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A história de uma pergunta com 30 anos que voltou às notícias

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Mas quem matou Olof Palme? A pergunta não é nova – desde 1986, o ano em que o carismático primeiro-ministro sueco foi alvejado nas ruas de Estocolmo, que o mundo se pergunta sobre a identidade do assassino de Palme (e sobre se esta morte terá sido, afinal, resultado de uma conspiração com raízes internacionais). 30 anos depois, um novo procurador traz de volta as esperanças de resolução a um mistério sangrento que parecia encerrado

O crime foi, aparentemente, executado de forma simples – a vítima saía do cinema com a esposa, numa rua central de Estocolmo, quando foi mortalmente alvejada por um indivíduo que caminhava sozinho e que conseguiu fugir por uma rua lateral. No entanto, passados 30 anos o mistério continua por resolver: desde o dia 28 de fevereiro de 1986, data do crime de que lhe falamos, foram interrogadas não menos do que dez mil pessoas, ouviram-se as confissões de 134 delas e até se condenou um suspeito a prisão perpétua - e no entanto continuamos sem saber quem disparou a arma naquele dia fatídico.

Talvez noutras circunstâncias um crime como este apresentasse menos dificuldades aos investigadores, mas naquele dia a vítima que saía do cinema era Olof Palme, o então primeiro-ministro sueco, que na altura enfrentava aquilo que o “El País” classificava como uma “campanha implacável” de difamação da parte de grupos de extrema-direita e neonazis na Suécia. Agora, exatamente 30 anos depois da misteriosa morte de Palme, o caso acaba de ser atribuído a um novo procurador, especializado em crime organizado – e as esperanças de que novos detalhes ajudem a resolver um caso que continua a agitar a sociedade sueca voltam a surgir.

Recuemos então à Suécia de 1986, liderada por um primeiro-ministro que é desde então visto como um símbolo da social-democracia, da justiça social e da defesa da paz e do desarmamento. Na altura, Palme ocupava-se de estruturar o Estado sueco como hoje o conhecemos, consolidando uma democracia a nível político e económico e projetando para fora das suas fronteiras a imagem de defensor da paz e dos países mais fracos e empobrecidos – afinal, não era todos os dias que se via um primeiro-ministro estrangeiro a denunciar o apartheid, na África do Sul; a chamar a atenção para as invasões soviéticas; a recolher dinheiro para a oposição a Franco, em Espanha, nas ruas centrais de Estocolmo; ou até de braço dado com o embaixador do Vietname, defendendo o fim do conflito com os Estados Unidos.

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A campanha implacável dos neonazis

Causas como estas, assim como a defesa de uma relação de maior igualdade entre países ricos e pobres e de uma aproximação à União Soviética no contexto da Guerra Fria, causaram uma agitação na sociedade sueca – para muitos, o político social-democrata tornava-se um ídolo, um símbolo da igualdade e da justiça, como ainda hoje continua a ser recordado; mas para outros - sobretudo, para líderes da extrema-direita e grupos neonazis -, Palme representava uma ameaça ou um “perigo para a segurança pública”, havendo manifestações semanais destes grupos contra o primeiro-ministro e, sobretudo, contra a sua aproximação aos soviéticos (na altura, os elementos neonazis que se manifestavam, distribuindo caricaturas e textos em que atacavam o primeiro-ministro, acusavam Palme de “querer entregar a Suécia aos comunistas” da então ainda existente União Soviética).

O clima era de perigo para Palme, o político das utopias que defendia que “se deixarmos de ser sonhadores, a nossa ética e a nossa ideologia desaparecerão”, mas naquela noite de fevereiro Palmer e a esposa, Lisbet, decidiram abdicar da escolta a que teriam direito e dirigiram-se sozinhos a um cinema do centro de Estocolmo. Foi então que um indivíduo que continua por identificar alvejou com sucesso Palme, tentando ainda atingir Lisbet, que acabaria por escapar ilesa do ataque – o crime ganharia proporções consideráveis dentro de uma Suécia em choque que, relembra o “El País”, não era confrontada com o assassinato de uma figura política desde 1796, ano da morte do rei Gustavo III, que foi vítima de uma conspiração ao nível da aristocracia.

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Uma conspiração com implicações internacionais?

Foi precisamente a ideia de conspiração que acabou por surgir por entre as notícias, pela Suécia e pelo mundo, que davam conta da morte do carismático Palme, sobretudo devido a sucessivos erros, omissões e contradições na investigação conduzida pelas autoridades suecas. No decorrer do processo, recorda a BBC, vários altos cargos suecos acabaram por se demitir das funções que exerciam – uma sucessão de demissões que afetou inclusivamente o chefe das forças policiais suecas e dos serviços secretos do país, depois de a imprensa ter criticado a demora em isolar a área na noite do crime e a forma como os procedimentos se desenrolaram nos meses e anos seguintes.

Por entre dez mil interrogações e 134 confissões do homicídio de Palme, a verdade é que até hoje há apenas um homem que chegou a cumprir algum tempo atrás das grades pelo crime que chocou a Suécia – mas mesmo Chrisser Petterson, um indivíduo que possuía já um histórico de delinquência, uso de drogas e roubos, acabaria por ser absolvido depois de ser identificado pela esposa de Palmer por entre um conjunto de suspeitos (um processo que os psicólogos envolvidos na investigação considerariam inválido).

Tendo acabado por confessar o crime, Chrisser, que estava na área em que Palme morreu na hora em que tudo aconteceu, acabou por retirar a confissão e por ser absolvido poucos anos depois do crime, em 1989, num tribunal Superior de Estocolmo por falta de provas. Nos anos seguintes, as conjeturas passaram a dimensões maiores: seria a morte de Palme parte de uma conspiração com raízes internacionais? Quem estaria interessado em ver o carismático político morto?

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As teorias são diversas: desde o envolvimento dos serviços secretos da África do Sul dos tempos do Apartheid até ao de um ramo dissidente do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (este último confirmado por um dos líderes e fundadores da organização, Abdalá Ocalan, num julgamento de 1999 realizado no Tribunal de Segurança do Estado de Ancara), tudo se disse e se contrariou sobre as responsabilidades da morte de Palme. Mas as conclusões são fáceis de retirar: Chrisser, o único suspeito que chegou a ser condenado neste caso, faleceu em 2004 vítima de uma embolia pulmonar (fontes citadas pelo “El País” dizem que terá chegado a contactar a família de Palme por ter algo “muito importante” a comunicar sobre o caso, algo que nunca chegou a esclarecer); nenhuma conspiração foi até hoje confirmada ou provada; e a única nova pista para o caso surgiu em 2006, ano em que uma arma foi encontrada no centro de um lago em Estocolmo e relacionada com a morte do antigo primeiro-ministro.

Uma esperança renovada, 30 anos depois

Todas estas razões levam a algum ceticismo da parte do Governo sueco, que tem dificuldades em acreditar que desta vez o caso seja finalmente resolvido. No entanto, também há motivos para ter esperança na resolução: é que o novo procurador a quem o caso acaba de ser atribuído, que é também o procurador-geral sueco, é especialista em crime organizado e entre outros casos resolveu o do homicídio de Anna Lindh, a ministra do Exterior assassinada em 2003 por um homem com problemas psiquiátricos, ou o homicídio de 11 imigrantes em terreno sueco durante a década de 1990, atribuídos a John Ausonius.

O novo procurador, que curiosamente tem um nome muito semelhante ao do único suspeito neste caso (Krister Petersson), vai encarregar-se desta investigação já a partir do próximo mês de fevereiro, numa altura em que já conta mais de vinte anos de carreira. “Sinto-me honrado e aceito esta missão com muita energia”, garante Petersson, agora que tem as atenções da Suécia e do mundo viradas para si por ser o mais recente responsável pela investigação de um caso misterioso e sangrento que, em 30 anos, ainda ninguém foi capaz de resolver.