europa
Candidata-se às eleições do outono de 2017 prometendo focar-se “na democracia, liberdade e direitos humanos 
e individuais”. É um dos raros políticos que o fazem e essa é uma 
das suas estratégias de combate à subida da direita em casa, 
com a Alternativa para a Alemanha (AfD) a deter por agora 13% 
das intenções de voto. Ao mesmo tempo, Angela Merkel é vista como implacável na exigência que impõe do cumprimento 
das regras de austeridade.

Marine Le Pen

Sondagens
Para a primeira volta das presidenciais, 
a 23 de abril de 2017, Marine Le Pen é dada em primeiro lugar, por uma série de sondagens recentes, com 26 a 33%. Já em 2002, o pai de Marine, Jean-Marie, passara à segunda volta, sendo derrotado por Jacques Chirac. As relações entre pai e filha degradaram-se 
em abril do ano passado, na sequência de declarações antissemitas e colaboracionistas que levaram à expulsão de Jean-Marie 
do partido, ainda que no dia 17 um tribunal lhe reconhecesse o direito de permanecer como presidente honorário da FN.

Europeias
A Frente Nacional, de Marine Le Pen, que já era deputada europeia, venceu as eleições de 2014 para o Parlamento Europeu com 24,9%. Foi a primeira vez que o partido nacionalista foi o mais votado em França.

Regionais
Os bons resultados das europeias foram confirmados nas eleições regionais de 2015, mas sem conseguir quebrar o “teto de vidro”, a barreira dos 50% de votos à segunda volta. Ao contrário das europeias, cujo apuramento se faz por um sistema proporcional semelhante ao português, as regionais desenrolam-se, tal como 
as legislativas e as presidenciais, em sistema maioritário a duas voltas, que beneficia os partidos e líderes capazes de fazer alianças, o que não é o caso da FN.