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Internacional

Filho de Trump teve encontro secreto com política síria ligada à Rússia

David Becker

Reunião entre Donald Trump Jr. e Randa Kassis aumenta dúvidas sobre estratégia de política externa que a próxima administração norte-americana vai seguir quanto à guerra na Síria. Na quarta-feira, em entrevista ao “New York Times”, o Presidente eleito voltou a sublinhar que “tem uma visão da Síria diferente da de toda a gente” e escusou-se a partilhar as “ideias fortes” que tem para resolver o conflito

As suspeitas de que o próximo Governo dos Estados Unidos vai adotar uma nova postura face à guerra da Síria, alinhando-se com a Rússia que é a grande aliada de Bashar al-Assad, foram reforçadas na quarta-feira, depois de ter sido revelado que o filho mais velho de Donald Trump se encontrou com uma figura proeminente do regime sírio próxima de Moscovo um mês antes das eleições presidenciais norte-americanas.

Segundo informações avançadas ontem pelo “Wall Street Journal”, Donald Trump Jr. encontrou-se a 11 de outubro no Hotel Ritz em Paris com Randa Kassis, líder de um grupo sírio que os russos classificam de “oposição patriótica” ao regime de Bashar al-Assad, embora vários políticos, analistas e dissidentes sírios apontem que ela é, na verdade, pró-regime, para além de ser uma das mais fervorosas defensoras da intervenção russa na guerra civil da Síria.

“A Rússia interveio para salvar o país, interveio pelo bem da Síria”, disse Kassis numa entrevista à Al-Jazeera na terça-feira. “O problema é que vocês não conhecem os russos, não entendem os russos, vocês só acusam os russos de serem contra a oposição [síria] mas têm de compreendê-los”, acrescentou a diretora do programa Direção Oposta, numa mensagem direta ao Ocidente.

Bassam Barabandi, ex-diplomata sírio que desertou no início da guerra civil e que agora vive como exilado político em Washington, diz que a organização de Kassis não tem grande apoio ou expressão dentro da Síria. “Na verdade é ela e um grupo de amigos”, disse citado pelo “Guardian”. “Ninguém na Síria a reconhece como oposição [a Bashar al-Assad] à exceção do próprio regime.”

Kassis é casada com Fabien Baussart, empresário francês que lidera o Centro de Política e Assuntos Externos, um pequeno “think tank” com sede em Paris que mantém fortes laços comerciais com o Cazaquistão e a Rússia, aponta o jornal britânico. Foi Baussart quem apresentou Kassis, uma ex-socialite de Damasco, a Sergei Lavrov, ministro russo dos Negócios Estrangeiros com quem a síria mantém uma relação de grande proximidade, aponta Joseph Bahout, especialista em questões da Síria do Carnegie Endowment for International Peace.

“Ela é uma grande amiga de Lavrov e ele convidou-a e a outros a irem até Moscovo para criar o que é conhecido, aliás com uma certa ironia, como 'Oposição de Moscovo'”, diz Bahout. “Os russos no seu cinismo tentaram impor estas pessoas como delegação da oposição [a Assad] nas conversações de paz em Genebra. Mas é claro que a restante oposição síria se opôs a isso.”

Lavrov conseguiu que Randa Kassis participasse num encontro do Grupo de Contacto para a Síria em Genebra em março

Lavrov conseguiu que Randa Kassis participasse num encontro do Grupo de Contacto para a Síria em Genebra em março

FABRICE COFFRINI

Recentemente, Kassis publicou no Facebook alguns comentários sobre o encontro com o filho de Donald Trump, dizendo que “a oposição síria ficou com a esperança de que o processo político possa avançar e que a Rússia e os EUA alcancem um acordo quanto à crise síria por causa da vitória” do magnata de imobiliário que derrotou Hillary Clinton nas presidenciais de 8 de novembro. E acrescentou: “Tal esperança e crença foram resultado do meu encontro pessoal com Donald Trump Jr. em Paris em outubro. Consegui passar a Trump, através da conversa com o seu filho, a ideia de como podemos cooperar para alcançarmos um acordo entre a Rússia e os EUA quanto à Síria”.

A notícia do controverso encontro surgiu a par da primeira entrevista de Donald Trump ao “New York Times”, na qual o Presidente eleito disse que tem “uma visão da Síria diferente da de toda a gente”. Na conversa desta quarta-feira com os diretores e jornalistas do diário nova-iorquino, que Trump chegou a cancelar horas antes, o futuro líder norte-americano não forneceu quaisquer pormenores sobre que política e estratégias pretende seguir enquanto Presidente para acabar com a guerra civil na Síria. Em vez disso, declarou apenas que a sua visão difere da opinião de membros do Partido Republicano como a do senador Lindsey Graham, que defende que os EUA devem reforçar o apoio a alguns grupos da oposição a Assad e endurecer a postura contra a Rússia e o regime sírio. Sobre as suas “ideias fortes” para a Síria, disse que não pode discuti-las publicamente para já.

Durante a campanha eleitoral, Trump chegou a dar os parabéns à Rússia e ao regime sírio pelo seu “combate contra o ISIS”, o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), que os EUA e os aliados também têm estado a combater na Síria e no Iraque. No início de novembro, Bashar al-Assad chegou a declarar, com uma certa cautela, o seu apoio à candidatura de Trump, dizendo que ele será um “aliado natural” do regime sírio se cumprir a promessa de lutar contra os “terroristas” — a palavra que o Presidente sírio e os seus apoiantes, incluindo Moscovo, usam para descrever todos os grupos rebeldes que têm lutado contra o regime desde março de 2011 e não apenas o Daesh e a Al-Qaeda.