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Internacional

As contradições de Trump sobre as alterações climáticas

Um dos focos dos programas climáticos da NASA é o estudo do degelo das calotas polares, um dos fenómenos mais preocupantes decorrentes do aquecimento global

Mario Tama

Depois de ter dado a entender que afinal poderá manter os EUA na luta global contra o aquecimento do planeta, um conselheiro do Presidente eleito disse que a futura administração está a planear cortar todo o financiamento ao programa climático da NASA para combater o que diz ser “a politização da ciência”

Durante a campanha para as presidenciais de 8 de novembro, Donald Trump disseminou a ideia de que o fenómeno do aquecimento global é um “embuste chinês” forjado para roubar postos de trabalho aos norte-americanos. Quando derrotou Hillary Clinton e foi eleito Presidente, prometeu retirar os EUA do acordo do clima de Paris e de todos os programas globais de combate às alterações climáticas. Na entrevista de terça-feira ao “New York Times”, deu a entender que afinal acredita no fenómeno cientificamente comprovado e que poderá não mexer nas atuais políticas de clima do país, um dos dois maiores poluidores do mundo, a par da China. Mas ontem, um dia depois dessas declarações, um alto conselheiro do Presidente eleito confirmou que a equipa de transição de Trump já tem planos delineados para cortar todo o financiamento ao programa da NASA que estuda as variações da temperatura do planeta e o impacto das atividades humanas no clima.

Em entrevista ao “Guardian”, Bob Walker disse na quarta-feira que o próximo Governo quer acabar com a “ciência politizada” e redirecionar os fundos da divisão de ciência terrestre da agência espacial norte-americana para a exploração “total” do sistema solar, um objetivo que Trump apresentou durante a campanha e que diz que quer ver concluído até ao final do século.

Na prática, a medida irá ditar a eliminação do programa internacionalmente reconhecido que, nas últimas décadas, liderou o estudo da temperatura do planeta azul, do degelo, das nuvens e de outros fenómenos climáticos. A rede de satélites da NASA é uma das grandes fontes de informação sobre as alterações climáticas e o seu programa do clima depende de financiamento estatal: antes da eleição de Trump, previa-se que o orçamento da divisão fosse aumentar para dois mil milhões de dólares (€1,89 mil milhões) em 2017 — contra os 2,8 mil milhões de dólares (€2,6 mil milhões) previstos para o departamento de exploração espacial no próximo ano, um valor inferior ao de anteriores orçamentos.

“Vemos a NASA com um papel de exploração, de investigação do Espaço profundo”, disse Walker ao jornal britânico, falando no programa de investigação climática como um instrumento de “controlo ambiental politicamente correta”. “A ciência centrada na Terra deve pertencer a outras agências que têm nisso a sua principal missão. O que eu acho é que será difícil suspender todos os programas da NASA em curso mas que programas futuros devem ser do pelouro de outras agências. Acredito que a investigação climática é necessária mas que está altamente politizada, o que tem minado muito do trabalho que os investigadores têm levado a cabo. As decisões de Trump vão basear-se em ciência sólida, não em ciência politizada.”

Na terça-feira, na entrevista ao “New York Times”, Trump absteve-se de falar nas alterações climáticas como um “embuste chinês”, a versão que defendeu ao longo da corrida eleitoral, dizendo aceitar que existe “alguma ligação” entre as ações do Homem e o aquecimento global. Existem provas científicas fortes e incontornáveis de que a contínua aposta em combustíveis fósseis, a desflorestação e outras atividades humanas são causas diretas da subida da temperatura da Terra registada nas últimas décadas.

Walker afirmou contudo, ao “Guardian” esta quarta-feira, que existem algumas dúvidas sobre essa relação que são “partilhadas por metade dos climatólogos do mundo” e sublinhou que “precisamos de boa ciência que nos diga o que é real”. A ciência, defende o conselheiro de Trump com o pelouro da agência espacial, “poderia fazer isso se os políticos não interferissem nela”.

Desde que Trump venceu as eleições, os meios de Comunicação Social norte-americanos têm referido que existe um crescente nervosismo dentro da NASA por causa da postura do Presidente eleito quanto às alterações climáticas e da sua agenda para reforçar a exploração de combustíveis fósseis e limitar a regulação desse setor.

Cientistas como Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Investigação Atmosférica, dizem que cortar o financiamento às ciências terrestres vai representar “um enorme passo atrás, se não devastador” para o combate ao aquecimento global, numa altura em que a janela temporal para contrariar o fenómeno em tempo útil está quase a fechar-se. “Podemos voltar à idade negra, quase à era pré-satélites”, diz Trenberth ao “Guardian”. “A informação sobre o planeta Terra, sobre a sua atmosfera e oceanos, é essencial à nossa forma de vida. A investigação do Espaço é um luxo, mas as observações da Terra são essenciais.”

Michael Mann, cientista climático da Universidade Penn, acrescenta que a NASA tem “um papel fulcral e único” na observação terrestre e no estudo das alterações climáticas. “Sem o apoio da NASA, os EUA e todo o mundo vão ser duramente atingidos no que toca a entender o comportamento do nosso clima e as ameaças que as alterações climáticas produzidas pelo Homem representam.” Cortar o financiamento aos programas de investigação da NASA, acrescenta, “será um passo claramente político e irá indicar que o Presidente eleito está disposto a agradar aos mesmos lobistas e grupos de interesse corporativo que ele ridicularizou durante a campanha”.

Contactada pelo jornal britânico, a agência espacial norte-americana absteve-se de comentar os alegados planos da administração Trump, com um porta-voz a dizer apenas: “A comunidade da NASA está empenhada em fazer tudo o que puder para que a transição do ramo executivo seja suave. A agência continua concentrada no futuro, um futuro que irá melhorar o nosso entendimento sobre o planeta em mudança que é a nossa casa a partir das plataformas únicas da NASA no Espaço”.