Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Conservador nos costumes, liberal na economia, macio no trato: o novo homem mais falado da Europa

GANHEI François Fillon, o mais que provável candidato do centro-direita nas presidenciais da próxima primavera

getty

Se não se afundar no próximo frente a frente televisivo com Alain Juppé, esta quinta-feira, François Fillon será o candidato da direita e do centro às eleições presidenciais francesas de abril e maio. Vencedor claro da primeira volta das primárias, este domingo, o antigo primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy representa uma França burguesa, familiar e rural. É um homem com ar calmo e suave, claramente de direita, conservador em termos sociais e com um programa liberal de apoio às empresas e de rigor nas finanças públicas

Com 44,2 por cento dos votos na primeira volta, François Fillon (62 anos), ainda saboreia a “surpresa” da sua vitória nas primárias deste domingo. Outrora desprezado por Nicolas Sarkozy, que quando era Presidente (2007/2012) chamava a Fillon, então seu primeiro-ministro, um simples “colaborador”, está à beira de ser entronizado como candidato da direita às presidenciais.

Só um terramoto o poderá impedir de alcançar esse objetivo na segunda volta, do próximo domingo. O seu adversário, Alain Juppé (71 anos), apenas conseguiu 28,4 por cento dos votos na primeira volta. Ambos foram, no passado, chefes de Governo – Juppé do gaulista Jacques Chirac; ele de Sarkozy.

Com um programa mais à direita do que Juppé, que tem o apoio dos centristas e foi ministro dos Negócios Estrangeiros no seu Governo, Fillon provocou estrondo porque acabou com a carreira política de Nicolas Sarkozy na votação da primeira volta das primárias, na qual este chegou apenas em terceiro lugar, com 20,7 por cento dos votos. Agora, Sarkozy apoia-o para a segunda volta – porque, disse o antigo Presidente, “François Fillon compreende melhor (do que Juppé) a situação da França”.

PERDI. Nicolas Sarkozy no discurso da derrota

PERDI. Nicolas Sarkozy no discurso da derrota

EPA

Depois dos resultados alcançados neste domingo, François Fillon deverá ganhar facilmente dentro de dias o duelo com Juppé porque a sua vitória na primeira volta é inequívoca e porque também Sarkozy e Bruno le Maire (2,4%), apelaram aos seus apoiantes para votarem nele.

Fim das 35 horas

Fillon defende o fim das 35 horas de trabalho semanal e o seu programa económico é marcado pelo rigor e o apoio claro às empresas através da baixa de impostos e de ajudas financeiras. “Fillon é o mais ‘pró-business’ dos candidatos da direita”, diz ao Expresso o franco-português Pascal de Lima, economista e conhecido comentador em França.

Simultaneamente propõe um plano radical de cortes nas despesas públicas (100 mil milhões de euros), designadamente na função pública e nas instituições regionais. Promete reduzir em 500 mil o número de funcionários públicos, de impor o regime das 39 horas neste sector e aumentar o IVA em dois pontos percentuais. Garante que o seu programa é o único que fará reduzir o desemprego no país que é, atualmente, de cerca 10 por cento.

François Fillon é um conservador, em termos sociais. Não vai alterar a lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo – “porque não é realista ir descasar as pessoas que já estão casadas”, diz – mas vai avançar com sérias limitações à adoção e à procriação assistida medicamente. Defende a família tradicional como sendo “a base da nossa solidariedade”.

No que respeita à emigração, tema caro a Marine le Pen, líder nacionalista da Frente Nacional atualmente em primeiro lugar nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de 23 de abril, defende o controlo da entrada de migrantes no país através do sistema de quotas. Propõe também a destituição da nacionalidade para os franceses jiadistas.

Amigo de Putin

Com uma relação pessoal forte – e “de amizade”, diz – com o Presidente russo Vladimir Putin, propõe uma aproximação à Rússia tanto sobre as crises na Ucrânia como na Síria e mesmo conversações com o Presidente deste último país, Bachar Al-Assad, que neste momento figura na lista negra das personalidades com as quais a França não deve relacionar-se.

Europeísta convicto, acha no entanto que a União Europeia não deve ser vista “como uma religião”e propõe mais soberania para as diferentes nações da UE.

Já foi qualificado de “homem sombra” que irrompeu inesperadamente no primeiro plano da política francesa nas eleições primárias da direita e do centro. As sondagens falharam as suas previsões, mas nos últimos quinze dias existiam sinais que apontavam para a sua ascensão, embora não com um nível de votos tão elevado. Fillon beneficiou claramente da forte mobilização – cerca de quatro milhões de militantes e simpatizantes da direita e do centro e outros cidadãos acorreram às urnas neste domingo.

A surpresa da vitória de François Fillon foi à medida do maior dos assombros destas primárias: a derrocada de Nicolas Sarkozy, que pessoalmente nunca colocou a hipótese de ser derrotado desta maneira tão humilhante. O antigo Presidente fez tudo para ganhar. Foi a todo o lado, a todos os nichos sociais, para tentar angariar votos. Foi, por exemplo, o único dos sete candidatos que se deslocou à rádio Alfa, a emissora portuguesa de Paris, para dizer, numa entrevista de 20 minutos, na passada segunda-feira: “Adoro Portugal (…) a integração dos portugueses na sociedade francesa é exemplar.” De nada lhe valeu este esforço para conquistar o apoio das centenas de milhares de portugueses com dupla nacionalidade e franceses de origem lusa. Sarkozy morreu politicamente este domingo, porque a sua própria família política o abandonou por o considerar um homem do passado, demasiado radical e nervoso.

As eleições presidenciais francesas, a duas voltas, decorrem na primavera do próximo ano, com candidatos de todos os campos políticos, da extrema-esquerda à extrema-direita. Em princípio será François Fillon que vai enfrentar Marine le Pen na segunda volta das presidenciais, na qual todas as sondagens a colocam com perto de 30 por cento das intenções de voto. De momento, é esta a hipótese mais provável para a corrida final ao Eliseu, porque nos socialistas reina a confusão, a divisão e a incerteza. O PS francês, do desacreditado Presidente atual, François Hollande, está em crise e em grandes dificuldades, a pouco tempo das suas primárias, que deverão realizar-se em janeiro e se anunciam muito complicadas.

  • Foi em França que a extrema-direita entrou primeiro no grupo dos grandes. Foi em França que, através da filha de Le Pen, procurou os mínimos de “respeitabilidade”. E é em França que toda a esquerda está a ser dizimada. É provável que todos os eleitores de esquerda, dos mais centristas aos comunistas, sejam obrigados a escolher entre um admirador de Thatcher e uma candidata de extrema-direita. Foram impressionantes os ataques a direitos sociais e até democráticos levados a cabo pelos socialistas franceses nos últimos anos. A direita teria dificuldade em chegar tão longe com tão pouca oposição. E os que estão à esquerda do PSF não conseguiram liderar a contestação a este desvario. O preço do travestismo político dos socialistas não foi apenas a morte dos socialistas. Foi o desaparecimento da esquerda do debate político. O resultado está à vista com confirmação de que Trump não foi um acidente

  • Mais uma vitória inesperada, mais umas sondagens totalmente enganadoras e mais algumas lições que se podem tirar deste fim de semana em que Fillon, inesperadamente venceu as primárias do centro-direita francês, ditando o fim político de Sarkozy, e em que Angela Merkel decidiu apresentar-se a um quarto mandato como chefe do Governo alemão

  • Nem os portugueses salvaram Nicolas Sarkozy

    Com a sua derrota clara na primeira volta das primárias da direita e do centro, o antigo Presidente chegou ao fim da sua carreira política. Nicolas Sarkozy tentou tudo para ganhar e fez campanha em todo o lado. Por exemplo, foi o único dos sete candidatos que foi à rádio portuguesa de Paris, para, numa entrevista, tentar conquistar o voto de centenas de milhares de portugueses com a dupla nacionalidade ou franceses de origem lusa. Ficou em 3.º lugar, largamente atrás de François Fillon e Alain Juppé