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O estranho caso do rapper condenado a 74 chicotadas

Se a repressão da liberdade artística no Irão não é uma notícia nova, o mesmo não se pode dizer da condenação de Amir Tataloo a cinco anos de prisão e 74 chicotadas: o rapper mais famoso do Irão queria ser amigo do regime e até filmou um videoclip num dos navios de guerra da Marinha, mas acabou atrás das grades por “promover valores ocidentais e colocar em perigo a segurança nacional”

É uma imagem pouco habitual: no topo do navio de guerra, de braços abertos e posição provocadora, está um homem jovem, o corpo coberto de tatuagens e piercings, cabelo longo e uma colar ao pescoço. “Sou um iraniano honesto, sou contra todas as formas de violência”, canta, a imagem alternada com a de uma fila de soldados fardados que exibem as suas armas. “Mas se for esse o caminho, vou manter-me no caminho com todas as minhas forças.” O refrão deste rap improvável, legendado em inglês para atingir uma plateia maior e mais diversa, chega com força e anuncia: “É nosso absoluto direito ter um golfo pérsico armado.”

O vídeo que descrevemos ilustra uma das canções do famoso rapper iraniano Amir Tataloo e, relatava a imprensa na altura em que foi lançado, tem um conteúdo “profundamente patriótico” (enquanto Amir canta sobre o poder nuclear que é devido ao Irão e os soldados marcham atrás de si, iranianos mostram cartazes com as mensagens “não deixem os media enganar-vos” ou “o Irão já alguma vez invadiu um país”?). E, no entanto, este aparente símbolo improvável do regime iraniano acaba de ser condenado a cinco anos de prisão e 74 chicotadas por, ironicamente, “promover os valores do Ocidente”.

O caso parece contraditório e está a gerar polémica, não só pelo castigo da Guarda Revolucionária, acusada de reprimir a liberdade artística no Irão com frequência e aprisionar artistas com acusações vagas, mas também pelo castigado, que dificilmente seria considerado um inimigo do regime. É que Tataloo, que já esteve preso em duas ocasiões – primeiro em 2013 por alegada distribuição ilegal das suas canções (com a acusação oficial de “colocar em perigo a segurança nacional”), depois em agosto deste ano por se recusar a comparecer em tribunal e insultar o juiz nas redes sociais – não tem letras com conteúdo político, a não ser em canções como esta, em que apoia o próprio Governo do Irão.

O rapper mais popular do país, mesmo sem licença para cantar

Aos 33 anos e com uma carreira profissional que já dura há quase metade da sua vida, Amir é considerado pela imprensa internacional “o rapper mais popular do Irão”. A verdade é que o músico conta com números impressionantes de seguidores nas redes sociais (1,2 milhões no Facebook e 3,6 milhões no Instagram), sobretudo se tivermos em conta que a sua música está proibida. Ou seja, tanto o lançamento de discos assinados por Amir como a realização de concertos eu seu nome estão proibidos pelo Ministério da Orientação Islâmica, responsável por atribuir, ou não, licenças para que artistas iranianos possam trabalhar no país.

Assim, a carreira de sucesso de Amir tem sido desenvolvida na clandestinidade – o cantor escreve as suas músicas, uma mistura de rap, hip hop e R&B, em segredo e distribui-as pela internet, onde chegam a números impressionantes de seguidores; se dá concertos, fá-lo em privado, sem licença oficial para atuar para os fãs iranianos. Em agosto deste ano, quando foi intimado a comparecer em tribunal por “promover a imoralidade nas suas canções” e por corrupção, recusou-se a comparecer em tribunal; mais tarde acabaria por ser preso e por declarar nas redes sociais: “Estou aqui e não estou disfarçado de cordeiro, porque estar preso no meu próprio país é melhor do que estar livre e a viver de acordo com as regras dos outros, violando os meus princípios”.

Será esse estilo de vida, assim como o aspeto físico e o género de música que canta, que terá levado Amir Tataloo a ser acusado de “promover valores ocidentais, prostituição e depravação entre os jovens” pelas autoridades iranianas. Motivos como as letras das canções, que já levaram outros artistas à prisão, não se verificam, uma vez que Amir até tem tentado nos últimos meses uma aproximação ao regime, numa tentativa de conseguir a licença para atuar e lançar discos em território iraniano, e sobretudo de poder atuar na famosa sala de concertos no topo da Torre Milad, uma torre de telecomunicações em Teerão com 435 metros de altura e doze andares.

Instagram

Não sei o que se passa neste país

A aproximação ao regime, que parece afinal não ter valido de nada, conseguiu até afastar alguns seguidores, que passaram a considerar, segundo o “El Mundo”, o cantor um “vendido”. Dentro dessas manobras esteve a realização do videoclip no navio de guerra em águas do golfo pérsico, em que Amir defende: “Uma arma de fogo pode matar-te ou manter o teu país seguro”. Depois, o rapper deixa uma espécie de declaração de intenções: “Eu não estou envolvido em jogos políticos / Não, eu não sei o que se passa neste país / Nem sei quem atacou quem ou o quê”.

O regime não gostou (não se sabe se o Ministério da Cultura, que se diz ter menos poder do que as forças conservadoras, autorizando alguns concertos que são depois cancelados pela Guarda Revolucionária, terá aprovado a iniciativa) e questionou o chefe da Marinha iraniana. A prática não é novidade no regime do Irão – nem mesmo quando o cantor lembra não estar “envolvido em jogos políticos” -, cuja legislação prevê desde 1979 que os artistas não possam publicar trabalhos livremente, sendo obrigados a passar por um rigoroso controlo governativo para que as suas obras sejam tornadas públicas.

Embora com a chegada do presidente Hassan Rohani e de uma equipa mais moderada ao poder, em 2013, se previsse uma abertura do regime, isso não se concretizou – e, defendem especialistas e ativistas ao Expresso, nos últimos tempos tem-se verificado uma preocupante intensificação da censura e repressão da liberdade artística. “O regime continua a tratar os artistas como criminosos, acusando-os de crimes surreais”, defende Raha Bahreini, investigadora da Amnistia Internacional para o Irão, explicando que o caso é “a ilustração de um contexto mais amplo da criminalização da liberdade artística”.

Dois irmãos em greve de fome

Recordando casos recentes como o dos irmãos Mehdi e Hossein Rajabian (o primeiro músico, o segundo cineasta), ambos condenados a três anos de prisão em 2015 num “julgamento evidentemente injusto” num tribunal revolucionário em que foram acusados de “insultos a divindades islâmicas” e “atividades audiovisuais ilegais” e ambos em greve de fome há mais de um mês, Raha fala ao Expresso de “violações inaceitáveis e incompreensíveis” de direitos humanos no Irão “em nome da proteção da revolução islâmica”: “Qualquer coisa que lhes pareça um desafio a estes valores e políticas pode receber acusações vagas, normalmente de propaganda contra o sistema, ofensa a divindades, música anti-islâmica ou antirrevolucionária”.

Para Tara Sepehri Far, investigadora da Human Rights Watch para os abusos de direitos humanos no Irão, a situação é especialmente preocupante para quem se expressa através da arte. “Os artistas têm de ultrapassar ainda mais obstáculos do que advogados, jornalistas, ativistas políticos e sociais, uma vez que muitos destes obstáculos são regras não escritas e procedimentos que fazem parte do sistema”, explica a investigadora ao Expresso, recordando que os irmãos Rajabian foram encarcerados também por distribuírem música sem licença e “trabalharem com artistas femininas (que estão proibidas de cantar a solo no Irão) e músicos ‘antirrevolucionários’ estrangeiros”.

Questionada sobre a acusação comum a Amir e a outros artistas de difundirem “valores ocidentais”, a investigadora recorda que o regime “dedica recursos a instituições culturais para combater o que consideram uma infiltração desses valores na sociedade”, mas tem dúvidas sobre aquilo em que consistirão realmente esses valores. “Não há uma definição clara de valores ocidentais nem da razão pela qual eles prejudicam a sociedade. Por isso, muitas vezes a vaga acusação que lhes colocam é de porem em perigo a segurança do Irão.”