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“O Futuro das Relações Transatlânticas” ou um “Manifesto anti-Trump”?

Sean Gallup/GETTY

Num texto conjunto, Obama e Merkel defendem que é vital moldar a globalização em função dos valores comuns, numa mensagem com uma visão da política internacional que é simplesmente oposta à de Donald Trump, adepto do protecionismo. “O texto devia chamar-se Manifesto Anti-Trump”, sublinha Carlos Gaspar, investigador do IPRI-UNL

Depois de oito anos de um ‘caso de amor político’, baseado numa visão comum e em interesses mútuos – que só foi abanado em 2013 pela divulgação das escutas dos EUA à chanceler alemã –, Barack Obama fez questão de despedir-se de Angela Merkel em Berlim, durante a última visita oficial à Europa, na semana passada. Num texto conjunto publicado na revista alemã “Wirtschaftwoche”, os dois líderes defenderam a importância da cooperação entre os EUA e a Europa, nomeadamente em termos comerciais e no combate às alterações climáticas. Mensagens com um destinatário óbvio, o próximo Presidente dos EUA, que partilha uma visão oposta sobre a política internacional.

Sob o título “O Futuro das Relações Transatlânticas”, o ainda Presidente norte-americano e a chanceler alemã assinalaram a meias uma declaração escrita sobre o fim da relação especial entre os Estados Unidos e a Alemanha. “Ponto por ponto, os dois aliados defendem uma visão da política internacional que é, em tudo, contrária à do próximo Presidente dos Estados Unidos: o texto devia chamar-se "Manifesto Anti-Trump", mas as boas maneiras impõem um título mais neutro”, afirma ao Expresso Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-UNL).

“Nós somos mais fortes quando trabalhamos juntos”, escreveram os dois líderes, sustentando que é vital moldar a globalização em função dos valores e das ideias comuns.

“O texto comum confirma os temas eletivos dessa relação especial entre os EUA e a Alemanha: defende os valores comuns em que assenta a aliança permanente entre as democracias norte-americana e alemã, o empenho comum na NATO, que assegura a defesa europeia e o estatuto dos Estados Unidos como uma potência europeia, a parceria entre os Estados Unidos e a União Europeia, a defesa dos acordos de Paris sobre as políticas climáticas e a globalização”, analisa Carlos Gaspar.

De acordo com o investigador, Obama e Merkel enquanto líderes das maiores economias do mundo e da Europa lembraram ainda que os EUA e a UE formam a maior zona económica mundial, reafirmando a importância do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), que Donald Trump poderá travar.

“Com a convicção comum de que o comércio e os investimentos melhoram os níveis de vida, estamos comprometidos com o importante projeto de criar uma aliança transatlântica de comércio e investimentos. Devemos aos nossos negócios e aos nossos cidadãos – inclusive a toda a comunidade global – ampliar e aprofundar a nossa cooperação”, lê-se no artigo.

No fundo, salienta Carlos Gaspar, os dois líderes defendem que o acordo comercial entre os EUA e a Europa é fundamental para liderar as relações económicas à escala global e disciplinar as potências emergentes. “Obama e Merkel afirmam solenemente que "nunca regressaremos a uma economia pré-globalização", mas a eleição norte-americana confirma o adiamento sine die do TTIP [sigla inglesa para o Tratado Transatlântico de Investimento] e Donald Trump ameaça substituir a globalização pelo protecionismo e pelo regresso aos blocos regionais.O mundo está perigoso”, alerta o investigador do IPRI-UNL.

Acordo de Paris ameaçado

Aludindo indiretamente às pretensões de Trump relativamente à questão ambiental, Obama e Merkel afirmam que o acordo de Paris possibilita uma “estrutura para a proteção conjunta do nosso planeta.”

De acordo com Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, o texto assinado a duas mãos não traz nada de novo em relação a este tema, reafirmando apenas o compromisso relativamente ao Acordo de Paris. “No caso de Merkel, o compromisso tem o apoio da esmagadora maioria dos eleitores da Alemanha. No caso de Obama, o compromisso não tem esse tipo de apoio dos eleitores dos EUA”.

Embora o combate às alterações climáticas fique “temporariamente prejudicado” com a eleição de Trump, Filipe Duarte Santos entende que “a posição dos que defendem a continuação ou mesmo o aumento da dependência dos combustíveis fósseis à escala global, como fonte primária de energia, está definitivamente enfraquecida com a evidência cada vez mais clara e eloquente de alterações climáticas antropogénicas e dos efeitos gravosos que implicam para toda a Humanidade, especialmente no futuro”.

Por outro lado, o especialista considera que há também um número crescente de empresas a apoiar o cumprimento do Acordo de Paris e que deverão pressionar os EUA para respeitá-lo. Ainda no passado dia 16, na 22ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações (COP-22), mais de 60 empresas multinacionais publicaram um manifesto solicitando a Trump que cumpra o Acordo de Paris.

Filipe Duarte Santos reconhece, contudo, que a política ambiental do Presidente eleito dos Estados Unidos é uma incógnita, antecipando três cenários relativamente ao acordo assinado em dezembro de 2015 na capital francesa: os EUA podem não cumprir simplesmente o compromisso que assumiram no âmbito do Acordo de Paris, de baixar as suas emissões de gases com efeito de estufa de 26% a 28% até 2025 relativamente a 2005; podem sair do Acordo de Paris num prazo de quatro anos; ou podem denunciar a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e assim sair dela no prazo de um ano.

“Tudo ações que iriam isolar os EUA na comunidade internacional. As consequências destas ações unilaterais são difíceis de prever. O mais provável é a China, que reafirmou, depois da eleição de Trump, a intenção de cumprir o Acordo de Paris, assumir a função de líder mundial no combate às alterações climáticas”, refere o especialista, acrescentando que é também provável que seja ainda mais difícil não ultrapassar 2º C de aumento da temperatura média global, um dos pontos mais importantes do acordo.

“O sistema climático do planeta Terra é completamente indiferente às eleições nos EUA, ao ego do senhor Trump e ao sofrimento de muitas centenas de milhões de pessoas vulneráveis às alterações climáticas, especialmente nos países menos desenvolvidos, cujas condições de vida serão afetadas de forma mais gravosa se o Acordo de Paris não for cumprido”, adverte Filipe Duarte Santos. “A ciência aconselha ficar abaixo dos 2º C, mas é apenas um conselho. As decisões e as ações são da nossa inteira responsabilidade”, conclui.