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Notícias sobre violações são exageradas, diz ministra indiana das mulheres

A ministra acha que a culpa é dos media. Na sua perspetiva, eles exageram muito sobre o tema das violações na Índia

MONEY SHARMA/GETTY IMAGES

Nos últimos anos, vários ministros têm lamentado os efeitos da má publicidade sobre o turismo

Luís M. Faria

Jornalista

Para ministra das mulheres e do desenvolvimento infantil, Maneka Gandhi tem uma visão curiosa sobre o problema da violação no seu país. Embora a Índia seja conhecida internacionalmente pelos níveis de violência sexual – e pela brutalidade, não raro homicida, que lhes anda ligada – Gandhi acha que a culpa é dos media. Na sua perspetiva, eles exageram muito. Falando há dois dias num workshop para mulheres jornalistas, ela respondeu a uma pergunta sobre a aparente indiferença do seu Governo na matéria garantindo que a situação não é nem de longe tão má como se diz.

“Fui à Suécia há dois anos. Por causa do incidente de Nirbhaya (a violação de uma estudante de fisioterapia, que morreu das agressões, por seis homens em Delhi), havia casos a ser reportados todos os dias. Disseram-me que ninguém queria viajar para a Índia. Eu tinha dados comigo, consultei-os, e a seguir mostrei-os. Estávamos entre os últimos quatro países do mundo em termos de casos de violação. A Suécia era o número um”.

Organismos de defesa das mulheres foram rápidos a criticar a ministra. Num inquérito internacional em 2012, a Índia foi considerada o pior de todos os países para se ser mulher. Se há mais casos reportados na Suécia, é por motivos óbvios. O país tem uma definição muito ampla de violação, e as vítimas não sofrem qualquer estigma social. Por contraste, a cultura local na Índia ainda torna extremamente difícil para uma mulher violada ser levada a sério, e há sempre muitas pressões para retirar a queixa. A tendência é para culpar a vítima, que andava com uma roupa tentadora, ou olhou para os homens, ou saiu à noite…

Diversos ministros têm recentemente feito declarações que revelam a extensão do problema. Um referiu-se a Nirbhaya como “um pequeno incidente”. Outro distinguiu entre violações que corretas e outras que são erradas. Outro ainda disse que a violação acontece por acidente. E já em agosto passado, o ministro do turismo avisou as turistas estrangeiras para “não usarem vestidos curtos e saias. A cultura indiana é muito diferente da ocidental”.

De 2012 para cá, em consequência da má publicidade, o turismo sofreu quebras substanciais no país. Parece ser essa a grande preocupação do governo, a avaliar pelas afirmações dos ministros. Embora a criminalização das agressões sexuais tenha sido reforçada após Nirbhaya, na prática as coisas permanecem largamente iguais. A violação dentro do casamento, por exemplo, continua a ser ignorada. Na Suécia, por contraste, não apenas é levada a sério como cada instância conta como uma violação separada.

Se um marido viola uma mulher ao longo de meses, pode ver-se sujeito a dezenas de acusações distintas. Só isso bastaria para colocar o país no topo das estatísticas em termos de casos reportados. Na Índia, pelo contrário, se ninguém se queixa é porque não aconteceu. Pelo menos a julgar pelo que diz a ministra das mulheres.