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Nada mudou em Cuba. Só o silêncio

Tributo a Fidel no Memorial José Martí, em Havana

FOTO REUTERS

Quarenta e oito horas depois de Raul Castro ter ido à televisão para dizer aos cubanos e ao mundo que Fidel morreu, Havana não ri nem chora. É um deserto escuro. Um lugar onde pela primeira vez o silêncio se impõe e os corpos não bailam

Cristina Margato

Cristina Margato

Em Havana

Jornalista

Na escuridão de domingo à noite só o alcatrão brilha, coberto por uma chuva miudinha que abre a ‘temporada invernosa’ do Caribe. Os pneus do carro rolam sobre o piso molhado durante mais uns minutos até que os nossos olhos são resgatados do negrume da via rápida. Uma considerável quantidade de holofotes desafia as retinas. As luzes estão apontadas para o imponente memorial do herói cubano José Martí, bem no centro da Praça da Revolução, onde esta segunda-feira se iniciaram as cerimónias fúnebres dedicadas a Fidel Castro. Viro o pescoço e ainda vou a tempo de me confrontar com o vigilante rosto de Che Guevara cravado na empena de prédio.

Na rádio Reloj as horas marcam o compasso de um discurso afadigado e ainda assim eternamente repetido. Nas ondas da rádio não há mais do que palavras: tributos daqui, consternações dali. Cuba lamenta. Cuba lastima. Cuba glorifica a morte do grande revolucionário. Cuba recorda a vida do grande homem, do povo que o seguiu. Cuba reclama a eternidade da revolução.

 Praça da Revolução, em Havana, este domingo

Praça da Revolução, em Havana, este domingo

Getty Images

O carro segue diligente pelas avenidas. Um velho calhambeque americano reluz aqui. Um pobre Lada um pouco mais à frente segue numa nuvem de fumo. Para trás fica um aeroporto fervilhante: “É época alta”, diz o taxista. “Mas Fidel também trouxe mais gente. É uma personalidade muito conhecida em todo mundo. Muitos virão de propósito para o funeral”, acrescenta orgulhoso, convencido do importante lugar que o mundo reserva a Cuba e a Fidel. O mesmo não diria a rapariga sentada ao meu lado no avião. Iolanda, uma jovem basca que teve o “azar” de fazer coincidir a sua primeira viagem à ilha, há muito planeada, com a morte de Fidel: “O que quererão eles dizer quando dizem que não há concertos nem festas?”, pergunta em tom retórico, como quem se quer convencer a si própria da inevitabilidade do silêncio dos próximos dias.

olha desiludida para o seu guia turístico, cheio de marcadores amarelinhos, rosas, azuis e sublinhados fosforescentes. “Terei de adaptar tudo. Nada do que previ fazer vai ser possível. Talvez tenha direito a um concerto ou a uma festa no dia 6, ou seja, na véspera de regressar a Bilbau.” Iolanda compara o mapa do guia turístico “Lonely Planet” com o mapa que vem publicado no diário “ABC”. Compara o percurso que as cinzas de Fidel farão até chegarem a Santiago com as suas intenções. A ideia é encontrar um percurso alternativo que escape a tanta lamúria.

Reuters

“Sim, Santiago de Cuba, a capital do Oriente!”, continua o taxista. “Nasceu no Oriente! Vai a enterrar no Oriente.” Mas Fidel nasceu em Holguin, contraponho eu. “Sim, mas o que vale é Santiago!” Partilho as minhas dúvidas sobre as condições das estradas entre Havana e Santiago (mais de 1000 quilómetros de distância) e a possibilidade de estas aguentarem tamanha excursão funerária. Tenho a viva a recordação de as ter cruzado em 2008 com sérias dificuldades, tais eram as crateras que nelas se abriram depois da passagem de dois furacões.

Até agora, Havana não me pareceu mais revitalizada. Mas é de noite - e a bela Havana está na penumbra. O homem garante: “mais de mil quilómetros, cerca de 16 horas de viagem, entre Havana e Santiago para serem feitos ao longo de vários dias”. Fidel sairá de Havana na quarta para terminar o seu percurso em Santiago no domingo.

“E as mudanças? Espera mudanças?” O taxista não tem qualquer dúvida: “Qualquer mudança radical é contra a revolução. A mudança tem de ser lenta, para poder lidar com a cultura, com a cabeça dos cubanos.” Peço-lhe que mude a frequência de rádio. Contrariado, lá larga a Radio Reloj para procurar a Rádio Rebelde. Por momentos, nas ondas hertzianas, repetem-se as palavras, as glorificações... e eis que entram uns acordes. “São canções políticas, músicas políticas”, apressa-se a explicar. Mas o que ouço é música russa, pesada e fúnebre.

Getty Images

Chegamos a Havana Vieja. Já passa das onze da noite e o é silêncio total. Os bares adormeceram. Os restaurantes não alimentam ninguém. No lobby do Hotel Sevilla, alguns turistas pairam numa penumbra que mais parece ter sido provocada por um corte de energia. Não consigo entrar na internet e não sou a única. É lenta, limitada, coloca a ilha à margem do mundo.

Preciso de ir a Vedado, bairro de Havana onde fica o Centro de Prensa Internacional e no qual se distribuem as acreditações aos jornalistas para poderem trabalhar. Mas já não consigo táxi. Em contrapartida, oferecem-me uma bicicleta-táxi conduzida por um jovem rapaz de 23 anos. Yusmany corresponde ao retrato típico do cubano: solícito e simpático. Sente-se obrigado a anunciar-me de imediato a catástrofe: “Não há bebida! Nem música! Nem nada. Mas posso-lhe mostrar as ruas e os jardins”.

Seguimos pela escuridão. Antes de chegar à famosa Molecon, onde surpreendentemente não há nem gente nem música, fazemos uma rápida viragem à esquerda. Seguimos por uma rua interior rumo ao nosso destino em Vedado. Yusmany, que já foi enfermeiro por um ano, vai ganhar nesta corrida, de cerca de 30 minutos, 8 Cucs (oito euros), o equivalente a oito dias de trabalho ao longo de doze horas como enfermeiro. Não precisa de me explicar a matemática, nem para que lhe serviriam os 30 cucs que poderia ganhar num mês se continuasse a trabalhar num hospital, ainda que tenha necessidade de me anunciar que qualquer refeição de rua pode facilmente chegar aos 17 cucs, já para não falar numa garrafa de água, que não se consegue por menos de 1 cuc e meio.

EPA

Yusmany ri-se quando passamos por um grupo de rapazes. “Homossexuais!”, informa. Mas o caminho alternativo que escolhe é-lhe barrado. Um polícia avisa-o que não pode continuar a pedalar a “bitáxi”, por se tratar de um bairro. Mas na verdade é porque estamos cada vez mais próximos da Praça da Revolução. “Política!!”, resume numa só palavra. “E não é tudo política?”, devolvo-lhe. Baixa a testa, coberta de suor, e não se atreve a contrariar-me. Seguimos a pé. Mas um novo polícia no quarteirão seguinte diz-lhe que não pode seguir caminho. Nem a empurrar a bicicleta. O rosto de Yusmany é todo suor. Mas não me abandona, “porque não se abandona uma senhora”. Uns metros à frente consegue parquear a bicicleta. Continuamos em passo rápido e ofegante. A 50 metros de distância já não restam dúvidas sobre a localização do Centro de Prensa Internacional. O edifício estatal tem as luzes acesas e dentro dele acumulam-se umas dezenas de estrangeiros com os olhos esgazeados e os rostos pálidos, próprios de quem tem várias horas de voo em cima e já não dorme há muito tempo. Muitos esperam desde manhã. É meia-noite em Havana e, tirando esta concentração de jornalistas que ali continuarão pela noite dentro, só a escuridão em redor e a ausência da salsa nos dá conta de uma mudança. Desta vez, é o silêncio que celebra a vitória de Fidel e da sua Revolução.