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Internacional

Já não há hospitais a funcionar em Alepo. “Eles querem acabar com toda a vida”

Os edifícios ao redor do hospital pediátrico al-Bayan ficaram destruídos em ataques em junho

KARAM AL-MASRI

Bombardeamentos das forças sírias e russas deixam 250 mil pessoas sem acesso a cuidados de saúde nem cirurgias, após destruição parcial ou total dos últimos centros médicos que ainda funcionavam na cidade sitiada. No domingo, enfermeiros de um hospital pediátrico tiveram de retirar bebés prematuros das incubadoras para tentarem protegê-los dos ataques.

Enfermeiros do hospital pediátrico al-Bayan, que tinha ficado parcialmente destruído há quatro dias em bombardeamentos do regime sírio e da Rússia e que, no domingo, voltou a ser atingido, tiveram de retirar bebés prematuros das incubadoras após novos ataques aéreos. Tentavam, assim, protegê-los da ofensiva renovada de Bashar al-Assad com o apoio russo contra o leste de Alepo, que continua sob controlo dos rebeldes sírios.

Vídeos e fotografias fornecidos por um jornalista sírio ao jornal The Independent mostram os recém-nascidos a serem retirados das incubadoras num corredor cheio de fumo, com as enfermeiras a chorar enquanto desligam os tubos que mantêm os bebés protegidos e os envolvem em mantas. Numa das fotografias vêem-se os bebés alinhados no chão do que parece ser uma casa privada com os tubos à sua volta e as enfermeiras a tentarem mantê-los vivos.

Entre terça-feira e domingo, a campanha de bombardeamentos destruiu esse e outros quatro hospitais do leste de Alepo, levando as autoridades médicas sírias e a Organização Mundial de Saúde a dizer que já não resta um único hospital em funcionamento naquela zona. As forças do Governo sírio mantêm sitiados, ali, cerca de 250 mil civis, sem acesso a comida nem a medicamentos e agora sem possibilidades de cirurgias e apoio médico urgente.

Nos últimos seis dias, pelo menos 92 pessoas morreram na ofensiva sírio-russa, de acordo com dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH). Pelo menos 27, incluindo crianças, perderam a vida no domingo durante uma intensa campanha de bombardeamentos aéreos com bombas-barril e fogo de artilharia.

Todas as escolas fecham

Em comunicado, a direção de escolas de Alepo anunciou que todos os estabelecimentos de ensino vão ser encerrados para garantir “a segurança dos alunos e dos professores após os ataques aéreos bárbaros” no leste da cidade. “As pessoas foram dormir ao som de bombardeamentos e acordaram ao som de bombardeamentos”, disse à agência AFP o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman. “Não resta quase nenhum bairro que tenha sido poupado. As pessoas já não saem das suas casas.”

Yasser al-Rahil, jornalista e membro do gabinete de media das Forças Revolucionárias da Síria, que forneceu as imagens ao jornal britânico, diz que os mais recentes bombardeamentos de hospitais resultaram num elevado número de feridos graves; alguns sucumbiram aos ferimentos horas depois dos ataques e o balanço de mortos deverá aumentar agora que não há instalações disponíveis para cirurgias de emergência.

“Contámos mais de dois mil ataques de artilharia e quase 250 ataques aéreos desde a meia-noite de sexta-feira, que deixaram 28 mortos e 150 feridos. O número de mortos pode aumentar devido ao facto de muitos dos feridos estarem em estado grave e sem tratamentos adequados. Todos os hospitais das áreas libertadas estão fora de serviço como resultado dos bombardeamentos sistemáticos dos últimos dois dias, os feridos estão a receber tratamento em qualquer sítio disponível que esteja minimamente longe” das zonas de ataque, disse Al-Rahil.

“É o inferno!”

Em declarações ao semanário The Observer, Farida, médico do sueste de Alepo, disse que o que está a acontecer “não é natural” e que apesar de a população estar a ser alvo de bombardeamentos há vários meses, “nunca foi a este nível”. “É o inferno! Queríamos criar uma ala de maternidade algures porque a nossa ficou danificada nos ataques mas não podemos abandonar as nossas casas. Eles querem acabar com toda a vida em Alepo. Como não conseguem fazê-lo no terreno estão a atacar por via aérea. Bombardearam todas as escolas e hospitais, pelo que não há vida [nas ruas] e as pessoas estão a desistir. Se isto continuar assim, as pessoas não poder ficar à espera. Os medicamentos e as vacinas vão acabar. A este ritmo não nos vejo a aguentar mais do que duas semanas.”

Em comunicado, os Médicos Sem Fronteiras disseram que os hospitais do leste de Alepo — que está dividida em dois desde 2012 e cuja parte oriental, sob controlo dos rebeldes sírios, está cercada há mais de três meses pelo regime e sob ataques aéreos da Rússia aliada de Assad — foram alvo de mais de 30 ataques desde o início de julho, sublinhando que “não existem possibilidades de enviar mais material médico” para substituir aquele que ficou destruído. Em junho, a organização não-governamental tinha denunciado que os hospitais e escolas, protegidos pelas convenções internacionais, estão a tornar-se “alvos normais” em teatros de guerra como a Síria, apesar de ataques a essas instalações constituírem crimes de guerra e contra a Humanidade.