Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Trabalho infantil e vouchers escolares: as controvérsias da ministra da Educação de Trump

Donald Trump escolheu a milionária Betsy DeVos, proeminente dadora do Partido Republicano, para Secretária da Educação

Drew Angerer

A multimilionária Betsy DeVos é uma proeminente dadora do Partido Republicano e grande defensora de um sistema de vouchers na escola pública que os críticos dizem que serve apenas para desviar fundos públicos para o ensino privado

O Instituto Acton, um think tank conservador com estatuto de organização sem fins lucrativos que durante anos recebeu milhares de dólares em doações de Betsy DeVos e da sua família, defendeu recentemente que as crianças devem voltar ao mercado laboral. No início do mês, o grupo financiado pela milionária que Donald Trump nomeou Secretária da Educação publicou um post no seu blogue oficial onde diz que legalizar o trabalho infantil é "um presente com que os nossos filhos conseguem lidar".

"Ensinemos aos nossos filhos não só a brincarem e a estudarem, mas arrastemo-los também para uma longa linha de hobbies e de atividades educacionais e eletivas", lê-se na publicação, assinada por Joseph Sunde. "Uma longa jornada de trabalho e muito suor têm muito a ensinar-lhes também." O trabalho infantil não é totalmente proibido nos EUA, prevendo exceções no caso de crianças atores e distribuidores de jornais, mas está altamente regulado.

No artigo que o "Huffington Post" publicou na quinta-feira, o jornal apontava que DeVos integrou o Conselho de Diretores do Acton durante 10 anos e que atualmente não é certo que papéis continua ou não a desempenhar no instituto ou que nível de influência mantém na organização. A homepage oficial do grupo está atualmente encabeçada por uma mensagem a dar os parabéns à multimilionária por ter sido escolhida por Trump para gerir o sistema de ensino norte-americano.

O artigo de Sunde tinha inicialmente como título "Tragam o trabalho infantil de volta". Depois da notícia do HuffPost e de outros jornais, o autor atualizou o texto com uma nota introdutória onde se lê: "Dada a recente atenção que este post angariou, permitam-me que clarifique que eu NÃO defendo a substituição do ensino por trabalho pago, nem apoio que se enviem as nossas crianças de volta para as minas de carvão ou para outros trabalhos de alto risco, nem apoio o fim do ensino obrigatório em idade escolar, da primária ao ensino básico. Por causa da confusão gerada, removi 'Tragam o trabalho infantil de volta' do título, já que muitos leram nele falsamente que eu quero 'trazer de volta' leis, condições ou empregos antigos, quando não é esse o meu argumento."

No mesmo artigo, o autor deixou intocados parágrafos onde defende que as crianças podem ser postas a trabalhar. "No nosso contexto moderno, aliviar o 'sistema' existente não tem de (nem deve) pôr as nossas crianças em risco de trabalharem 12 horas por dia em condições extremas e perigosas. As atuais avenidas económicas para mão-de-obra não qualificada são, na verdade, um território de excelência para pôr as nossas crianças em contacto com o risco e o sentido de serviço."

A escolha de Betsy DeVos para a Educação, como outras nomeações do Presidente eleito desde que venceu as eleições presidenciais há duas semanas, está envolta em controvérsia. Defensores do ensino público dizem que o facto de ser uma grande defensora do sistema de vouchers é preocupante dado o cargo que vai ocupar a partir de 20 de janeiro, quando o Governo de Trump toma posse. "Ao nomear DeVos, Trump está a dizer alto e bom som que as suas políticas de educação vão ser focadas na privatização, na retirada de financiamento e na destruição da educação pública na América", disse o Presidente da Federação Americana de Professores, Randi Weingarten, citado pela CNN.

"Ela tem feito lóbi a favor de esquemas falhados, como os vouchers, que retiram às nossas escolas públicas fundos e controlo local para financiar as escolas privadas à custa dos contribuintes", acrescentou a Associação Nacional de Educação logo após o anúncio da nomeação de DeVos. "Estes esquemas não só não fazem nada para ajudar os nossos alunos mais vulneráveis como ignoram ou agravam as óbvias lacunas de oportunidade. Ela tem forçado de forma consistente uma agenda corporativa para privatizar a escola pública."

Num artigo publicado na quinta-feira, o "New York Times" sublinhava que "é difícil encontrar alguém mais apaixonado pela ideia de retirar dólares públicos às escolas tradicionais públicas do que Betsy DeVos". Durante quase 30 anos, aponta o jornal, "enquanto filantropa, ativista e dadora do Partido Republicano", a mulher que Trump esclheu para gerir o sistema de ensino público "trabalhou afincadamente para dar a famílias dinheiro dos contribuintes na forma de vouchers para que [os seus filhos] vão para escolas privadas ou paroquiais, exerceu pressões para expandir a rede de escolas charter financiadas com dinheiros públicos mas de gestão privada e tentou retirar poder de influência aos sindicatos de professores".