Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

As sete vidas de Fidel, o homem que terá sobrevivido a 634 tentativas de assassínio

“Cuba não é um país onde o socialismo chegou depois dos batalhões vitoriosos do Exército Vermelho. Mas se houvesse regresso ao capitalismo, seríamos um prolongamento de Miami.” Após a queda do Muro de Berlim. Na foto, Fidel tem a seu lado Elián González, o mediático sobrevivente de um naufrágio a caminho de Miami.

Claudia Daut/Reuters

O ex-líder cubano coincidiu no poder com dez Presidentes dos Estados Unidos. Uma investigação de Fabián Escalante, ex-chefe dos serviços secretos cubanos, concluiu que, entre 1959 e 2000, Fidel terá sobrevivido a 634 tentativas de assassínio. Algumas planeadas de forma criativa - que agora relembramos. Fidel Castro morreu este sábado

Margarida Mota

Jornalista

AMANTE TRAIÇOEIRA

1960, janeiro - Chegada a Cuba com o pai após a revolução de 1959, a alemã Marita Lorenz perdeu-se de amores por Fidel Castro e tornou-se numa das suas muitas amantes. Ficou grávida e acusou o regime de a ter obrigado a abortar. Abandonou a ilha e juntou-se à comunidade cubana da Florida, onde foi recrutada pela CIA para assassinar Castro. Recebeu ampolas com veneno que deveria colocar na comida do cubano. De volta a Cuba, Fidel terá desconfiado do que se passava e entregou a Marita a sua arma para que ela o matasse. A alemã não foi capaz e pôs Fidel ao corrente dos planos da CIA.

CHARUTO CONTAMINADO

1960, setembro - Quando Fidel foi a Nova Iorque para discursar na Assembleia Geral da ONU, a CIA viu nessa visita uma ocasião única para atentar contra ele. Juntamente com a máfia, planeou várias operações. Uma delas consistia em colocar no seu quarto de hotel uma caixa de charutos contaminados com um poderoso veneno à base de butolina sintética. A polícia recusou colaborar e o plano abortou. Outra passava por colocar sais de tálio nos seus sapatos ou nos seus charutos. O químico provocaria a queda da barba. Esta operação não visaria matar Fidel, mas antes enfraquece-lo e desacredita-lo perante o seu povo. Uma terceira tentativa passava por pulverizar um estúdio de rádio onde Fidel iria participar numa emissão em direto com um aerossol contendo uma substância que provocaria um riso incontrolável, afetando o seu carisma e prestígio.

BÚZIO ARMADILHADO

1963, primeiro trimestre - Sabendo que Fidel Castro gostava de fazer mergulho, a CIA planeou mata-lo através de um fato de mergulhador forrado com esporos e bactérias que infetavam a pele e inoculavam o bacilo da tuberculose. O fato deveria ser entregue ao advogado americano James B. Donovan, envolvido nas negociações com Cuba visando a libertação de prisioneiros da invasão da Baía dos Porcos (1961), e que tinha acesso a Fidel. O jurista recusou a missão e, por iniciativa própria, ofereceu a Castro um outro fato. A CIA insistiu e planeou colocar um búzio armadilhado com explosivos na zona onde Fidel costumava praticar pesca submarina. O búzio seria colorido e fora do comum, para atrair a atenção de Fidel e aproxima-lo o suficiente para que fosse atingido pela explosão.

BATIDO TÓXICO

1963, março - À noite, Fidel tinha por hábito passar pelo hotel Habana Libre, onde se deliciava com batidos de chocolate. Um empregado do bar chamado Santos de la Caridad Perez Nunez recebeu, de um guarda-costas da máfia, duas cápsulas de cianeto, a mando da CIA. Deveria mistura-las no batido de Fidel para envenená-lo. O empregado deixou uma em casa e escondeu a outra no frigorífico do hotel, à espera da melhor oportunidade. Certo dia, Fidel apareceu e fez o pedido de sempre. Perez Nunez foi buscar a ampola e reparou que estava presa ao gelo do frigorífico. Ao tentar descolá-la, a cápsula partiu-se e o seu conteúdo perdeu-se. Terá sido esta a ocasião em que a CIA esteve mais próxima de matar Fidel.

CANETA ENVENENADA

1963, novembro - No dia 22, exatamente o mesmo em que John Fitzgerald Kennedy foi assassinado em Dallas, Rolando Cubela, embaixador de Cuba na UNESCO, e Desmond Fitzgerald, chefe da secção de assuntos cubanos da CIA, encontraram-se em Paris para coordenar o projeto de um golpe de Estado em Cuba e o assassinato de Fidel. Cubela recebeu uma caneta luxuosa com uma agulha hipodérmica destinada a inocular, lentamente, um veneno em Fidel. O complô foi descoberto e Cubela foi condenado a 25 anos de prisão. Após ser libertado, exilou-se em Espanha.

APAGÃO OPORTUNO

1967, novembro - Fidel tinha presença prevista na inauguração do Campeonato Nacional de Basebol no Estádio de El Cerro, em Havana. Um grupo de conspiradores planeou um atentado contra Fidel que passava pela colocação de um cúmplice junto ao quadro elétrico com a missão de provocar um curto-circuito e gerar um apagão no recinto. Simultaneamente, seriam lançadas granadas de fragmentação contra a tribuna onde Fidel se encontrava.

ACIDENTE COMBINADO

1971, outubro - Élio Hernández Alfonso era um operário numa siderurgia que odiava Fidel e o regime cubano. Em nome de uma contrarrevolução, tentou recrutar vários trabalhadores dessa unidade fabril para assassinar "El Comandante" quando ele visitasse o local. O plano consistia em derrubar sobre Fidel um enorme contentor de ferro fundido, à sua passagem. Descoberto o plano, o autor foi preso.

  • Morreu Fidel Castro

    O líder histórico da revolução cubana morreu às 22h29 de Havana, 3h29 de Lisboa. Para uns foi um herói, para outros um ditador. O anúncio da sua morte foi feito esta madrugada pelo irmão na televisão cubana. Um mês antes de morrer recebeu o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa