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Jogada de marketing ou moderação? Trump faz marcha-atrás em propostas extremas

Dezenas de apoiantes concentraram-se na entrada do edifício do "New York Times" para avistarem o Presidente eleito

Spencer Platt

Numa entrevista ao “New York Times” depois de inicialmente se ter recusado a falar com o jornal, o Presidente eleito dos EUA temperou a retórica divisiva de campanha sobre questões como a perseguição a Hillary Clinton ou o abandono do combate às alterações climáticas, mas prometeu continuar a desafiar uma série de convenções da política norte-americana

A primeira marcha-atrás aconteceu na terça-feira de manhã: no Twitter, a sua rede social de eleição, Donald Trump começou por acusar o "New York Times" de ter alterado os "termos e condições" de uma entrevista que tinha agendado com a direção executiva do diário e com alguns jornalistas e colunistas, garantindo que não iria encontrar-se com a equipa. Horas depois, voltou atrás e anunciou que, afinal, a entrevista ia avançar nesse dia. Avançou mesmo e os resultados foram, em parte, inesperados.

"Numa conversa que abrangeu vários temas", escreve o "New York Times", Trump "exibiu uma confusão de impulsos, muitos deles contraditórios. Foi magnânimo com Clinton, mas gabarolas sobre a sua vitória. Teve uma postura de mente aberta em relação a algumas das suas posições, mas não cedeu noutras". Em última instância, aponta o jornal, "a entrevista demonstrou a volatilidade" da retórica e opinões do Presidente eleito.

Durante a conversa de mais de uma hora on the record na redação do jornal, em Nova Iorque, Trump reverteu algumas das mais explosivas promessas de campanha, à cabeça a de abrir uma investigação judicial contra Hillary Clinton com vista a condená-la a prisão no caso do servidor privado de emails.

"Não quero causar danos aos Clinton, não quero mesmo", garantiu. O mesmo aconteceu com a promessa de recorrer a métodos de tortura comprovadamente ineficazes, como o waterboarding, em interrogatórios com suspeitos de terrorismo, dizendo sobre esse assunto que mudou de ideias depois de conversar com James N. Mattis, o general na reforma que liderou o Comando Central dos EUA entre 2010 e 2013 e que Trump está a considerar nomear chefe do Departamento de Defesa.

"Ele disse 'Nunca achei que [a tortura] fosse útil'", explicou à equipa do "NYT", avançando que Mattis diz ser mais valioso construir relações de confiança e recompensar os suspeitos que cooperam com as autoridades norte-americanas em vez de os sujeitar a tortura.

"Deem-me um maço de cigarros e algumas cervejas e consigo melhor", terá dito o general ao Presidente eleito. "Fiquei muito impressionado com essa resposta", garante Trump. "A tortura não vai fazer o tipo de diferença que muita gente julga que faz", acrescentou o futuro Presidente, depois de ter feito campanha com a promessa de recorrer a tortura na chamada guerra contra o terrorismo e de ter sido ameaçado pelo senador repulicano John McCain –também ele vítima de tortura enquanto prisioneiro de guerra, de quem Trump chegou a fazer pouco e que, já depois da vitória do empresário nas presidenciais, garantiu que tudo faria para impedir que a próxima administração recorra a esses métodos controversos. Sobre a escolha para liderar o Pentágono, Trump sublinhou que o general Mattis está a ser "considerado seriamente, muito seriamente" para o cargo.

A terceira (quase) inversão de marcha de Trump na mesma entrevista deu-se em relação às alterações climáticas. No rescaldo da sua eleição a 8 de novembro, o magnata de imobiliário tornado candidato republicano tinha garantido que ia retirar os EUA dos vários acordos ambientais e cortar o financiamento do país a programas transnacionais de combate ao aquecimento global – isto depois de, na corrida eleitoral, ter repetido várias vezes que o fenómeno cientificamente comprovado não passa de um "embuste de e para a China", criado com o objetivo de "roubar postos de trabalho" aos norte-americanos.

Na conversa com os repórteres esta terça-feira à tarde, que o "New York Times" publicaria pelas 22h de Lisboa, o Presidente eleito também moderou a retórica sobre esse assunto, recusando-se a repetir as promessas de há duas semanas e dizendo apenas que está a "analisar com muita atenção" o acordo do clima que a comunidade internacional firmou em dezembro em Paris, e que entrou em vigor no início de novembro, dias antes da vitória eleitoral de Trump. "Tenho uma mente aberta em relação ao acordo", garante o Presidente eleito, referindo que ter ar puro e "água cristalina" é muito importante.

Desafio às tradições

Apesar das aparentes cedências, que podem ser uma mera jogada de marketing ou uma prova real de que vai ser um Presidente mais moderado do que se antecipa, Trump "não mostrou remorsos quanto ao desrespeito de algumas convenções éticas e políticas que moldam há muito a presidência americana", aponta o jornal nova-iorquino.

Disse que não tem qualquer obrigação legal de criar barreiras entre o império de negócios que desenvolveu nas últimas quatro décadas e a sua Casa Branca – pareceu gabar-se de a marca Trump "estar certamente mais na moda do que antes", desde que foi eleito Presidente dos EUA. Ao mesmo tempo deu a entender que vai tentar manter-se nos negócios e empresas da Organização Trump durante o mandato de quatro anos. Esses negócios vão ficar sob gestão dos três filhos mais velhos, que apesar da legislação antinepotismo em vigor nos EUA integram também a sua equipa de transição.

Apesar de ter garantido que não pretende seguir estratégias extremistas e de ter condenado a conferência de nacionalistas brancos que decorreu no fim de semana em Washington – na qual elementos da direita radical supremacista fizeram a saudação nazi e proferiram comentários antissemitas – Trump defendeu a escolha de Stephen K. Bannon para estratego chefe da Casa Branca, dizendo dele que é um "tipo decente" e gozando com os republicanos que não o apoiaram durante a campanha por causa da sua campanha pouco ortodoxa. Bannon, que assumiu a liderança da campanha do republicano em agosto após a demissão de Paul Manafort, era até então CEO do site Breitbart News, que está ligado à chamada "direita alternativa" que defende que o "nacionalismo étnico branco" é uma resposta legítima aos problemas sociais que os EUA atravessam.

No gabinete de Arthur Sulzberger Jr., editor executivo do NYT, Trump demonstrou-se confiante nas suas capacidades para liderar os EUA, dizendo que ser Presidente "é um emprego esmagador" mas que não se sente esmagado por ele. Questionado sobre o seu antagonismo com os media, que criticou duante a campanha por serem alegadamente favoráveis à rival democrata e que, desde que foi eleito, tem continuado a criticar e a manter afastados de eventos oficiais, disse pouco. Sobre o plano para alterar as leis de difamação em vigor, no que analistas e políticos vêem como uma tentativa de moldar a legislação a seu favor para calar as críticas da imprensa, deixou uma garantia: "Penso que vão ficar felizes."

Aqui pode ler a transcrição completa da conversa