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Os deserdados

chip somodevilla/getty

Foi com um misto de incómodo, surpresa e alguma alegria que os delegados à Convenção Republicana receberam Peter Thiel, fundador da PayPal, republicano e gay assumido, no Quicken Loans Arena de Cleveland. Num ato inédito, um homossexual assumiu-se perante uma plateia de conservadores ultrarreligiosos sem pedir desculpa por isso: “Tenho orgulho em ser gay, tenho orgulho em ser republicano e, acima de tudo, tenho orgulho em ser americano.” O tabu estava quebrado, mas as prioridades estavam também clarificadas. Thiel ia lá dizer que a prioridade era a economia, não eram as casas de banho públicas para transexuais a que os democratas andavam a dedicar tanta atenção. Ia explicar que para um gay rico como ele o dinheiro estava antes da sua orientação sexual. Até porque o dinheiro tem a enorme vantagem de comprar a liberdade em relação ao preconceito.

Este foi o primeiro acordo que Donald Trump fez com um partido que não o queria mas o aceitou: deu-lhes o vice-presidente e dar-lhes-á os juízes que, no Supremo, poderão tentar reverter o reconhecimento do direito ao aborto. Pode ser que lhes dê mais umas coisas para manter a aliança política que nasceu em Cleveland, quando, ao contrário do que a imprensa tentou fazer passar, o partido se pacificou perante a inevitável vitória interna do milionário. A única verdadeira resistência que havia a Trump, nas bases republicanas, era ele não ser suficientemente conservador. E isso resolve-se na barganha negocial. Donald Trump, que a imprensa internacional continua a tratar como se fosse um bronco, conseguiu a quadratura do círculo: tirou o Partido Republicano do gueto do fundamentalismo cristão sem perder um único voto conservador.

Nas últimas décadas, os republicanos confinaram o debate político aos “valores”, como se diz nos EUA. Armas, drogas, orientação sexual, aborto e raça passaram a definir a fronteira política que obrigava os democratas a uma difícil coligação de eleitorados com muito pouco em comum — negros, hispânicos e elite branca cosmopolita. Enquanto entretinham o povo com estes debates, os republicanos lá iam impondo a sua agenda fiscal, económica e social, para a qual contaram, temos de ser justos, com largo apoio do establishment democrata. Fez-se o foguetório com o combate entre conservadores e liberais enquanto se tratava do que era prioritário: o dinheiro. O problema é que este debate deixou os democratas cada vez mais distantes do seu eleitorado natural: operários, assalariados e classe média desprotegida.

O que Trump fez foi retirar os republicanos deste gueto, deixar o Partido Democrata a falar dos temas do costume enquanto se dirigia diretamente ao seu eleitorado. E isso ficou facilitado depois da derrota de Bernie Sanders, contra o qual o establishment democrata conspirou. É como se tivesse saído a sorte grande a Trump: Hillary Clinton representava na perfeição aquilo que poderia levar a um voto cego em Trump. E desmobilizava muitos dos que, recusando o voto no candidato republicano, não sairiam de casa para votar naquela que, justa ou injustamente, associavam aos interesses que manipulam Washington. Trump não precisou de mobilizar muito e foi eleito com menos votos do que McCain e Romney captaram para as suas derrotas.

A revolta do “rust belt”

A esmagadora maioria dos votos em Trump vem, como não podia deixar de ser, do eleitorado tradicional republicano, assim como a maioria dos votos em Hillary vem do eleitorado democrata. Com as suas diferenças típicas. Não é no rendimento, na raça ou nas opiniões sobre costumes de uns e outros que descobriremos as razões profundas da vitória de Trump. Aí, apenas faremos um raio x do que é hoje a América azul e a América vermelha. Latinos, negros, urbanos, mais escolarizados, mais pobres e mais jovens votam mais democrata. Brancos, conservadores, rurais, menos escolarizados, mais ricos e mais velhos votam mais republicano. É preciso mais do que isto. Um bom trabalho do “New York Times” revela-nos que, em relação a 2012, Trump subiu no voto masculino, negro, hispânico, de meia-idade, com pouca formação e, acima de tudo, nas pessoas que recebem menos de 30 mil dólares por ano, onde passou de 35% para 41%. E, curiosamente, baixou no voto nos seniores e conquistou mais voto evangélico e cristão renascido do que Mitt Romney ou mesmo Bush, em 2004.

A razão mais apresentada para votar em Trump contra Hillary foi a mesma que levou a votar Obama contra a mesmíssima Hillary, primeiro, e contra McCain, depois: a vontade de mudança. Em tudo o resto ele não parece ter convencido nem o seu próprio eleitorado. O que quer dizer que os democratas perderam porque não responderam a esse sentimento de urgência. E porque querem mudar estes eleitores? 72% dos que dizem que a sua situação financeira está melhor agora em relação ao passado votaram Clinton, 78% dos que acham que a sua situação financeira piorou votaram Trump. Aqui está a resposta. E o mapa não engana: os counties onde houve maior progressão republicana em relação aos democratas coincidem, de forma impressionante, com o Rust Belt — área no nordeste e na região dos Grandes Lagos, onde dominava a indústria pesada. Assim se percebe não quem votou em Trump mas quem fez toda a diferença. É o voto dos que mais perderam com a crise financeira de 2008, com a globalização e com a entrada do Ocidente na sua fase pós-industrial. E isto pode ser passado a papel químico para a Europa.

A diferença foi a “fúria da classe trabalhadora” do New Hampshire, como lhe chamou o “New York Times”, que deu, em fevereiro, uma tremenda vitória de Sanders sobre Clinton. Foi a eles que Trump se dirigiu na noite antes das eleições, em Manchester, usando um léxico que pediu emprestado à esquerda: “Os interesses dos corruptos roubaram os vossos trabalhos e enviaram-nos para outros países. Traíram a classe trabalhadora deste país. Amanhã, a classe trabalhadora americana vai contra-atacar.” Bernie Sanders, de quem Trump queria herdar os votos suficientes para vencer um Estado que em 25 anos só uma vez tinha votado num candidato republicano, resumiu assim o desaire democrata: “Eu venho da classe trabalhadora branca e sinto-me profundamente humilhado com o facto de o Partido Democrata não conseguir falar com estas pessoas.”

Para tudo ficar na mesma

Trump é um jogador e, como todos os jogadores, é um fingidor. Parece que está a fazer macacadas e afinal aquilo é política. Da mesma forma que conseguiu conquistar os conservadores enquanto tirava os republicanos do gueto religioso, conseguiu prometer a mudança aos trabalhadores enraivecidos sem nunca assustar realmente a elite financeira. Conseguiu aparecer como um outsider apesar de ser da elite e defender a elite. Melhor: conseguiu propor mudanças reais para endurecer o status quo.

Em “O Leopardo”, de Lampedusa, Tancredi Falconeri tenta convencer o seu tio a esquecer os Bourbon e a aliar-se aos Saboia: “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles vão-nos submeter à República. Para que as coisas permaneçam iguais é preciso que tudo mude.” A citação está gasta de tanto uso, mas poucas vezes, na história recente, foi tão pertinente. Como podemos observar na Europa e nos EUA, as cada vez mais regulares crises financeiras e a globalização sem freios está a levar as democracias a um ponto de rutura. Donald Trump é a figura que conseguiu liderar esta revolta, pondo em risco os fundamentos da democracia liberal mas garantindo que as mudanças não atingirão uma elite financeira que parece estar, como já se percebeu, relativamente serena com este resultado. A grande mentira desta eleição é a ideia de que o establishment está em pânico com um outsider. Basta ter acompanhado a CNN na noite eleitoral e ter observado as reações dos mercados umas horas depois da surpresa para perceber que o poder económico pensa, e com razão, que Donald Trump é integrável.

Os anúncios tonitruantes de deportações de imigrantes são o sinal de que Trump irá provocar parte do terramoto que prometera. Assim como continuará a gerir com todo o cuidado a sua comunicação, mantendo uma tensão retórica que não desiluda. Não espanta, por isso, que tenha ido buscar para um dos seus principais conselheiros de comunicação Stephan Bannon, um racista exaltado com uma agenda claramente alinhada com a extrema-direita. Mas ao mesmo tempo que entra Bannon para tratar do espetáculo entra, para chefe de gabinete, Reince Priebus, presidente do Comité Nacional Republicano desde 2011, que representa toda a “elite corrupta de Washington” que Trump jurou combater. E para secretário do Tesouro falava-se de Steven Mnuchin, antigo partner da Goldman Sachs e diretor financeiro da campanha de Donald Trump. O CEO da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, enviou uma mensagem aos colaboradores: “Os resultados das eleições significam mudança, o que não é necessariamente mau. A mudança é muitas vezes o agente do progresso em sentidos que nós nem sempre conseguimos ver nos dias de hoje.” Com promessas de mais desregulação e menos impostos, há razões para sorrir. E mesmo o compromisso de investir nas degradadas infraestruturas públicas ao mesmo tempo que corta nos impostos, o que implica um maior endividamento, é ouro sobre azul.

reuters/mike segar

reuters/carlos barria

Promessas. Trump ganhou porque falou para os descontentes da massa trabalhadora, que tinham votado em Bernie Sanders — o democrata que perdeu para Hillary Clinton, a grande derrotada da eleição. “Traíram a classe trabalhadora deste país. Amanhã, a classe trabalhadora americana vai contra-atacar”, disse-lhes Trump. Eles acreditaram

Promessas. Trump ganhou porque falou para os descontentes da massa trabalhadora, que tinham votado em Bernie Sanders — o democrata que perdeu para Hillary Clinton, a grande derrotada da eleição. “Traíram a classe trabalhadora deste país. Amanhã, a classe trabalhadora americana vai contra-atacar”, disse-lhes Trump. Eles acreditaram

reuters/mark kauzlarich

Em “Capitalism: a Love Story”, um documentário de Michael Moore (o mesmo que avisou que Donald Trump ia vencer estas eleições), Stephen Moore (sem qualquer parentesco) explicava: “O capitalismo é muito mais importante do que a democracia. Nem sequer acredito muito na democracia. É termos dois lobos e uma ovelha a decidirem o que vão almoçar.” Este antigo membro do Conselho Editorial do “The Wall Street Journal” e economista do poderoso think-tank conservador The Heritage Foundation foi um dos principais conselheiros económicos de Donald Trump nesta campanha. É um dos autores do seu plano fiscal e, ao que tudo indica, será uma voz muitíssimo influente nesta Administração. E é pelas suas palavras que Trump melhor se define: ele representa um novo momento do capitalismo, que se prepara para começar a dispensar uma democracia que é incompatível com a fase da globalização em que estamos a entrar. É incompatível porque só poderíamos ter democracia e globalização com um governo global. Sem essa quimera, só há duas formas de garantir a sobrevivência do Estado-Nação: ou protecionismo económico ou autoritarismo político. O tempo dirá se Trump escolhe o primeiro, o segundo ou os dois. Apostaria, olhando para os que dele se acercam e para as forças em jogo, que a moeda de troca em defesa do mercado livre será um Estado mais musculado com as margens da sociedade e, se preciso for, com todos os que contestem este rumo.

Donald Trump é o rosto do capitalismo na sua versão autoritária. Em vez de um Duce ou de um Generalíssimo, temos um CEO. Em vez de paradas militares, reality shows. Uma espécie de fascismo com share de audiências. Mas não dispensou velhas receitas: o ódio ao imigrante ilegal, que ocupa o lugar simbólico do perigo externo, como elemento unificador da nação.

A imigração foi o principal tema nestas eleições e na campanha do ‘Brexit’. E se são os próprios eleitores a sublinharem a importância do assunto em todos os estudos de opinião, seria legítimo pensar que esta é a sua principal preocupação quotidiana. Certo? Talvez não. O leave foi esmagado numa das cidades mais cosmopolitas do mundo e venceu em muitas zonas rurais “puramente” inglesas. Nos estados norte-americanos onde a imigração mexicana legal e ilegal mais se sente — Texas, Novo México, Arizona e Califórnia —, os republicanos perderam votos e percentagem em relação a 2012. Nos cinco counties norte-americanos com mais imigrantes não só Trump foi esmagado, como, em quatro deles, perdeu percentagem de votos em relação ao que Romney tinha conseguido há quatro anos.

Apesar de paradoxal, não há qualquer mistério nisto: o medo e a revolta contra imigrantes (ou contra estrangeiros, ou contra ciganos, ou contra judeus, ou contra muçulmanos) são típicos de momentos de ansiedade com o que vem de fora. Essa ansiedade resulta de um sentimento de perda e da convicção fundada de que não se tem lugar no novo tempo. E isto explica a diferença de votos entre jovens e velhos. O fosso não é geracional, resultado de uma dificuldade em entender a modernidade. É mesmo etário e resulta da maior fragilidade dos mais velhos perante a insegurança. Mas mesmo esta diferença etária deve ser relativizada. Sendo o eleitorado republicano mais envelhecido do que o democrata, foi entre os 45 e os 65 anos que Trump conquistou novos eleitores. E nas primárias, a esmagadora maioria dos jovens votou num candidato que, no que toca à globalização e aos acordos internacionais de comércio, dava voz ao mesmo mal-estar.

Nunca há apenas uma razão para explicar um resultado eleitoral nem a história segue para um caminho certo. Mas há um padrão impossível de negar: a Europa Ocidental e os EUA, onde a democracia liberal mais firmemente se implantou, estão a manifestar sinais de rutura. Os povos ocidentais estão a reagir a uma globalização e a uma financeirização da economia que tem resultado em crises sucessivas, perda de capacidade de produção industrial, crescimento do desemprego e substituição de emprego por subemprego muito precarizado, destruição de todas as almofadas sociais e um regresso aos níveis de desigualdade que tínhamos nos anos 30. Para quem pensava que estes fenómenos não teriam tradução política, o Brexit foi o primeiro aviso.

Os fantasmas da impotência

Na Europa, os condimentos para o desastre são ainda mais fortes do que nos EUA. A nossa crise económica é mais profunda e não dá, ao fim de tantos anos, sinais de ser ultrapassada. A reação dos poderes políticos a ela foi ainda mais desastrada e lenta. Bruxelas é ainda mais distante e intruso do que Washington. Há várias democracias bem mais frágeis do que a norte-americana. O discurso contra a imigração mistura-se facilmente com o discurso contra os muçulmanos e com o medo em relação ao terrorismo. A questão da identidade nacional é ainda mais poderosa. Com exceção da criminalidade e dos conflitos raciais, tudo é mais intenso.

A Europa tem em comum com os EUA, em modo mais agravado, a decadência do centro-esquerda. Pode parecer estranho dizê-lo, mas a crise da esquerda é a crise do Estado-Nação, e é por isso natural que sejam os nacionalistas a roubar-lhe o eleitorado. E a União Europeia e a sua deriva ideológica recente aceleraram este processo. Não porque a esquerda fosse nacionalista, mas porque o projeto social-democrata dependia do poder do Estado. A esquerda saiu vitoriosa sempre que conseguiu associar o patriotismo ao progresso social e à representação política das aspirações do povo nacional, como bem mostraram, nos anos 30, os social-democratas suecos. A globalização e a consequente crise do Estado-Nação, não sendo contra a natureza ideológica da esquerda, tirou-lhe todos os instrumentos para o seu projeto político reformista.

Tendo perdido os instrumentos económicos, regulatórios e fiscais que o Estado detinha, a esquerda acabou por se vergar à lógica dos que a ela se opunham: em vez de pleno emprego, empregabilidade; em vez de impostos redistributivos, offshores e competição fiscal com outros Estados; em vez da intervenção do Estado numa economia mista, privatizações; em vez de aprofundamento do Estado Providência, “reformas estruturais”. Tudo acompanhado com a devida adaptação lexical e simbólica. Os trabalhadores foram substituídos por minorias étnicas e sexuais, transformando o que era uma luta pelos direitos humanos na própria identidade distintiva da esquerda. O que a levou a aliar-se, com imensa naturalidade, a uma direita mais liberal, que aceitava sem qualquer dificuldade conquistas que correspondem a uma maior liberdade individual e de costumes. E a deixar para a extrema-direita o espaço de crescimento na representação dos trabalhadores em perda.

reuters/jean-paul pelissier

reuters/michaela rehle

eleiçoes. O ‘Brexit’ foi o primeiro grande sinal e Nigel Farage um dos poucos a sorrir na manhã seguinte. Agora, foi a vez de Trump. Em França, Marine Le Pen ganha terreno na esquerda operária, ameaçando uma vitória nas presidenciais de abril. Algo está a mudar, e a extrema-direita alemã, a crescer nas sondagens, encontra razões para brindar

eleiçoes. O ‘Brexit’ foi o primeiro grande sinal e Nigel Farage um dos poucos a sorrir na manhã seguinte. Agora, foi a vez de Trump. Em França, Marine Le Pen ganha terreno na esquerda operária, ameaçando uma vitória nas presidenciais de abril. Algo está a mudar, e a extrema-direita alemã, a crescer nas sondagens, encontra razões para brindar

reuters/vincent kessler

Em Portugal, assim como na Grécia e noutros países com ditaduras de direita recentes, a inexistência de extrema-direita e a existência de partidos comunistas fortes evitaram este tipo de transferência. Foi o PCP que segurou este eleitorado e o BE que representou revoltas emergentes. Aqueles que, no centro-esquerda, ignoram esta vantagem e desejam quebrar a aliança entre o PS e estas forças, para obrigar a uma clarificação, sofrem de instintos suicidas. Mas se a esquerda continuar a ver-se como mera representante “das forças mais dinâmicas” da sociedade, onde se encontram “jovens” e “educados”, como propõe Augusto Santos Silva num artigo do “Público”, ignorará as classes em perda e entregará todo o seu voto desesperado à extrema-direita. Como se viu com Bernie Sanders, quando a esquerda não deixa os derrotados pelo caminho consegue uma aliança virtuosa entre jovens (conquistou 80% dos jovens nas primárias democratas) e trabalhadores em perda. A história contrafactual é inútil, mas é bem possível que o debate fosse outro se tivesse sido ele o candidato democrata.

Na Alemanha, que irá a votos para o ano, a realidade é muito diferente da norte-americana. Segundo um estudo do Cologne Institute for Economic Research (IW), publicado em abril, cerca de 34% dos simpatizantes da Alternativa para a Alemanha (AfD, partido de extrema-direita anti-imigração) pertencem aos 20% mais ricos e apenas 10% dizem-se preocupados com a sua situação económica. Esta ideia é apoiada por uma outra pesquisa, da TNS Infratest, que diz que 79% dos apoiantes do partido descrevem a sua situação económica como boa ou muito boa. Mas em França é impossível não fazer paralelos com o ‘Brexit’ e com Trump. Segundo uma sondagem do “Figaro”, de setembro, Marine Le Pen conta com a intenção de voto de 56% dos operários (bastante acima do voto esperado, que andará entre os 28% e os 32%, conforme o outro candidato da direita), enquanto Hollande terá 19% (um pouco acima da média, entre os 16% e 17%) e o candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, apenas 9% (abaixo da sua média geral de 10%). O voto histórico e sociológico da esquerda é em Le Pen. Há uma grande diferença em relação ao ‘Brexit’ e, em parte, a Trump, que desafia a ideia de que a rejeição da globalização e até dos imigrantes está ligada à idade: a candidata da Frente Nacional tem 40% dos votos nos eleitores abaixo dos 35 anos e 29% nos eleitores acima desta idade, que preferem votar nos partidos tradicionais.

Tal como acontece com vários partidos de centro-esquerda europeus e com os democratas americanos, os socialistas franceses substituíram a agenda social e económica, em que passaram a construir consensos com a direita liberal, por uma agenda de causas ditas fraturantes, que têm a vantagem de não incomodar os poderes fácticos e de já ter hoje, felizmente, uma maioria social de apoio sólida. O único enfrentamento que Hollande teve com a direita francesa foi em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nas leis laborais e sociais tem havido um grande consenso entre socialistas e direita tradicional. Enquanto isto, a Frente Nacional vai-lhes conquistando votos, como já antes conquistara aos comunistas. Assim como, no Reino Unido, os partidários do ‘Brexit’ foram buscar apoio a tradicionais eleitores do Labour, a quem o blairismo retirou grande parte da força sindical. Meteram o socialismo na gaveta durante tanto tempo que ele saiu de lá com as cores cinzentas e um sabor amargo.

Podemos dar muitas voltas para descobrir quem é o povo que engrossa o exército de eleitores da extrema-direita, nos EUA e na Europa. Podemos procurar no politicamente correto, no Islão, no terrorismo, nos imigrantes, nas redes sociais, nos media, nos reality shows ou na ignorância as razões para cada desaire. Mas a coisa é mais simples do que parece: os que desequilibraram a balança no Reino Unido e nos EUA —e poderão voltar a fazê-lo em França — são os deserdados da esquerda. Aqueles que ela deixou de conseguir ou querer representar quando se vergou perante a TINA e compensou a derrota com umas pitadas de modernidade liberal que muita gente de direita já está em condições de aceitar. A esquerda era capaz de imaginar futuros diferentes e propô-los àqueles a quem o presente pouco oferecia. Uns futuros correram bem, outros foram trágicos. Mas hoje é a extrema-direita que os promete. Quando todos dizem às pessoas que num mundo globalizado tudo escapa ao seu poder, ela promete devolver-lhes o controlo das suas vidas (ou da sua economia, ou das suas fronteiras). Não perceber o poder que isto tem é não perceber o que o sentimento de impotência pode fazer aos povos. Trump, ‘Brexit’ ou Le Pen são os fantasmas desta impotência. E estão a fazer história.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 19 de novembro de 2016

  • Eu show Trump

    Ninguém o levava a sério, mas o excêntrico multimilionário é o 45º Presidente dos Estados Unidos da América