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Obama ameaça quebrar tradição se Trump puser em causa “valores fundamentais”

Kay Nietfeld/EPA

Presidente norte-americano não exclui possibilidade de criticar publicamente o sucessor depois de este tomar posse e diz que responsabilidade intensa da presidência pode forçar Donald Trump a moderar algumas das suas posições

Barack Obama deixa em aberto a possibilidade de criticar publicamente o próximo Presidente dos Estados Unidos se sentir que Donald Trump está em pôr em causa os "valores fundamentais" americanos. No encerramento da cimeira da APEC em Lima, no Peru, o líder norte-americano disse este domingo que, à partida, pretende dar apoio ao sucessor e partilhar com ele as suas visões, mas deixou claro que, enquanto cidadão, não deixará de criticar Trump sobre determinados assuntos, uma quebra com a tradição que tem ditado que anteriores líderes se abstenham de comentar publicamente o trabalho dos que os substituem.

"Quero ser respeitoso e dar ao Presidente eleito uma oportunidade de delinear a sua plataforma e argumentos sem que ninguém se intrometa. Mas se ele puser em causa questões fundamentais sobre os nossos valores e os nossos ideiais, e eu julgar que é necessário ou que vai ajudar eu defender esses ideais, então examinarei" a possibilidade de criticar e falar contra o novo líder, sublinhou Obama, descrevendo-se como um "cidadão americano que se preocupa profundamente com o país".

Apesar da promessa, o ainda Presidente dos EUA reiterou que vai tentar manter a cortesia profissional que o seu antecessor, George W. Bush, lhe garantiu desde que Obama foi eleito para o primeiro mandato em 2007. "É um trabalho difícil", disse Bush em 2013 numa entrevista com a CNN, já durante o segundo mandato do atual líder. "Não creio que traga nada de bom [criticar o meu sucessor]. Ele já tem muito na agenda. Um ex-Presidente não precisa de dificultar ainda mais [o trabalho]. Outros presidentes tomaram decisões diferentes. Esta é a minha."

A decisão de Obama em não se abster de comentar decisões de Trump se houver direitos e garantias em risco surge numa altura de crescente criticismo face às escolhas do Presidente eleito para a sua futura administração – entre elas Steven Bannon, um branco supremacista acusado de antissemitismo, xenofobia e misoginia, para estratego-chefe da Casa Branca, o general Michael Flynn, que diz que o islão é um "cancro" que está a espalhar-se pelos EUA, para conselheiro de segurança nacional, e Jeff Sessions, um homem que em 1986 foi rejeitado para um cargo de juiz federal por causa de declarações racistas, para procurador-geral.

No mesmo discurso na capital peruana, Obama disse acreditar que a intensa responsabilidade da presidência dos EUA pode vir a forçar Trump a moderar algumas das suas visões mais extremistas e das posições anti-imigração e outras que assumiu durante a corrida eleitoral contra a democrata Hillary Clinton.