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Internacional

Merkel preocupada com saída dos EUA do acordo transpacífico

Sean Gallup/GETTY

Chanceler alemã considera que os acordos bilaterais que Donald Trump quer estabelecer não serão tão benéficos. E insiste na importância de moldar a globalização em função dos valores comuns

Ainda no rescaldo no anúncio das primeiras medidas de Donald Trump – feito num curto vídeo publicado há dois dias nas redes sociais –, a chanceler alemã mostrou-se insatisfeita com a intenção manifestada pelo Presidente eleito dos EUA de retirar o país do acordo transpacífico.

“Vou ser honesta. Não estou feliz com o facto de o acordo transpacífico não se tornar realidade. Não sei quem irá beneficiar com isso”, afirmou Angela Merkel esta quarta-feira no Parlamento germânico, citada pela AP.

A governante alemã voltou a insistir, à semelhança do que havia feito na semana passada, em Berlim, em conjunto com Barack Obama, que o Tratado Transatlântico de Investimento é vital para os EUA e a UE liderarem as relações económicas a nível global.

“Só sei uma coisa: haverá outros acordos, e eles não terão as mesmas normas que este acordo e o esperado Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) têm”, acrescentou.

Moldar a globalização em função dos valores comuns

Contra a visão protecionista do novo líder dos EUA, Merkel reiterou no Parlamento que é essencial que a Alemanha aposte no fortalecimento dos valores comuns com os parceiros europeus, os EUA e os restantes aliados no mundo. “Digo que devemos buscar um terreno comum, contar com o multilateralismo e trabalhar em conjunto com outros para moldar a globalização”, sublinhou a chanceler.

Na quarta-feira passada, Merkel e Obama assinaram um texto conjunto publicado na revista “Wirtschaftswoche”, que também alertava para a importância de moldar a globalização em função dos valores e das ideias comuns. “Nós somos mais fortes quando trabalhamos juntos”, escreveram os dois líderes no texto intitulado “O Futuro das Relações Transatlânticas”.

Na semana em que anunciou que irá candidatar-se pela quarta vez, pelo partido União Democrata-Cristã (CDU), à liderança da Alemanha, Angela Merkel fez questão de reforçar os apelos à estabilidade na Europa, que está ameaçada com a ascensão da extrema-direita.

Trump quer acordos bilaterais justos

Donald Trump classificou o Acordo de Associação Transpacífico (TPP) como um “potencial desastre” para os EUA, adiantando que pretende estabelecer “acordos bilaterais justos” e renegociar os termos do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com o Canadá e o México.

Ora esta ação dos EUA poderá abrir a porta à China para liderar o comércio na região Ásia-Pacífico. Embora o Japão e a Austrália tenham reafirmado o compromisso no acordo transpacífico, o próprio primeiro-ministro nipónico, Shinzo Abe, admitiu que “sem os EUA o acordo não tem sentido”.

Entretanto, Pequim já respondeu a Washington. Segundo o porta-voz dos Negócios Estrangeiros da China, Geng Shuang, o país está aberto a qualquer acordo que promova o comércio na região. garantindo que irá “desempenhar o seu papel” na promoção da integração económica na Ásia-Pacífico. Mas adverte que todas as partes envolvidas têm que ser ouvidas e que um único país não poderá ditar a agenda, nem o acordo de livre comércio ser “politizado”, numa referência indireta aos EUA.

“A China tem vontade, com as outras partes, de promover o processo de integração económica na Ásia-Pacífico para benefício da população na região. Mas esperamos que todasa s partes não considerem ou interpretem os acordos de uma perspetiva geopolítica”, disse Geng Shuan, citado pela Reuters.

O TPP consiste num acordo para as áreas do comércio e do investimento que cobre 40% do comércio global e que permitia aos EUA definirem as regras na região Ásia-Pacífico, travando a influência da China.

O acordo foi assinado no passado dia 3 de outubro pelos seus 12 países membros (EUA, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Peru, Chile, Japão, Vietname, Malásia, Singapura e Brunei).Na altura, Obama definiu o TPP como o “tratado comercial mais ambicioso” de sempre.