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“Nem a morte crê que se apoderou de ti”

FOTO ALEJANDRO ERNESTO / EPA

Na Praça da Revolução, em Havana, juntou-se o povo cubano e todos os chefes de Estado que vieram elogiar Fidel. Uma canção de Raúl Torres deu início a um tributo. A palavra foi depois dada aos chefes de Estado e é de notar que até o grego Alexis Tsipras começou por se dirigir às massas falando espanhol

Cristina Margato

Cristina Margato

enviada a Cuba

Jornalista

O ambiente parecia-se com aquele que antecede um concerto, noutro qualquer lugar do mundo. E foi de facto uma música que acabou por iniciar o tributo a Fidel. Uma canção em dias de silêncio e de luto feita de propósito para o homenagear. Na letra de “Cabalgando com Fidel”, escrita pelo cantautor Raúl Torres, podia ouvir-se que “nem a morte crê que se apoderou de ti”.

Jovens, em muito maior número que os mais velhos, entusiasmavam-se com a primeira participação naquilo que se decidiu chamar o primeiro “ato de massas”, esta terça-feira ao fim do dia (já quarta-feira em Portugal). Ao meu lado, Javier Ardizones, ex-embaixador cubano que se juntou à revolução cubana com apenas 16 anos para alfabetizar crianças em Sierra Maestro, comentava com a mulher a beleza da letra deste novo tema. A canção estreara-se apenas no dia anterior nos meios de comunicação social cubanos e fazia agora a sua segunda apresentação. Seguiu-se o hino nacional, cantado por todos, e a leitura de um poema de Indio Nabori, interpretado por uma famosa atriz, Corina Mestre.

reuters

Entre a massa que preenchia a Praça da Revolução era fácil distinguir os médicos pelas batas, os militares pelas fardas ou os funcionários do Estado e os seus ministérios pela fardamento e insígnias. A concentração começara duas horas antes. Lili, uma mulher que tinha apenas nove anos quando aconteceu a Revolução, trazia um ramo de rosas na esperança de poder depositá-las junto às cinzas de Fidel. Mas as informações que me tinham dado junto ao memorial de José Martí, antes mesmo das 17h (mais cinco em Portugal Continental), era que estas já não estavam ali. Até Lili, que viera acompanhada da filha, neta e do marido desta, limitara-se até àquele momento a assinar o livro de condolências que “circulou pelo seu bairro”.

Se os mais novos circulavam em alegria pelo recinto, os mais velhos procuravam as margens. Sentavam-se junto aos poucos lancis de passeio que restavam. Uma plateia de três mil lugares ia sendo preenchida pelos convidados oficiais. Para qualquer lugar que se olhasse eram os jovens que predominavam e enchiam a praça, gente com idade correspondente a pouco mais do que um quinto dos anos que conta a revolução. Jornalistas dos lugares mais remotos do mundo aguardavam no Teatro Nacional, no qual foi montado um enorme centro de imprensa, com uma internet a funcionar a uma velocidade nunca vista em outros locais de Havana.

CARLOS GARCIA / REUTERS

Depois da leitura do poema de Indio Nabori, as palavras foram dadas aos chefes de Estado e foi o equatoriano Rafael Correa que deu início à longa noite de gigantes elogios que se iria seguir. Na praça já não se ouviu por longas horas Fidel, mas todos os que falaram por ele. E até Alexis Tsipras, pouco poupado nos elogios a Cuba, à Revolução e a Fidel, achou que deveria começar por se dirigir às massas em espanhol. Raul Castro despediu-se lembrando algumas das etapas que conduziram aquele grupo de homens até à Praça da Revolução e muitos dos momentos históricos que se seguiram. Mas se Fidel está morto, o espírito dele está cada vez mais vivo, afirmava o ex-embaixador ao meu lado naquela praça à cunha. “Foi como Che, pensavam que o matavam, mas só fizeram viver ainda mais as suas ideias.” À superfície, a realidade não nos mostra outra coisa. O discurso é esmagador, não dá espaço para divergências, mesmo que outros cubanos pensem de forma diferente.

Artigo publicado no EXPRESSO DIÁRIO de 30 de novembro, às 18h00

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