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Matar, matam muito. Mas são uns pelintras

É a conclusão de um artigo do “New York Times” sobre os gangues em El Salvador

Luís M. Faria

Jornalista

Os maiores gangues criminosos em El Salvador estão envolvidos em atividades criminosas de vários tipos e são responsáveis por milhares de assassínios todos os anos. No entanto, segundo uma investigação conjunta entre o jornal digital “El Faro” e o diário norte-americano “New York Times”, o nível de rendimentos obtido por esses gangues é surpreendentemente baixo. Ao ponto de eles poderem ser considerados pobres.

À partida, dir-se-ia que não. Numa única semana, segundo apuraram as autoridades, o gangue MS-13 teve receitas de 600 mil dólares (565 mil euros). Mas dividido pelos 40 mil membros da organização, isso dá quantias irrisórias – menos de 15 dólares (14,1 euros) por semana, ou 65 (61,2 euros) por mês, metade do salário de um trabalhador agrícola. Mesmo chefes do gangue parecem ter carros e casas que mais facilmente se associam a gente modesta do que a grandes magnatas do crime.

Na verdade, os gangues salvadorenhos estão longe de ter a dimensão dos seus congéneres mexicanos ou colombianos. Embora também se envolvam em tráfico de droga e outros negócios sujos, a larga maioria dos seus proventos resulta da simples extorsão. Estima-se que setenta por cento das empresas no país paguem somas regulares para não serem molestadas ou vítimas de violência.

As quantias podem ser modestas, mas a ameaça é bastante real. Um empresário de transportes que pagava um dólar (0,94 euros) por dia e resolveu deixar de o fazer foi assassinado ao fim de três semanas. Outro, dono de uma empresa bastante maior, já viu 26 dos seus motoristas serem assassinados, mas mantém-se intransigente em não pagar. Na sua área, é o único.

Atacar as estruturas

Os dois principais gangues em El Salvador são o MS-13 e o 18th Street. Ambos nasceram em zonas de Los Angeles durante os anos 80, como efeito indireto de guerras na América Central, que levaram ao êxodo de milhares de pessoas para os Estados Unidos. À medida que se foram tornando notórios, cada vez mais membros deles foram sendo deportados, o que levou ao seu crescimento em El Salvador.

As suas atividades, bem como as disputas entre eles, contribuem para que o país tenha uma das taxas de homicídio mais elevadas do mundo – 103 por cada cem mil pessoas. Em 2012, o anúncio de uma trégua intergangues suscitou esperança, mas também polémicas em relação ao papel do governo. A trégua findou, e ultimamente as autoridades decidiram não se limitar às prisões esporádicas de grupos de membros, mas começaram a adotar uma estratégia mais sistemática, atacando diretamente as estruturas financeiras dos gangues.

Isso aconteceu depois de Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em 2012, ter classificado como “Organização Criminal Trasnacional (TCO)” o MS-13. Um dos efeitos é a chamada “Operação Chequemate”, com o objetivo de “desestabilizar as finanças do gangue e assim provocar uma crise interna para que a estrutura fique sem recursos para conseguir mais armas, veículos e imóveis para cometer ilícitos”. O que as autoridades talvez não esperassem era encontrar tanta... pelintrice.