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Internacional

Reunidas pela sorte, a tempo do Natal, uma refugiada de 4 anos e a sua mãe

Tudo graças a uma outra menina refugiada, que começou a brincar com um telemóvel

Luís M. Faria

Jornalista

Por obra de um fortuito acaso, uma menina de quatro anos e a sua mãe, ambas refugiadas, devem conseguir voltar a ficar juntas a tempo de passarem o Natal. Será a conclusão feliz de mais uma daquelas histórias dramáticas em que a atual crise dos refugiados tem sido pródiga, e acontece em Itália, o país europeu que mais refugiados tem salvo e acolhido nos últimos anos.

Oumah e a sua mãe são da Costa do Marfim. O pai da menina terá querido submetê-la à chamada mutilação genital. A mãe fugiu com a filha e as duas chegaram à Tunísia, onde Oumoh ficou a cargo de uma amiga da mãe, enquanto esta regressava a casa para ir buscar alguns bens.
Entretanto, surgiu uma oportunidade de uma viagem para Itália, e a amiga aproveitou, embarcando com Oumoh. Durante a viagem, algo as terá separado, e Oumoh encontrava-se num pequeno barco sem condições de segurança, desacompanhada, quando finalmente a recolheram ao largo da ilha de Lampedusa, a 5 de novembro.

“Elas prendem-se a nós”

A responsável do centro de refugiados local, Marinela Cefala, diz que a menina estava traumatizada e incapaz de falar, ou de comunicar de que forma fosse. Juntou-se a outras 20 mil crianças que este ano foram parar a Itália nas mesmas circunstâncias, e ficou à espera que decidissem o seu destino.

Um dia, Cefala deixou que outra criança no centro, uma menina de oito anos também oriunda da Costa do Marfim, começasse a brincar com o seu telefone. Ao passar as fotos que Cefala tinha no telefone, reconheceu Oumoh. Disse que tinha estado com ela e a sua mãe na Tunísia.

Foi a pista crucial. Cefala contactou uma inspectora da polícia, Maria Volpe, que iniciou uma busca e acabou por encontrar a mãe de Oumoh no Facebook. Através de parentes em França, obteve-se o contacto da mãe. Ainda se achava na Tunísia, e chorou muito quando soube que a filha estava viva.

Agora, só falta um teste de ADN para confirmar a relação entre Oumoh e a mulher, de 31 anos. A seguir, esta viajará da Tunísia para Itália, onde ficará a viver com a sua filha.

Para Volpe, o caso também não e isento de aspetos emocionais: "Toca-nos o coração quando vemos os olhos das crianças, que são tão pequenas. Elas depressa se prendem a nós, tornamo-nos a referência delas. Mas é uma honra poder fazer este trabalho com amor e compaixão".

O número de refugiados acolhidos em Itália este ano aproxima-se dos 170 mil. Em 2015, tinham sido 154 mil. Em março, a União Europeia estabeleceu um acordo no sentido de aliviar a pressão sobre a Grécia, onde se encontram a viver mais 60 mil refugiados, em condições frequentemente descritas como desumanas.