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“Pedimos a todas as organizações de ajuda humanitária para intervir imediatamente em Alepo”

GEORGE OURFALIAN/GETTY IMAGES

Grupo de Defesa Civil da Síria alerta para um “desastre humanitário iminente” na zona este de Alepo, onde as forças do regime continuam a avançar, forçando milhares de pessoas a fugir e impedindo outras de ter acesso a comida e medicamentos

Helena Bento

Jornalista

A longa batalha entre o regime sírio e as forças da oposição na zona este da cidade de Alepo pode estar perto do fim. Em pouco dias, o Exército sírio tomou três importantes bairros. A oposição controla agora praticamente um terço do território que dominava antes. Podia ser só isto, uma guerrinha lá bem longe entre homens que vão disputando cada centímetro de terra e pelo caminho se vão matando uns aos outros, não fosse o que está a acontecer aos milhares de civis, ativistas, médicos e enfermeiros que, decididos a não fraquejar no meio do terror, ainda permanecem na região.

Um comunicado divulgado na segunda-feira pelo grupo de Defesa Civil da Síria (SDC, na sigla em inglês) alerta para um “desastre humanitário iminente” na cidade onde as pessoas “não têm comida nem medicamentos e as casas e abrigos disponíveis não oferecem as condições mínimas para as acomodar e proteger”. E deixa um apelo, que bem pode ser o último: “Pedimos a todas as organizações médicas e de ajuda humanitária para intervir imediatamente de modo a pôr fim ao desastre humanitário que se vive na zona de Alepo controlada pela oposição e cercadas pelo regime”. O grupo lembra que a região se encontra cercada pelo Exército sírio há 94 dias, impossibilitando as quase 300 mil pessoas que lá vivem de terem acesso a comida e medicamentos, e acusa o governo e as suas milícias aliadas de atingirem infraestruturas consideradas vitais para o serviço à população, incluindo centrais de energia, infraestruturas de abastecimento de água, padarias e hospitais.

“Desde terça-feira, dia 15 de novembro de 2016, o regime conduziu mais de 2000 ataques aéreos e bombardeou a cidade mais de 7000 vezes, recorrendo além disso a mísseis balísticos, “cluster bombs” (bombas de fragmentação) e barris explosivos com gás de cloro, armas que são proibidas pela comunidade internacional. Por causa disso, todos os hospitais da zona leste estão fora de serviço e o grupo de Defesa Civil Sírio perdeu metade do seu equipamentos e veículos, que têm sido atingidos pelo governo de forma deliberada, quando o grupo se encontra em missões de resgate, conforme é o seu dever humanitário”.

“No momento em que escrevemos, 35 pessoas encontram-se ainda [desde domingo] debaixo dos escombros, uma vez que as nossas equipas, não tendo os meios e recursos necessários, ainda não conseguiram encontrá-las.”

Depois de ter anunciado a tomada, em menos de 24 horas, de dois importantes bairros na zona este de Alepo, Jabal Badro e Hanano, o regime, apoiados por milícias iraquianas e militantes do grupo libanês Hezbollah, anunciou a reconquista de Sakhur, um bairro considerado estratégico por causa da sua localização no centro da zona leste. O tão temido efeito-dominó parece estar, de facto, a verificar-se.

As forças rebeldes controlam agora apenas uma parte do bairro e estão cada vez mais enfraquecidas. A longa batalha entre o regime sírio e a oposição pode estar bem perto do fim. O que vai acontecer depois disso já pouco importa - já pouco deverá importar para os rebeldes que morte lhes está destinada ou para os civis que destino lhes será imposto, quando nenhum lugar importa mais agora que perderam tudo - porque o mais importante e grave é o que aconteceu entretanto.

Nos últimos dias, milhares de pessoas deixaram vários bairros seguindo “em direções diferentes”. “Umas seguiram para a frente de batalha e alguns elementos das forças do regime e combatentes curdos optaram por se lhes juntar. A maior parte dirigiu-se para o centro da zona leste de Alepo, controlada pelos rebeldes”, disse Osama Bin Javaid, correspondente da Al-Jazeera no local.

Nunca se viu nada assim, descreve quem acompanha a situação desde o início através de um ampla rede de contactos no local. “É o primeiro êxodo deste género no leste de Alepo desde 2012” e “a maior derrota dos rebeldes desde então”, disse recentemente Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (SOHR, na sigla em inglês), citado pela AFP. Foi nesse ano que a batalha pela conquista da segunda maior cidade da Síria, que em tempos foi considerada o seu principal centro financeiro e comercial, teve início. “A situação é desastrosa. Os deslocamentos são em massa. O estado de espírito é de grande pessimismo. As pessoas estão a dormir na rua. Não têm o que comer nem o que beber, e nós também não”, disse Ibrahim Abu Al-Leith, porta-voz dos White Helmets, uma força de socorros não-governamental que atua no país, citado pela AFP.

Os residentes descrevem cenas desesperadas de pessoas que são atingidas por bombas enquanto tentam procurar um local seguro, depois de as suas casas terem sido destruídas num dos muitos bombardeamentos que jorram sobre a cidade todos os dias.

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