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Amnistia denuncia morte de 150 manifestantes independentistas pacíficos na Nigéria

Um homem foi regado com ácido pelos militares

Amnistia Internacional

A maior mortandade aconteceu por ocasião do Dia da Evocação do Biafra, a 30 de maio, quando a Amnistia Internacional diz que ocorreram “execuções extrajudiciais”. As forças de segurança da Nigéria negam as acusações

As forças de segurança nigerianas levaram a cabo desde agosto de 2015 uma violenta repressão dos manifestantes pró-independentistas pacíficos do Biafra, no leste do país, que causaram pelo menos 150 mortos, segundo um relatório publicado esta quinta-feira pela Amnistia Internacional.

A organização de direitos humanos indica que, na operação liderada pelos militares, foram usadas balas reais para dispersar multidões e que por ocasião do Dia da Evocação do Biafra, a 30 de Maio deste ano, 60 pessoas foram mortalmente alvejadas em Onitsha, no que qualifica como “execuções extrajudiciais”.

A polícia nigeriana nega que tenha usado força desnecessária e o exército acusa a Amnistia de estar a tentar destruir a sua reputação.

Os dados apresentados no relatório baseiam-se na análise de 87 vídeos, 112 fotografias e no relato de 146 testemunhas, “mostrando de forma consistente que os militares dispararam balas reais com pouco ou nenhum aviso para dispersar as multidões” e que ocorreram “execuções extrajudiciais” durante dois dias em eventos relacionados com o Dia da Evocação do Biafra.

“A repressão letal dos ativistas pró-Biafra aumentou as tensões no sudeste da Nigéria. Esta abordagem irresponsável e de ânimo leve para controlar a multidão causou pelo menos 150 mortes e nós tememos que o número real seja superior”, afirmou Makmid Kamara, diretor interino da Amnistia na Nigéria.

As “execuções extrajudiciais” terão ocorrido em diversos locais durante aqueles dois dias.
Uma mulher de 28 anos relatou que pouco depois do seu marido ter saído de manhã para ir trabalhar recebeu um telefonema em que ele lhe disse que havia sido alvejado no abdómen pelos militares e que se encontrava num veículo militar com seis outros detidos, quatro deles já mortos.

“Começou a sussurrar e disse-me que eles pararam (o veículo). Ele estava com medo que matassem os três que ainda estavam vivos. Parou e disse-me que eles estavam a aproximar-se. Ouvi tiros e não ouvi mais nenhuma palavra dele depois disso”, relatou. No dia a seguir acabou por encontrar o seu corpo numa morgue. Os funcionários disseram que os militares o haviam trazido com seis outros. Examinou o seu corpo e viu que fora alvejado com um tiro no abdómen e dois no peito.

Diversos vídeos mostraram também que os militares cercaram um grupo de membros e apoiantes grupo independentista Povo Indígena do Biafra (PIB) que se manifestavam pacificamente junto a uma escola secundária, a 9 de fevereiro, disparando sobre eles balas reais sem aviso prévio.

Um comerciante de 26 anos relatou que no Dia da Evocação do Biafra escondeu-se numa sarjeta, e foi descoberto pelos militares que lhe despejaram ácido em cima. “Tapei a minha cara. De outro modo agora estaria cego. Eles despejaram ácido nas minhas mãos. As minhas mãos e o meu corpo começaram a queimar. A carne a queimar... Arrastaram-me para fora da sarjeta. Disseram-me que iria morrer lentamente”, recordou.

Desde agosto de 2015 que têm ocorridos diversos protestos, marchas e concentrações de membros e apoiantes do PIB, mas a situação tornou-se ainda mais tensa após a detenção do líder do grupo, Nnamdi Kanu, a 14 de outubro de 2015, que ainda permanece detido.

Há cerca de cinquenta anos, o povo Igbo tentou conquistar a independência da Nigéria, altura em que o país viveu uma guerra civil. Muitos sentem quem ainda continuam a ser alvo de represálias devido à tentativa de emancipação.