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A fuga histórica (com captura “invulgarmente gentil”) de Xiuzhu

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Foi preciso passar mais de uma década para convencer a chinesa Yang Xiuzhu a voltar ao seu país depois de ter garantido que só o faria “depois de morta”. Esta semana, sem “dinheiro para gastar, ninguém em quem confiar e nenhuma forma de escapar”, a ex-autarca acusada de desviar mais de 40 milhões de dólares decidiu entregar-se. História de uma fuga e rendição

Quando Yang Xiuzhu desapareceu da cidade de Wenzhou, na província chinesa de Zheijang, corria o ano de 2003 e a política de “tolerância zero” das autoridades chinesas para com os criminosos financeiros em fuga ainda não tinha sido posta em prática. Talvez por isso tenham sido necessários 13 anos, a colaboração da Interpol, negociações com numerosos governos estrangeiros e até a persuasão da própria família para que Xiuzhu se decidisse a regressar ao seu país de livre vontade e entregar-se às autoridades chinesas.

O percurso da fugitiva, que é desde o ano passado considerada a criminosa financeira mais procurada da China, durante os 13 anos que passou em fuga é difícil de precisar. Sabe-se apenas que terá chegado entrar em países como França, Singapura, Canadá, Estados Unidos, Itália ou Holanda na sua tentativa de escapar por todos os meios às autoridades do seu país e que terá declarado que preferia “morrer nos Estados Unidos” a voltar com vida para a China.

No entanto, a promessa de Yang Xiuzhu quebrou-se esta quarta-feira, quando as televisões chinesas a filmaram a descer as escadas de um avião apoiada em duas agentes da polícia, sem algemas e sorridente, pisando finalmente território chinês após mais de uma década de fuga. Segundo a interpretação do “Wall Street Journal”, um tratamento “invulgarmente gentil” e incaracterístico das autoridades do país que poderá tratar-se de uma mensagem de “dignidade” para os criminosos atualmente escondidos em território estrangeiro, querendo transmitir-lhes que “serão tratados de forma justa pelo sistema de justiça criminal chinês”.

Nos últimos anos, o sistema concentrou muita da sua atenção em Xiuzhu, um dos símbolos de uma corrupção dentro do Estado chinês que interessa ao presidente, Xi Jinping, combater numa altura em que assegura que a política anticorrupção é de “tolerância zero” e assume uma importância de “vida ou morte” para o partido comunista e o próprio país. Antiga vice-presidente da câmara de Wenzhou e vice-presidente do gabinete de construção da mesma zona, Xiuzhu terá desviado, segundo um relatório oficial datado de 2004, mais de 40 milhões de dólares, ou 37,6 milhões de euros, enquanto desempenhava o cargo público, dos quais o Governo chinês tinha conseguido até ao ano passado recuperar 6,84 milhões de dólares (6,4 milhões de euros). Para mais, suspeita-se que a antiga vice-presidente tenha chegado a receber subornos no valor de 30 milhões de dólares (28,2 milhões de euros).

As movimentações financeiras de Yang Xiuzhu começaram cedo a gerar dúvidas, relembra o “New York Times”, uma vez que já em 1996 tinham sido levantadas suspeitas quando um edifício de cinco andares foi comprado em Manhattan por 517 mil euros por outro comprador, tendo sido pouco tempo depois passado para o nome da autarca chinesa. Mas em 2004, quando um gestor imobiliário tentava despejar um inquilino do edifício a mando de Xiuzhu, o ocupante do edifício decidiu processar a senhoria, acusando-a de ser uma fugitiva – na mesma altura, o edifício passava por 2,3 milhões de euros para as mãos de uma residente de Bayside, Queens, que se suspeita tratar-se da cunhada de Xiuzhu (o próprio irmão da fugitiva já tinha sido preso em 2001, nos Estados Unidos, acusado de corrupção, e acabou por voltar à China no ano passado).

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A missão impossível de capturar Yang Xiuzhu

Quando as suspeitas começaram a recair na autarca e as suas movimentações financeiras se tornaram alvo de investigação pelas autoridades chinesas, corria o ano de 2003, Xiuzhu decidiu fugir do país, levando consigo uma neta e alguns membros da família. E é aqui que a história da fugitiva se torna difícil de reconstruir – os meios internacionais alegam que Xiuzhu terá começado por viajar até Singapura, tentando depois entrar nos Estados Unidos e acabando por passar por países como França, Holanda ou Japão (tendo inclusivamente chegado a pedir asilo político nos dois primeiros).

Xiuzhu acabaria por ser capturada pela primeira vez em 2005, segundo descreve o “Telegraph” numa cave “húmida e fria” de Roterdão, pelas autoridades holandesas, que começaram então a iniciar os procedimentos necessários para realizar a extradição para a China. Tendo pedido asilo político na Holanda, foi quando viu o novo pedido negado que a fugitiva voltou a evadir-se e acabou por aparecer no ano passado num comboio que fazia a ligação entre o Canadá e os Estados Unidos, tentando entrar em território norte-americano com um passaporte pertencente a um cidadão holandês e uma fotografia sua.

Foi no ano passado que a imprensa chinesa anunciou a captura da sua fugitiva económica mais procurada nos Estados Unidos, tendo Xiuzhu sido detida e levada para um estabelecimento prisional em Nova Jérsia. E se inicialmente a intenção da fugitiva seria a de se manter no país e pedir asilo político, a verdade é que esta quarta-feira Yang decidiu finalmente desistir do pedido e voltar à China, aceitando as “punições das autoridades chinesas de forma incondicional” – mesmo depois de no ano passado ter declarado à Reuters acreditar que a lista de 100 criminosos chineses procurados por crimes como corrupção, burla, desvio de fundos ou suborno divulgada pela Interpol se tratava de um “documento político que listava os inimigos do atual regime” e não de uma verdadeira lista de criminosos.

O processo que aparentemente mudou totalmente as ideias e planos de Yang foi detalhado esta quinta-feira pela Comissão Central para Inspeção Disciplinar na China e noticiado pela Reuters. Segundo o organismo, para a entrega da fugitiva às autoridades terão contribuído os familiares e membros da comunidade chinesa nos Estados Unidos, persuadidos a deixar de disponibilizar fundos e a cortar nas despesas com advogados para Xiuzhu. O objetivo, esta quarta-feira cumprido, consistia em “assegurar que não tinha dinheiro para gastar, ninguém em quem confiar e nenhuma forma de escapar” – para mais, acrescenta a BBC, a fugitiva de 70 anos estaria a sofrer complicações de saúde e acreditaria não estar a receber os melhores cuidados no sistema prisional norte-americano.

Mas se esta semana as autoridades chinesas cantaram vitória e transmitiram uma “forte mensagem de que os criminosos serão trazidos à justiça, mesmo que fujam até ao fim do mundo”, como cita o “South China Morning Post”, a celebração demorou a chegar – no caso de Xiuzhu demorou 13 anos, a juntar-se aos outros 100 nomes divulgados pela Interpol em 2015. Destes, a China garante que 37 já terão regressado ao país, com 22 a regressar sem necessidade de repatriação ou extradição – até porque essa é uma das principais dificuldades para o sistema de justiça chinês, que conta com 38 tratados de extradição com países estrangeiros nos quais não se incluem a Austrália, Estados Unidos ou Canadá, os destinos preferidos pelos criminosos que fogem de território chinês.

A razão é clara para os Governos estrangeiros, mas também para organismos como a Amnistia Internacional: as violações de direitos humanos e punições desproporcionais no sistema chinês não asseguram que os indivíduos devolvidos à China recebam um tratamento justo, pelo que muitos países recusam extraditar os perseguidos pelas autoridades a não ser que recebam provas concretas dos crimes (sendo que muitos são processados estando ausentes por fuga ilegal do país ou lavagem de dinheiro no estrangeiro).

A questão da corrupção tem sido essencial para Xi Jinping, que de há quatro anos a esta parte tem reforçado a perseguição a estes suspeitos com a operação “Fox Hunt”, que visa encontrar criminosos financeiros em fuga. Segundo os números adiantados pela agência estatal Xinhua, nos primeiros meses de 2015 as autoridades chinesas terão conseguido trazer de volta 150 fugitivos de 38 países, e em 2014 o número terá ascendido aos 680 fugitivos de 69 países.

Embora os Estados Unidos neguem estar em negociações para um acordo de extradição com a China e a Interpol relembre que os avisos divulgados oficialmente pela agência não se traduzem necessariamente na colaboração dos países em que os criminosos se escondem, a campanha de Xi Jinping contra a corrupção parece estar a dar frutos: para preocupação dos organismos humanitários, os membros da Interpol elegeram este mês, o mesmo em que a criminosa financeira mais procurada da China voltou ao país, o vice-presidente do gabinete de segurança pública chinês como presidente da organização, o que poderá sinalizar um aumento da credibilidade da China a nível da cooperação internacional.

  • Em 2003, acusada de desviar milhões de euros, a chinesa Yang Xiuzhu partiu para o estrangeiro. Os seus dados foram inclusive publicados no site da Interpool. Regressou ao seu país porque queria receber tratamentos de saúde. Agora, a fugitiva económica mais procurada da China foi detida