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O britânico que combateu com o soldado Nunes: “Não fui para a Síria matar. Fui para proteger”

BRITÂNICO. Largou o trabalho no sector da banca para se voluntariar e combater o Daesh na Síria

antónio bernardo

Trocou o emprego no sector da banca pelo combate a pouco mais de dez metros do autoproclamado Estado Islâmico, ao lado do português Mário Nunes. Defende que a solução para a Síria passa pelo apoio aos movimentos democráticos que existem no país. Sentiu muito medo, mas isso não o travou. Em breve, vai regressar à cidade de Rojava. Por agora, está numa rápida passagem por Lisboa para o lançamento do livro “Heróis contra o Terror”, que conta a história de ocidentais que largaram tudo para lutar numa guerra que aparentemente não é a deles

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

entrevista

Jornalista

Macer Gifford é britânico e voluntariou-se para combater o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) ao lado das Unidades de Proteção Popular Curdas (YPG). Foi na Síria que conheceu Mário Nunes, o primeiro português a lutar contra o grupo radical islâmico. Ficaram amigos, lutaram lado a lado e passaram horas sem fim à conversa. Macer estava lá no dia em que Mário morreu.

Gifford está em Portugal para o lançamento do livro “Heróis contra o Terror”, de Nuno Tiago Pinto. A passagem por Lisboa é curta. Há muito para preparar, pois no começo do próximo ano Macer vai regressar, mas desta vez não vai para o campo de batalha. Depois de ter sido um dos dois estrangeiros a comandar uma unidade própria dentro das YPG, está a criar uma organização humanitária para apoiar as escolas e os hospitais da cidade de Rojava.

Como era a sua vida e o que fazia no Reino Unido quando decidiu ir para a Síria combater o autoproclamado Estado Islâmico?
Era muito diferente daquilo que atualmente faço. Em 2014, apercebi-me pela primeira vez o que estava a acontecer na Síria pelas horríveis imagens que chegavam de Kobane e dos yazidi presos nas montanhas de Sinjar. Nessa altura, trabalhava como técnico de câmbios em Londres, embora já tivesse feito algum trabalho de cariz solidário anteriormente. Trabalhei, por exemplo, no Zimbabué junto do Movimento pela Mudança Democrática (Movement for Democratic Change – MDC), e no Reino Unido com o Partido Conservador. Dei por mim empregado no sector da banca e fui [para a Síria] porque senti que podia realmente fazer a diferença.

Isso aconteceu em 2014…
Exato, em dezembro de 2014 parti para Rojava, no norte da Síria.

Porque tomou essa decisão?
Sinceramente, acho que a primeira razão foi a falta de solidariedade internacional que se vê atualmente. Milhares de jovens portugueses, britânicos e norte-americano foram lutar contra o fascismo em Espanha nos anos 30. O momento que agora atravessamos é decisivo no Médio Oriente, em que assistimos à ascensão brutal de um grupo terrorista que quer voltar atrás no tempo e destruir a civilização. Portanto, fui porque queria mostrar a minha solidariedade, aprender e fazer a diferença. Basicamente, foi um desejo de ajudar.

Como encontrou a informação para a viagem?
Durante uns meses pesquisei e tentei perceber a fundo exatamente o que se estava a passar: quem eram os grupos, o que defendiam e quais eram os problemas que as pessoas enfrentavam. Aí, descobri que o movimento curdo na Síria acredita em muitos dos ideais ocidentais, como por exemplo, a democracia, igualdade de género e na sociedade. Queria ir e apoiá-los. A YPG [Unidades de Proteção Populares Curdas] estava a apelar a estrangeiros que se juntassem e apoiassem o movimento. Ouvi falar nisso e respondi ao apelo.

Quando chegou à Síria, qual foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça?
Fomos imediatamente levados para a academia de treino, onde nos explicaram pelo que estávamos a lutar e quais eram os objetivos. Lembro-me de nas primeiras semanas estar num estado constante de admiração, enquanto ao mesmo tempo tentava compreender como podia ajudar e aprender mais. Em nenhum momento senti medo ali no campo ou me arrependi da minha decisão. Aliás, acho que hoje, dois anos depois, sinto-me ainda mais determinado do que no dia em que cheguei à Síria.

Após a chegada à Síria, quanto tempo demorou até começar a combater? Teve algum tipo de formação?
Demorou cerca de mês e meio a dois meses até ver algum tipo de luta. Portanto, nos primeiros tempos foi sobretudo aprender o máximo possível, educarmo-nos e perceber o que se passava. Só depois fui para a linha da frente nas montanhas de Sinjar, mas nessa altura ainda não estava a acontecer nada. Entretanto, o conflito mudou e tivemos que começar a afastar o Estado Islâmico das vilas. Em fevereiro, começou a primeira operação e aconteceu o primeiro confronto. Aí, infelizmente, vi estrangeiros a morrer e a ficarem gravemente feridos. Nesse momento, a guerra começou.

LIVRO. Macer Gifford com o autor de “Heróis contra o terror”, o jornalista Nuno Tiago Pinto

LIVRO. Macer Gifford com o autor de “Heróis contra o terror”, o jornalista Nuno Tiago Pinto

antónio bernardo

No ocidente, vemos as imagens e lemos as notícias diariamente, mas não conhecemos exatamente a realidade. Como é mesmo estar na Síria a lutar?
É brutal. Atualmente, no Iraque e na Síria, devido à brutalidade do Estado Islâmico, cada vez que as YPG avançam são tratadas como libertadores. É um cenário muito diferente do que um soldado moderno enfrenta. Suponho que seja algo muito mais parecido com o que passaram os jovens que lutaram contra o fascismo. O inimigo tem as mesmas armas, às vezes até melhores. Os norte-americanos e britânicos que se juntam às YPG não conseguem ultrapassar o facto de não haver apoio aéreo ou de não haver um helicóptero que leve os feridos. Os voluntários feridos não recebem os mesmos cuidados médicos ou a mesma ajuda financeira [que os militares]. Estamos por nossa conta. Somos voluntários. O que encontramos é uma guerra de uma era diferente.

Foi a primeira vez que pegou numa arma?
Não, já tinha servido como cadete no Exército Terrestre do Reino Unido. Não foi por muito tempo, mas aprendi a disparar e a atirar granadas falsas. Quando estive numa missão humanitária em África, aprendi a desmantelar uma AK47. Não cheguei à Síria sem qualquer conhecimento, embora tenha sido ali que disparei sobre alguém e combati pela primeira vez.

Foi a primeira vez que teve de matar uma pessoa…
Sim. Na realidade, não fui para a Síria para matar ou magoar pessoas. Fui para a Síria para proteger pessoas. A população de Rojava, os curdos, os cristãos e os yazidi são perseguidos pelo Estado Islâmico. O meu objetivo era mostrar a minha solidariedade e regressar à Europa com soluções. Um dos pontos frustrantes é que, neste momento, o Reino Unido e os EUA estão apenas focados no que é melhor para o Reino Unido e os EUA. Não estão focados no que acontece aos sírios. Ao ir para lá, experienciar tudo e estar no terreno, posso regressar e falar sobre o que vi e, espero, conseguir que algo mude.

O que é o melhor para a Síria e a para a população?
Há milhões de pessoas a sair da Síria porque já não acreditam que têm um país. Acham que a sociedade está completamente destruída e que ali não há futuro. Como comunidade internacional, o que precisamos de definir que o futuro da Síria não passa por uma ditadura ou pelo islão fundamentalista, mas por uma democracia laica e federal. Qualquer pessoa que se oponha a isso é um inimigo do país, da sociedade e do ocidente e deve ser tratado como tal. Portanto, [Bashar al-] Assad, daesh e elementos extremistas da Frente Al-Nusra… todos devem ser colocados no mesmo grupo. Aos grupos democráticos devem ser dado apoio em condições, meios aéreos e ajuda humanitária tem de chegar a todo o país. Precisamos de apoiar a democracia e garantir que lutamos por isso em condições.

É a favor dos bombardeamentos?
Sim. Mas há dois tipos de ataques aéreos, que praticamente podem ser definidos por país. Por um lado, a Rússia está a direcionar os ataques à Frente Al-Nusra e não ao daesh, pois têm como alvo sobretudo grupos que são uma ameaça ao governo. Bombardeiam com pouca precisão, diria que às vezes quase com intenção de atingir civis. De outro lado, estão o Reino Unido e os EUA, que muito raramente causam a morte a populares. Aliás, durante o ano em que lá estive nunca vi civis mortos por causa de bombardeamentos dos Aliados. Desde que se trabalhe com os grupos no terreno, podemos tingir a linha da frente dos grupos que se opõem à democracia. A isso chama-se bombardeamentos inteligentes e estou a favor disso.

UNIDADE. Mário Nunes (segundo a contar da esquerda na fila de cima) e Macer Gifford (quarto a contar da esquerda na fila de cima)

UNIDADE. Mário Nunes (segundo a contar da esquerda na fila de cima) e Macer Gifford (quarto a contar da esquerda na fila de cima)

d.r.

O seu objetivo é mudar comportamentos e chamar a atenção para a Síria. Acha que já o conseguiu fazer?
Acho que já fiz algum progresso… Ajudei principalmente em dois sentidos. Primeiro, lutei contra o Estado Islâmico, e isso apenas já seria ótimo, porque um par de mãos extra no combate é necessário. No entanto, a maior parte do meu trabalho é regressar à Europa e falar dos problemas. Sinto que sou mais um ativista do que um combatente, porque eu mostro às pessoas que não podemos ignorar o que se passa na Síria.

Ao longo do ano que esteve em Rojava, na Síria (seis meses em 2015 e sete meses em 2016), alguma vez sentiu medo?
Senti medo muitas vezes e em ocasiões diferentes. Não seria humano se não sentisse. Apesar disso, tinha que me lembrar que fui para a Síria por uma razão. Se deixasse o medo apoderar-se de mim, então o meu lugar não era na Síria.

O que viu na Síria que os meios de comunicação não mostram?
Vi o bem em muitos grupos laicos e democráticos. As pessoas no ocidente têm a ideia de que a Síria está num estado de completa anarquia, mas há uma grande parte do país que é incrivelmente segura. Há muitos grupos que acreditam nos mesmos valores ocidentais. A solução para a Síria já existe dentro do país, o ocidente não pode chegar e implementar uma democracia à sua maneira. Deve apoiar aqueles que têm mais probabilidade de derrotar o daesh e unir o país. E, neste momento, os únicos capazes são as Forças Democráticas Sírias.

A nível judicial, há alguma coisa que lhe possa acontecer por ter estado a combater na Síria?
Não. Não é ilegal juntar-me a uma polícia estrangeira, que é quase do que se trata a YPG. No entanto, os membros de uma organização partilham os crimes dessa organização. Juntei-me a uma força que defende as pessoas, que as trata com dignidade e promove a democracia. Até os combatentes do Estado Islâmico, quando capturados, são presos como um qualquer criminoso. Não são executados ou torturados.

Como é que a população síria lida com tudo o que está a acontecer?
As pessoas estão completamente assustadas. Para os sírios, o Estado Islâmico é o lobo que está à porta. Se o lobo atacar, vai matar toda a gente. Há uma constante sensação de terror. Por outro lado, há uma sensação de esperança nos grupos que estão a tentar proteger as povoações. As pessoas estão muito agradecidas pela ajuda estrangeira, embora muitas vezes me perguntem o porquê de não haver mais apoio da comunidade internacional. Os países estão muito ocupados a lutar uns com os outros. Costumo dizer que a Síria é como um cobertor em que cada país está agarrado a uma ponta e puxa para os eu lado. Até a preocupação ser a Síria e a sua população, nunca haverá paz.

Pensa em regressar à Síria?
Sim, vou fazê-lo em fevereiro do próximo ano. Estou a criar uma organização humanitária que irá angariar dinheiro para os hospitais e escolas de Rojava. É uma nova fase, porque não irei lutar. Na minha primeira viagem, estive em combate. Na segunda, o objetivo foi criar uma unidade médica e ajudar na linha da frente. Agora, é construir um legado duradouro para os voluntários estrangeiros e honrar a memória de pessoas como o Mário Nunes [militar português que abandonou a Força Aérea e viajou incógnito para a Síria e que este ano cometeu o suicídio] que deram tudo pelas suas crenças e morreram pelas pessoas da Síria.

PORTUGUÊS. Mário Nunes era frequentemente visto com animais

PORTUGUÊS. Mário Nunes era frequentemente visto com animais

d.r.

Quando e como conheceu o português Mário Nunes?
Conheci-o em março de 2015. Estivemos uma série de meses juntos, lutámos juntos, comíamos juntos, dormíamos nos mesmos quartos, sofremos pela falta de comida… Passámos pelas mesmas experiências de estar na linha da frente de uma guerra. Acho que nos conhecemos muito bem e tínhamos muitos pontos em comum: ele cresceu no Algarve, eu passei todas as férias da minha infância no Algarve, por exemplo. Algumas das minhas melhores memórias com ele são quando estávamos de guarda na madrugada. Durante cinco horas, ficávamos ali parados a olhar para as linhas da frente do Estado Islâmico. A única coisa que nos restava fazer era falar. Falávamos de casa, da esperança no futuro, nas nossas aspirações.

O que faziam juntos? Como era a vossa relação?
Éramos muito amigos. O Mário era uma pessoa muito complicada. Tal como em qualquer amizade havia momentos que estávamos mais afastados, umas vezes não nos largávamos outras fartávamo-nos um do outro… Lembro-me quando regressei pela segunda vez para a Síria foi no mesmo dia que ele. Nem se quer sabia que também ia regressar. Quando entrei na sala, foi como se não tivéssemos estado afastados mais de seis meses. Éramos amigos.

A 3 de maio, o dia em que Mário morreu, o Macer estava lá. O que aconteceu realmente?
Tenho muita dificuldade em falar sobre isto, porque o conhecia muito bem. Na altura, estava a começar a comandar a unidade médica da YPG e foi diagnosticado ao Mário stress e depressão. Informámos os superiores de que ele estava a atravessar uma fase complicada relacionada com problemas familiares. Acho que se sentia sem rumo e preso ali. Confesso que me sinto culpado por não ter dedicado mais tempo em tentar compreender o que estava a deixar o Mário tão em baixo. Nessa altura, estava tão absorvido com os meus projetos que nem me apercebi que as coisas eram tão graves. No dia em que ele morreu, vieram ter comigo a dizer que ele tinha desaparecido. Pouco depois, voltaram e disseram que ele estava caído no chão e que tinha sido atingido na cabeça. Imediatamente, mandamos uma equipa para prestar socorro, mas assim que chegamos, encontramos a pistola e percebemos que não tinha sido um acidente. Sinceramente, acho que não devemos focar-nos na morte dele, mas sim em tudo o que ele foi e pelo que lutou. Quando se combate, há feridas que não são físicas e que são muito difíceis de sarar. Foi um homem que abandonou a segurança do lar para lutar numa guerra estrangeira que não tinha nada a ver com ele e pagou o preço máximo. Para os curdos ele é um mártir e espero que os portugueses também o tratem como um herói.

No ocidente, os problemas na Síria são sobretudo visíveis através das milhares de pessoas que fogem e arriscam a vida para chegar à Europa e pedirem asilo. Na sua opinião, acha que estão a ser tomadas as decisões certas?
Sou um bocadinho controverso em relação a este tema. Não acredito que resposta seja acolher milhões de sírios na Europa. Aliás, acho que isso cria sérios problemas na região, pois estamos a tornar a Síria num país seco ao sugar as pessoas mais qualificada, pois são essas que consegue pagar três mil ou quatro mil dólares aos traficantes. Estamos constantemente a lidar com os efeitos provocados pelo daesh e não estamos a lidar com a raiz do problema, o que é completamente ridículo e absurdo. Temos de atacar o daesh, acabar com a divisão do país, precisamos de dar esperança às pessoas e de garantir que a Síria será um local seguro com uma democracia laica e federal. Esse é o desejo de todos. Qualquer um quer regressar a casa. No entanto, tenho receio que as pessoas que consigam fazer vida no ocidente não queiram voltar.

Como britânico, como vê a saída do Reino Unido da União Europeia?
Espero que o Reino Unido não siga a mesma direção dos Estados Unidos e se isole, embora pareça que é isso que está a acontecer… Espero a nossa política não seja dominada unicamente pela política interna. Fui a favor do Brexit, mas tomei essa decisão devido ao facto da União Europeia ser tão pouco democrática. Acredito que devemos retirar poder dos governos e começar a entregá-lo às pessoas, mas acho que o Reino Unido foi numa direção completamente errada. Está a seguir um caminho de extrema-direita e estão focados em questões como a imigração, que é algo fantástico. A livre circulação de pessoas é uma das melhores partes da União. Para mim, o que estava em causa era o facto das instituições europeias serem tão corruptas e antidemocráticas.

Relativamente às eleições norte-americanas, como vê a eleição de Donald Trump? Há razões para o mundo ficar assustado?
Sinceramente, não sei. Acho que eram dois candidatos terríveis. Isto é algo que me faz muita confusão nos Estados Unidos: como é que num país com milhões de pessoas, acabam sempre com maus candidatos para a presidência? O problema que vejo em relação a Trump é que há muita conversa, não acredito em grande parte do que ele diz e não percebo o que vai fazer. Espero que não tome uma atitude agressiva ou se torne demasiado insular. Para mim, neste momento, é esperar para ver.

Nuno Tiago Pinto: “Estas pessoas são heróis. Foram lutar por nós”

JORNALISTA. Nuno Tiago Pinto demorou meses até conseguir falar pela primeira vez com Mário Nunes

JORNALISTA. Nuno Tiago Pinto demorou meses até conseguir falar pela primeira vez com Mário Nunes

antónio bernardo

Como conseguiu chegar até à fala com o Mário Nunes?
Logo que se soube que havia um português a lutar contra o autoproclamado Estado Islâmico, comecei a procurar o Mário. Isto foi no começo de 2015. Nos meses que seguiram fui mandando mensagens e nuca tive resposta. Pela altura do verão, soube-se que ele tinha regressado à Europa e decidi que ia escrever um artigo sobre ele. Comecei então a localizar pelas redes sociais os voluntários estrangeiros que tinham estado com ele na Síria. Uma das pessoas com que falei foi o Macer Gifford, que me confirmou a história do Mário, mas falou muito antes de pedir autorização ao amigo. Em seguida, fui ao Algarve à procura da família e tive a sorte de encontrar a irmã dele na rua. Explique-lhe o que estava a fazer e o que sabia. Confirmou-me o que já sabia e fez uma coisa que não sabia que ela ia fazer: falar com o Mário. Nessa mesma noite, tinha uma mensagem a dizer que estava disponível para falar. Nos meses seguintes falei com ele várias vezes por mensagens e skype. Quando ele regressou à Síria, passou a ser apenas por mensagem. A última vez que falei com o Mário foi a 30 de abril, quatro dias antes de morrer.

Nessas últimas conversas, alguma coisa apontava poderia prever o que iria acontecer?
Não. Sempre me disse que estava tudo bem. Ia-me contando o que estava a fazer e onde estava, embora agora nesta fase com algumas limitações porque tinha entrado para uma espécie de unidade secreta. Nunca me disse que as coisas estavam a correr mal nem disse à família.

Quando a história do Mário Nunes surgiu, havia alguma confusão sobre as motivações dele na luta. Como conseguiu deixar claro que não se tratava de mais um jiadistas, mas de alguém que estava a lutar contra o Daesh?
Isso foi precisamente um dos objetivos do livro, mostrar que há pessoas a ir lutar pelo bem. Existem milhares de estrangeiros que foram para a Síria lutar pelo Estado Islâmico. Por outro lado, existem apenas umas centenas de ocidentais que foram lutar contra os jiadistas. Essas pessoas são heróis. Foram para a Síria lutar por nós. São pessoas que abdicam de tudo para ir lutar contra este mal antes que ele chegue cá.

O que leva um ocidental jovem a largar tudo e ir para Síria?
É sobretudo por saberem o que se passa. Fiz essa pergunta a todos os voluntários com que falei e cada um deles tem um motivo específico. Não existe uma razão única. Uns são cristãos e querem lutar contra o islão radical, outros ex-militares e querem voltar à guerra, outros têm uma vertente mais ideológica e querem ajudar a propagar a democracia, existem os que querem partir à aventura… O que os une a todos é esta vontade de lutar contra o mal. Todos, sem exceção, disseram-me que decidiram ir depois de verem as imagens.

De todas as conversas, qual foi a coisa que lhe contaram que mais o marcou?
São voluntários, pagam a viagem do próprio bolso, lá dão-lhes comida má, tabaco, chá e pouco mais. Dormem no chão ao relento, não têm água para tomar banho nem casa de banho. Isto é algo que para um ocidental é muito estranho. O que me marcou e achei muito interessante, porque nunca tinha pensado nisto, é na diferença entre os estrangeiros e os curdos. Os ocidentais vão para a Síria com o objetivo de lutar e querem ação. Os curdos, que vivem a vida toda em guerra, são mais calmos, porque sabem que quando forem para a luta alguém vai morrer.

Acha que os ocidentais vão para Síria com o entusiasmo de querer fazer a diferença e depois percebem que afinal não é como pensaram?
Acho que sim… eles partem com muita vontade de lutar, mas rapidamente percebem que é difícil. Se for preciso estão ali parados uns à frente dos outros durante meses e isso é muito angustiante para os ocidentais.

O que se pode esperar do livro?
Podem esperar a história de um rapaz que tinha tudo para ser como qualquer um de nós, mas decidiu não o ser. Quis ser algo mais por nós. Este é livro sobre heróis, em que podem encontrar os percursos deles, perceber o que foi feito, o que está a ser feito e ter um contexto histórico, político, ideológico e factual.