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Megaoperação europeia que envolve Portugal apanha 580 “mulas” a lavar dinheiro na internet

Caça ao “money muling” da unidade de cibercrime da Europol levou à detenção de 178 pessoas envolvidas em esquemas online de branqueamento de capitais. É a segunda grande operação na Europa em menos de um ano

No mundo do crime, além das ‘mulas’ de droga existem as ‘mulas’ de dinheiro. A expressão é ainda pouco usada porque o fenómeno é mais recente do que os típicos correios de estupefacientes. Uma ‘mula’ de dinheiro é um correio humano usado para despistar transferências de dinheiro internacionais com origem em atividades criminosas, que em 90% dos casos acontecem na internet: phishing, ataques de malware, fraudes em compras online, clonagem de cartões de crédito e outras práticas do género.

Uma mega-operação desencadeada na semana passada pelo Centro Europeu de Cibercrime (EC2) da Europol, em coordenação com as autoridades judiciais de 18 países europeus, o FBI e os serviços secretos norte-americanos, levou à detenção de 178 pessoas suspeitas de terem desviado 23 milhões de euros.

É a segunda vez que que a Europol monta uma operação do género, depois de em fevereiro deste ano ter detido 88 suspeitos com a ajuda das autoridades de oito países, incluindo Portugal. Na operação da semana passada a cooperação internacional alargou-se sobretudo a países da Europa de Leste, passando a incluir a Bulgária, a Hungria, a Ucrânia ou a Letónia. E aumentou também o número de entidades financeiras envolvidas, com mais de 100 bancos a fornecerem informações sobre transferências suspeitas. Em Portugal, a operação foi executada pela Polícia Judiciária. Contactada pelo Expresso, a PJ informou que ainda não tem neste momento os números finais sobre os suspeitos detidos no país e o montante de dinheiro que foi desviado com a ajuda de ‘mulas’ portuguesas.

Parece pequeno, mas é grande

“A Operação Europeia Money Mule é um exemplo de sucesso da cooperação entre entidades públicas e privadas”, reconhece Steven Wilson, diretor do Centro Europeu de Cibercrime da Europol, num comunicado divulgado esta terça-feira. “Os resultados da operação mostram que existe uma relação muito forte entre o cibercrime e as transferências ilegais que foram identificadas. O trabalho conjunto das forças policiais, dos tribunais e do Ministério Público permite desmantelar estas redes complexas de branqueamento de capitais.”

O uso de ‘mulas’ de dinheiro envolve sempre vários países — o país onde vive a vítima inicial do phishing ou dos ataques de malware, o país do correio de dinheiro e o país do autor do crime. O objetivo é dificultar ao máximo o trabalho da polícia na descoberta dos beneficiários finais da burla. “Para combater de forma eficaz as ‘mulas’ de dinheiro, precisamos que haja uma cooperação internacional aberta entre as autoridades e o setor privado”, explica Michèle Coninsx, presidente do Eurojust, a estrutura da União Europeia que faz a ponte entre os meios judiciais dos Estados membros. “É importante entender que o branqueamento de capitais pode parecer ser um pequeno crime, mas é orquestrado por grupos de crime organizado. É preciso que as pessoas saibam isso.

#dontbeaMule

A Europol tem uma campanha pública a decorrer em toda a Europa que tenta alertar as pessoas para os contornos e as consequências do “money muling”, sublinhando como o branqueamento de capitais é um crime e como “o desconhecimento não é desculpa” para alguém se deixar envolver num esquema desses. “A ‘money mule’ ajuda a fomentar o ciclo de atividades criminosas, tais como o tráfico de droga, o tráfico de seres humanos e as burlas online”, avisa um poster produzido em português pela Europol e pela Polícia Judiciária. “Os criminosos tentam enganar vítimas inocentes levando-as a participar no branqueamento de capitais em seu nome. Desconfie de anúncios de emprego mal escritos, com erros gramaticais e ortográficos.”

As redes criminosas especializadas neste tipo de crime têm uma tendência para procurar recrutar ‘mulas’ de dinheiro sobretudo entre a população desempregada, estudantes, pessoas com dificuldades económicas e também imigrantes recém-chegados ao país, havendo uma incidência maior em homens entre os 18 e os 34 anos. Muitas vezes os burlões recorrem a anúncios de emprego aparentemente legítimos colocados online ou através do envio de emails e até de mensagens de Whatsapp ou Viber.

SINAIS DE ALERTA

Estes são alguns dos sinais que a Europol descreve como suspeitos de poderem estar ligados a uma esquema de recrutamento de ‘mulas’:

1. Anúncios que tentam copiar sites de empresas legítimas e que têm endereços de internet muito parecidos com os dessas empresas;

2. E-mails mal escritos, com frases construídas de forma estranha e muitas vezes com erros ortográficos. São normalmente e-mails que usam como domínio os provedores de webmail — e não domínios de empresas —, como o Gmail, o Yahoo ou o Hotmail.

3. Na maioria das vezes, o enredo consiste num argumento simples: uma empresa estrangeira que procura um agente financeiro ou representante local para poder poupar nas taxas cobradas em transferências de dinheiro internacionais.

4. A oferta de trabalho não descreve as funções associadas nem pede qualificações nem experiência. Mas invariavelmente é pedido o uso da conta bancária de quem está a ser recrutado.

5. Todas as interações e as transferências de dinheiro são feitas exclusivamente online.