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E ao terceiro dia Havana acordou sujeita às leis de mercado

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Fidel, Fidel, Fidel, há um ego que se inflama em cada cubano. Ele é o maior, na rua, na rádio, na televisão. O povo é grande como ele. Enquanto o discurso de grandes feitos se repete, o espírito da revolução renasce. Mas não anula a força invencível da lei da oferta e da procura

Cristina Margato

Cristina Margato

enviada a Cuba

Jornalista

O sol desponta atrás do memorial de José Martí. A primeira luz do dia é já vítrea. À distância e em contraluz, os corpos daqueles que caminham em direção ao local onde Fidel será homenageado transformam-se. Assumem uma só forma, a de uma massa única e compacta que escorre pela avenida em direção às barreiras policiais. Aí, o fluxo reduz-se como na boca de um funil. Do lado oposto, essa mesma fila rapidamente se estende e alarga.

Na segunda-feira, no primeiro dia em que os cubanos puderam participar nas cerimónias fúnebres, deixando o nome gravado no livro de condolências oficial, grupos organizados de pessoas confluem para as avenidas mais largas que conduzem à Praça de Revolução. De uma das ruas mais pequenas sai um grupo de batas brancas, oriunda de um dos hospital próximo. O número de batas é de tal modo enorme que é inevitável perguntar com quem terão ficado os doentes. De um modo geral, Cuba não fechou todos os serviços, mas há muitos que não funcionam, nomeadamente os estatais. As crianças seguem para a escola, como noutras manhãs, mas a avaliar pelo que hei de ver ao longo do dia num ecrã de televisão aqui e acolá, é provável que o programa seja agora outro e também passe pela Praça da Revolução ou por declarar à frente das câmaras de televisão cubana o quanto de boa educação e saúde Cuba lhes deu. Quanto a mim, terei de arranjar outro percurso. A falta de um visto de trabalho, que a burocracia cubana ainda não me tinha concedido àquela hora, não me permitiu fazer parte dessa massa compacta que seguiu em direção a Fidel.

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Faço sinal a um velho carro americano. O rapaz inclina-se para o banco do pendura. Vem na minha direção. As narinas parecem tomadas por uma inquietude anormal. Desce e sobem a uma velocidade vertiginosa, na ponta de um longo nariz que separa dois olhos esbugalhados. Pergunto-lhe se me leva a Havana Velha pelo preço habitual. Se aceitasse o que me quer cobrar, sentir-me-ia vítima de um assalto sem arma. Rejeito, sem pensar uma segunda vez. E fico feliz. As fungadelas dele não me inspiram confiança.

Esta será, porém, apenas a primeira tentativa de sair dali das muitas que me irão exasperar na hora seguinte. Tento um velho Lada soviético. Mas também já não pratica o preço habitual, o seguinte também não, o próximo também não... Um cubano que faz parte do cordão de segurança oficial à Praça da Revolução, ao assistir às minhas tentativas, intervém: “Não te preocupes. Se esse não aceita, outro aceitará.” Mas ao fim de uma boa meia hora, é ele mesmo que me sugere procurar táxis noutra rua ou até apanhar um autocarro. Avanço na expectativa de conseguir melhor. Em desespero, peço ajuda a um polícia, um rapaz tão novo que nem adulto parece, de olhar generoso e gesto solícito. Claro que me ajuda! A verdade, porém, é que não consegue nada melhor. De repente, os cubanos montados nos seus irresistíveis carros, de herança americana ou soviética, até parecem orgulhosos por poder desafiar a autoridade do jovem polícia. “O que aconteceu?”, pergunto. “Querem ganhar o dinheiro todo num dia?” O polícia-criança desvia os olhos verdes e diz: “Não é bem isso”. Está visivelmente triste e é nessa angústia que lhe pressinto uma certa desilusão. A autoridade não desafia as leis de mercado, as leis da oferta e da procura.

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Estou disponível para seguir a pé quando ouço um grito de uma velha senhora: “Uma guagua! Uma guagua!”, A mesma senhora acabara de me informar que o próximo autocarro deveria demorar pelo menos uma hora a chegar. Subitamente aparece na paragem. É a minha oportunidade. Passo ao motorista a moeda mais pequena que tenho e já não espero troco. O motorista olha para mim. Hesita. Uns segundos depois põe a mão numa bolsa que tem do lado esquerdo do assento e retira três moedas escuras. Passo de uma Cuba a outra no espaço de segundos, da selva capitalista à economia estatal e regulada, da moeda convertível ao peso cubano. A generosidade dos cubanos acabara de me resgatar da sua fibra invencível e determinada em fazer valer as leis do mercado.

De volta ao hotel, para trocar dinheiro, os mesmos euros correspondem agora a menos pesos convertíveis. Comento a diferença, porque não passaram mais de seis horas desde o último câmbio que fiz. Mas a rapariga do outro lado do balcão limita-se a sorrir. Percebo que não vai valer a pena mostrar-me surpreendida pelo facto de os cartões que dão acesso à internet custarem quase o dobro dos que se compram na rua, ou ainda, como descobrirei mais tarde, que os da rua também já não custem o mesmo. É caso para dizer que a lei da oferta e da procura pulsa e fervilha, no meio de uma Cuba à qual foi imposta uma lei seca de nove dias, os mesmos que durará o luto por Fidel. A mesma Cuba que não contabiliza o dinheiro que perde ao limitar a venda de álcool e que não tem outra música para oferecer que não seja a dos discursos que repetem a glória de Cuba, a glória de Fidel.

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A caminho da santidade

Em 1996, ano em que pisei pela primeira vez a ilha, Fidel não era receado nem admirado, antes líder ignorado nas noites em que presenteava os cubanos com discursos de mais de sete horas. Chefe demasiado fraco naquele preciso momento para ser temido pelos desgraçados dos cubanos licenciados e instruídos que, não se atirando às balsas e aos tubarões para chegar a Miami, sobreviviam a pescar lagostas e a vendê-las às escondidas nas suas casas, a fazer contrabando de “puros” ou, no limite, a vender o corpo a turistas sexualmente sedentos. Na ilha abandonada pelos amigos comunistas, a economia órfã da União Soviética não dava sinais de dar a volta. As histórias eram tristes. Miseráveis. E era fácil sair de Cuba deprimido, nem que seja por ver raparigas de 12 ou 13 anos a oferecerem o seu corpo a qualquer turista que começasse por aceitar pagar-lhe um prato de porco com arroz. Nas estradas, os motores a trabalhar a combustível não refinado deixavam atrás um nuvem negra irrespirável e aqui e ali nasciam improvisadas torres de exploração de petróleo de péssima qualidade. Havana Velha fedia, tais eram os esgotos e lixos deixados a céu aberto.

Em 2008, quando voltei, Fidel já não estava em funções executivas há dois anos, e muitos até já o imaginavam num estado indefinido, entre o morto e o vivo, apenas para manter o regime e garantir e caucionar o poder do seu irmão Raul. Havia mais boatos do que informações fiáveis. Havana desesperava com falta de papel higiénico e a oriente, em sítios mais remotos como Sierra Maestra, pouco mais havia que comer do que umas febras de porco com torresmos de porco. Dois furacões tinha deitado tudo por terra. Menos os porcos, animais que sobrevivem a quase tudo. Vilas inteiras com um único carro, o dos bombeiros, e uma ou duas carroças para se deslocarem não permitiam a chegada de mais nenhum tipo alimento. A paisagem fora dos complexos turísticos era desoladora. Entretanto, Castro, irmão, reduzia o paternalismo estatal, dando espaço à iniciativa privada.

Em 2016, após a sua morte, Fidel está a caminho do céu. Cuba também. Mesmo que seja do céu dos ateus. O ego dos cubanos inflama-se e não é difícil ouvir aqui e ali as coisas mais espantosas sobre El Comandante. Ora é o terceiro homem mais inteligente do mundo, ora é o invencível homem de ferro que ninguém conseguiu dobrar perante o gigantesco império americano, ora o homem que ninguém conseguiu assassinar, e que só a ordem natural da vida o dobrou e levou, remetendo a sua figura à eternidade. Nas ruas, na realidade que nos é dada a ver, por medo ou convicção, o povo não nos diz que a História o absolveu, diz-nos que se está a fazer uma nova história, que o faz renascer, a ele, a Cuba e à revolução, para que no fim todos repitam: “Tudo ficará igual”.

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Simpática burocracia

Regresso ‘ao braços’ de Lassarita. É uma menina simpática, também com olhos verdes. Está a tratar dos vistos dos jornalistas. Na noite anterior ficou com um pedido meu e disse-me para voltar às onze da manhã do dia seguinte. Foi tão simpática. Estava sentada numa cadeira quando ela mesma teve a iniciativa de me pedir para preencher o formulário. Nesse domingo à noite, os jornalistas mal dormidos e com olhos esbugalhados de tanta espera tinham ao dispor duas fileiras de cadeiras onde se podiam sentar, uma casa de banho que podiam utilizar. Mas na segunda-feira havia um segurança, uma fita vermelha para proteger Lassarita e os seus colaboradores. Os ânimos exaltados dos europeus não tornavam o processo burocrático mais rápido. Entrámos como turistas e agora precisamos de ser jornalistas. Lassarita dizia: “Estamos a fazer em dois dias o que faríamos num mês”. Não sei se em quase sessenta décadas de regime alguma vez entraram tantos jornalistas numa única semana. As pessoas gritam e ela, Lassarita, acalma-os. Tem um jeito tão próprio que gostaria de saber onde o aprendeu. Impõe-se com doçura e entrega uma brochura para nos ajudar a perceber melhor Fidel. Ao lado, um colega compra três números do “Granma”, o órgão oficial do Comité Central do Partido Comunista, e todos aglomeram textos sobre os feitos e o génio de Fidel. Na televisão, crianças atrás de crianças agradecem tudo o que têm ao Comandante.

Acho que Lassarita já não se lembra de mim. Mas quando lhe tento entregar um segundo pedido, convencida de que ela tinha perdido o meu formulário do dia anterior, responde-me: “Não preciso. Tenho o teu lá dentro”. Lassarita ainda não perdeu a memória do meu rosto no meio de novos rostos. Ainda que o tempo dela não seja o nosso tempo, porque entretanto poucos são os jornalistas que conseguem ter acesso ao que os meios de comunicação social cubanos têm desde o primeiro momento para poder contar a história - enquanto nós ficamos aqui sentados, retidos, à espera de poder trabalhar. Esta terça-feira, nem da fita vermelha já nos podemos aproximar. Colocaram-nos umas cadeiras. Ah, e continuamos a ter uma televisão!

  • Nada mudou em Cuba. Só o silêncio

    Quarenta e oito horas depois de Raul Castro ter ido à televisão para dizer aos cubanos e ao mundo que Fidel morreu, Havana não ri nem chora. É um deserto escuro. Um lugar onde pela primeira vez o silêncio se impõe e os corpos não bailam