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Luiz Thadeu: Desde 2009 a percorrer o mundo com muletas

Jose Carlos Carvalho

Em 2003, Luiz apanhou um táxi e essa viagem mudou para sempre o seu destino. O motorista atendeu uma chamada, acabando por chocar com um camião. Resultado do acidente, Luiz teve uma fratura exposta do fémur. 43 cirurgias depois, fez a sua primeira viagem. E nunca mais parou

São já sete anos a viajar pelo mundo. As muletas nunca foram um impedimento, aliás, até serviram como alavanca para esta aventura. Viaja porque foi a maneira que encontrou para compensar os quatro anos que esteve parado devido ao tratamento que teve de fazer depois do acidente de carro que lhe esmagou a perna esquerda. Sempre gostou de viajar mas nunca o fez com tanta intensidade. Até agora, já esteve em 110 países, mas tem como meta os 120. A viagem para a Ásia em março de 2017 já está marcada e nessa altura visitará uma dúzia países, total que lhe permitirá ultrapassar o objetivo.

Quando em abril do próximo ano o cumprir, Luiz Thadeu quer fazer uma pausa para se sentar e escrever um livro sobre si e as suas viagens. Ambiciona sobretudo contar a história de uma pessoa que tem uma limitação física mas que consegue sair da sua casa e ir para qualquer lugar no mundo. “Não há nenhum país no mundo a que eu não vá, até mesmo se forem pequenos países no meio da Ásia ou da África”, garante.

Luiz é natural do Brasil e fará 58 anos na próxima semana. Nasceu em São Luís, capital do estado do Maranhão, uma cidade banhada pelo oceano Atlântico. Por ter nascido em frente ao mar, este sempre o fascinou. Confessa que tem o desejo de conhecer todas as ilhas do mundo e mergulhar em todos os oceanos. As viagens que mais gostou de fazer até hoje foram às ilhas Seychelles e às ilhas Maurícias. Para si, estes locais são “verdadeiros paraísos no oceano Índico, onde só se sente a natureza”.

Luiz Thadeu na sua visita à Índia

Luiz Thadeu na sua visita à Índia

Frederico Costa e Silva

A sua primeira viagem foi em 2009, quando os seus filhos Rodrigo e Frederico foram para a Irlanda aprender inglês e Luiz, que tinha acabado de tirar os ferros da perna esquerda, foi ter com eles. Neste momento, sete anos depois, confessa que só lhe faltam seis países para conhecer todo o continente europeu, que considera “maravilhoso”. Mas já realizou outro tipo de façanhas: num mesmo mês viajou até aos dois extremos norte e sul da Terra. “Se isso é uma coisa fascinante para uma pessoa normal, imagine para uma pessoa com limitação”, revela. Neste momento, planeia uma viagem à Antártida com a Marinha do Brasil, à qual já submeteu o seu projeto, mostrando-se ansioso pela sua realização.

Engenheiro agrónomo de profissão, Luiz consegue conciliar as suas viagens com o emprego ao trabalhar remotamente, a partir de qualquer lugar do mundo, desde que tenha um computador com acesso à internet.

As motivações que tem agora não são as mesmas que tinha no início, estas foram aumentando. “Cada dia quero mais”, assegura. Por essa razão já definiu, inclusivamente, uma nova meta: 160 países.

Costuma viajar sozinho porque a maioria das pessoas que conhece “ou não tem tempo ou não tem dinheiro”. Mas também viaja com os dois filhos, com a mulher ou com amigos. “A maioria dos meus amigos quer viajar mas em cima da hora colocam muitas dificuldades e eu não fico à espera”, declara Luiz. No início, a sua família tinha receio quando ia sozinho, pois achavam que podia acontecer alguma coisa de mal.

Não tem sido assim, ainda que uma vez, ao entrar no Líbano, e por se encontrar sozinho, tenha sido confundido com um traficante de droga. Mas tudo se resolveu. Também nunca esteve em nenhum país em conflito: “não conheço o Afeganistão, não conheço o Paquistão, não conheço a Síria, mas tenho planos para lá ir. Quem viaja como eu viajo, vai ter sempre o desafio de ir mais longe”.

Antes do acidente, Luiz apenas tinha visitado três destinos: Portugal, Argentina e Estados Unidos. A Portugal veio pela primeira vez em 1998, por altura da Expo. No entanto, lamenta só ainda conhecer Lisboa. Esteve até à passada terça-feira na capital portuguesa, numa estadia que durou seis dias. Considera Lisboa “uma cidade maravilhosa” e por esse motivo garante que regressará e passará muito mais tempo. “Estou tão encantado com Lisboa que eu quero vir para cá e alugar uma casa para ficar dois meses. Portugal é lindo, eu já sabia, mas agora encantei-me muito mais”, confessa, destacando ainda que gosta muito dos portugueses e da comida. Pretende também conhecer o resto do país, “desde o norte até ao sul, do leste ao oeste”, o que ficará para uma próxima visita.

Luiz Thadeu no Camboja em janeiro de 2016

Luiz Thadeu no Camboja em janeiro de 2016

Frederico Costa e Silva

Para Luiz tudo importa quando conhece um país novo – não só os principais locais de interesse como também as suas gentes. Gosta de conviver com os habitantes locais e admite que tem facilidade em fazer amigos. As pessoas que tem conhecido pelos sítios que passa não ficam esquecidas, mantêm o contacto através das redes sociais. “Eu aprendi que no mundo todo somos muito parecidos. Nós temos uma coisa em comum – as nossas necessidades são sempre as mesmas: de felicidade, de realização, de ter uma família”, explica.

Das suas aventuras guarda uma história muito especial. Na sua primeira viagem, ainda na Irlanda, quando se preparavam para ir apanhar o seu voo, Luiz e o filho Frederico entraram num autocarro, onde não era possível pagar o bilhete com uma nota superior a 20 euros. Luiz só tinha uma de 50, que o motorista não aceitou. Luiz suplicou, então, que este os deixasse ir, ou perderiam o voo. Ao que o motorista respondeu que os deixava seguir, na condição de oferecerem o valor correspondente às duas viagens (seis euros) a alguém que precisasse.

Já em Marrocos, quando seguiam de comboio de Marraquexe para Casablanca, notaram que uma família de marroquinos os observava. Luiz reparou que o senhor dessa família estava muito triste e o filho de Luiz perguntou ao rapaz que seguia à sua frente o que tinha acontecido. O jovem explicou que o homem era um pastor de ovelhas que tinha sido assaltado e agredido na cabeça. A situação tocou no coração de Luiz que, lembrando-se do motorista irlandês, ofereceu o equivalente a dez euros ao indivíduo, que, visivelmente feliz, o abraçou.

Luiz Thadeu em Xangai, na China

Luiz Thadeu em Xangai, na China

Frederico Costa e Silva

A limitação física não é motivo para deixar de percorrer milhares de quilómetros pelo mundo inteiro. No entanto, Luiz enfrenta sempre algumas dificuldades porque há lugares que não estão devidamente adaptados para pessoas com o seu problema.

Outra limitação é a questão da língua. “O meu inglês é péssimo. Mas isso não me impede de viajar”, confessa. Quando viaja com os seus filhos ou com um grupo de amigos que fale inglês, Luiz tem a vida muito mais facilitada, mas revela que quando isso não acontece se consegue fazer entender na mesma. Certa vez, na Índia, contratou um motorista que o acompanhou durante cinco dias e durante todo o tempo nenhum percebeu uma palavra do que o outro disse. Mesmo assim, “nunca se desentenderam, nem tiveram nenhum problema”.

Para se fazer entender quando viaja sozinho, Luiz recorre à mímica ou tenta anotar as coisas previamente. Se tiver wifi, usa o tradutor simultâneo. Quando foi para Xangai, na China, apercebeu-se de uma coisa “fantástica”: que os locais compreendiam muito bem o seu ‘mãodarim’, pois nem todos sabem falar inglês e preferiam conversar através de gestos com as mãos.

Das mais de quatro dezenas de cirurgias que realizou, Luiz teve de tomar remédios fortes para as dores, inclusive morfina. Por iniciativa própria decidiu deixar de tomar os medicamentos e aprendeu a viver com dores constantes. “Eu convivo com dor. Se eu ando muito, tenho dores. Se eu passo muito tempo na mesma posição, também tenho dores”, afirma Luiz, que adotou algumas estratégias para minimizar este problema, especialmente em voos muito longos. “Em viagens de 16 horas seguidas, tenho de me exercitar dentro do avião para não ter cãibras ou outro tipo de problemas com a perna”, explica.

Apesar de fazer sempre um seguro de saúde antes de cada saída do Brasil, Luiz conta que nunca precisou de ir ao médico durante uma viagem. Questionado sobre se alguma vez pensou em desistir, admite que viajar muito é cansativo e que às vezes pensa que deveria estar na sua cama, “que é um lugar muito confortável”. Mas não consegue, porque tem sempre a motivação para ir mais além.