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Internacional

Trump só participou em dois briefings diários com as secretas desde que foi eleito

Donald Trump e o seu vice-presidente, Mike Pence

Drew Angerer

Entre os afazeres de um líder norte-americano contam-se reuniões diárias com elementos da comunidade de serviços secretos norte-americanos. Desde que ganhou as eleições a 8 de novembro, Trump só esteve presente em duas, com Mike Pence a substituí-lo nas restantes

Nos 17 dias volvidos desde que Donald Trump venceu as eleições presidenciais a 8 de novembro, o Presidente eleito só participou em dois dos encontros diários com os chefes das secretas norte-americanas para receber os briefings sobre desenvolvimentos globais e ameaças de segurança. Em vez dele, é Mike Pence, o seu vice-presidente, quem não tem falhado quase nenhuma dessas reuniões desde a vitória.

A informação foi avançada esta quinta-feira ao "Washington Post" por antigos e atuais funcionários norte-americanos, com membros da equipa de transição de Trump a dizerem que não há qualquer leitura ulterior a fazer da ausência do Presidente eleito. Para esses, Trump só não tem estado presente nos briefings porque está empenhado na tarefa de compôr o seu gabinete e preparar o seu Governo para a tomada de posse a 20 de janeiro. Mas outros interpretam o facto como um sinal extra de indiferença do Presidente eleito, que não tem qualquer experiência no ramo da segurança nacional e que, durante a campanha, teceu várias críticas às agências federais de serviços secretos, minorizando a sua importância e capacidades.

A isso acrescem as suspeitas de que Pence será o líder de facto dos EUA durante os quatro anos de mandato de Trump, para que o empresário possa continuar concentrado nos seus negócios ainda que de forma não assumida. Durante a corrida eleitoral, Trump disse que, se fosse eleito, ia analisar a possibilidade de alterar a legislação em vigor para dar ao vice-presidente poderes até agora exclusivos do chefe máximo do Governo norte-americano. O facto de Pence ter estado sempre presentes nos briefings com as secretas nas últimas duas semanas sem o Presidente eleito, a par de notícias que dão conta de que Trump tem aproveitado encontros e chamadas com líderes mundiais para firmar negócios no estrangeiro, alimentam esta dúvida.

Ao WaPo, um membro da administração Obama que participa diariamente no mesmo briefing diário com o Presidente diz que, com a falta de assiduidade, o próximo Presidente dos EUA está a perder a oportunidade de ficar a par do que se passa no mundo a cada dia. "Trump tem muita coisa de que se inteirar", diz a fonte. Já Devin Nunes, republicano da Câmara dos Representantes que dirige a Comissão de Serviços Secretos da câmara baixa do Congresso, diz que as ausências de Trump não têm importância, já que o Presidente eleito tem dedicado muita atenção aos acontecimentos mundiais até nos seus encontros com líderes e chefes de Governo e nas reuniões da sua equipa de transição. "A segurança nacional é a prioridade número 1 de Donald Trump e penso que ele está a levá-la muito a sério", defende Nunes em entrevista ao mesmo jornal. "Veja com quantos líderes ele já se encontrou, quantas chamadas telefónicas ele já fez, quantos cargos já atribuiu. As pessoas que estão a criticá-lo têm de arranjar uma vida."

Os encontros que já manteve com líderes mundiais têm estado envolvidos em controvérsia. O facto de a sua filha mais velha, Ivanka Trump, ter estado presente na reunião com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, na Trump Tower em Nova Iorque há uma semana, fez soar os alarmes — Ivanka vai ficar a gerir a Organização Trump enquanto o pai estiver na Casa Branca e não tem qualquer papel a desempenhar ou sequer certificação de segurança para participar em encontros diplomáticos e negociações políticas.

Dias depois, Jorge Lanata, jornalista de investigação da Argentina e apresentador do programa de televisão Periodismo para Todos, disse ao jornal argentino "La Nación" que a conversa de Trump com o Presidente do país, Mauricio Macri, "não foi um mero debate geopolítico" como se anteciparia de um telefonema entre dois líderes mundiais. "Macri ligou [a Trump]. Isto ainda não foi divulgado mas Trump pediu-lhe que [as autoridades argentinas] autorizem a construção de um edifício [do império Trump] em Buenos Aires." Ao "The Guardian", o porta-voz do Presidente argentino desmentiu que esse assunto tenha sido discutido com o Presidente eleito ou com a sua filha, que também participou na chamada.

Tanto o gabinete do Diretor Nacional dos Serviços de Informação, responsável pelos briefings diários, como o porta-voz da equipa de transição de Trump recusaram-se a comentar a ausência do Presidente eleito das reuniões diárias com analistas das secretas. Até agora, Trump só esteve presente num desses encontros poucos dias depois da vitória e numa segunda sessão com membros prestigiados da comunidade de serviços secretos na terça-feira em Nova Iorque, antes de partir para a Florida para o feriado de Ação de Graças, celebrado na quinta-feira.

O Briefing Diário do Presidente (PDB, na sigla inglesa) é um sumário de assuntos mundiais e de segurança compilado com base em informações das 16 agências secretas dos EUA, que inclui ainda informações atualizadas sobre os programas secretos que a CIA gere no estrangeiro, e que é apresentado ao Presidente e à sua equipa todas as manhãs, bem como ao Presidente eleito e à sua equipa durante a fase de transição de uma administração para a seguinte.