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Duterte abre as Filipinas a todos os refugiados, “até estarmos cheios” 

Pool/ Getty images

A promessa, que não inclui qualquer referência a meios de implementação, é mais uma bofetada direta ao Ocidente

Luís M. Faria

Jornalista

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, disse que o seu país está aberto a receber todos os refugiados que para lá quiserem ir. “Até estarmos completamente cheios”, explicou. As afirmações, feitas num programa do canal televisivo Al Jazeera, são mais uma resposta aos países ocidentais, que têm criticado Duterte pela vaga de execuções extrajudiciais – atingindo alegados traficantes de droga – que foi lançada desde a sua tomada de posse em maio.

O presidente filipino acusa o Ocidente de hipocrisia, por falar em direitos humanos ao mesmo tempo que se nega a lidar com as consequências da maior crise humanitária do nosso tempo – ainda por cima, uma crise gerada pelas suas iniciativas mal concebidas no Iraque e noutros países do Médio Oriente. Os refugiados, diz Duterte, “podem sempre vir para aqui, e serão bem vindos”. Pelo menos até o país estar a transbordar, acrescenta. "Tudo bem. Sobreviveremos. Mandem-nos para nós. Aceitá-los-emos. Aceitá-los-emos. Somos seres humanos”.

As Filipinas, um país pobre com cem milhões e uma longa tradição católica, tem há muito uma atitude generosa em relação aos refugiados. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, aceitou refugiados judeus que a Europa e os EUA tinham recusado. Porém, as afirmações de Duterte carregam um significado político explícito que vai para além disso.

Tropas americanas fora do país em dois anos

A irritação do presidente em relação aos EUA e à Europa, somada ao seu hábito aparente de dizer o que lhe vem à cabeça (uma característica que ultimamente tem levado a comparações com Donald Trump) já antes produziram embaraços diplomáticos. Há meses, Barack Obama cancelou um encontro com Duterte por este lhe ter chamado filho da puta, um de vários insultos que usa habitualmente.

Na altura Duterte pediu desculpa pelas palavras, mas a sua posição manteve-se. Não apenas ele rejeita as críticas americanas em relação à sua política antidroga, como quer cortar a dependência do seu pais em relação aos EUA. Além dos quase duzentos milhões de dólares em ajuda, há uma relação próxima entre as forças armadas dos dois países. Mas Duterte diz que os jogos de guerra deste ano serão os últimos, e quer que todas as tropas americanas saiam das Filipinas num prazo de dois anos.

Se isso acontecer, será uma inversão substancial do esquema de alianças atualmente existente. Nas últimas décadas, Washington tem apoiado as Filipinas em diversas disputas com a China, nomeadamente relacionadas com o controle de vastas extensões de mar entre os dois países. A China define o seu domínio em termos extremamente amplos, que os outros paises rejeitam. Recentemente, um tribunal internacional deu razão às Filipinas no processo que esta havia interposto, mas a China diz que não aceita a decisão.

O Ocidente? Foi bom enquanto durou

Agora Duterte parece ter decidido aceitar as pretensões da China; ou pelo menos, não as contestar activamente. Numa visita recente a Pequim, foi recebido com honras especiais e convidou os chineses a investirem no seu país, declarando expressamente que se punha nas mãos deles.

Este fim de semana, foi a vez da Rússia. Numa visita a Moscovo, Duterte elogiou Vladimir Putin e queixou-se dos países ocidentais. “Identifiquei-me com o mundo ocidental. Foi bom enquanto durou. Ultimamente, vejo uma data dessas nações a serem prepotentes com as nações pequenas. E não só isso, mas são tão hipócritas”.

Na entrevista à Al Jazeera, já tinha desenvolvido alguns desses pontos. “Eles têm feito guerra em tantos paises, no Vietname, no Afeganistão, no Iraque… Insistem, se somos aliados deles, que os sigamos (…) Parecem começar uma guerra mas depois terem medo de ir à guerra. É isso que está errado com os Estados Unidos e os outros”.

“A polícia não mata inocentes nos EUA?”

Sobre as críticas em matéria de direitos humanos, admite que o enfurecem. Nos Estados Unidos a polícia não anda a matar gente inocente?, argumenta. Pelo menos nas Filipinas quem morre são os traficantes. Alguns milhares até ao momento, segundo as organizações humanitárias; uns mortos pela polícia, outros por grupos de vigilantes, tal como acontecia em Davao, onde Duterte era ‘mayor’. Ele não pede desculpa. "Se acham que sou um mau menino, estou-me realmente a cagar. O que são eles para mim? Nada”.

Quanto à possibilidade de um dia alguém matar um membro da sua própria família em retaliação, ele garante que tomaria a lei nas suas próprias mãos. “Eu mato-vos”. E quando lhe perguntam se isso não encoraja o vigilantismo, diz: “Sim, estou a encorajar. Qual é o problema agora?”.