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Internacional

Adolescente que morreu de cancro ganha direito a ter corpo preservado por criogenia

Neste momento só os EUA e a Rússia têm infraestruturas para preservar corpos por meio da criogenia

ALEXEY SAZONOV

Controverso método só é executado por empresas dos EUA e da Rússia. Supremo britânico decidiu dar à mãe de JS o poder de decidir se queria aceder ao último desejo da filha de 14 anos, que sofria de um raro tipo de cancro e que queria que o seu corpo fosse preservado para ser “acordada” quando for descoberta uma cura. Para já a comunidade científica continua sem saber se é possível “ressuscitar” as pessoas através deste método de congelação

A família de uma jovem britânica de 14 anos que morreu de cancro recebeu, pouco antes disso, autorização do Supremo Tribunal do Reino Unido para que o seu corpo seja criogenicamente conservado na esperança de que possa vir a ser ressuscitada no futuro. O tribunal ditou que a mãe da adolescente, que apoiava o seu desejo de ter o corpo preservado através do controverso método, era a única pessoa autorizada a tomar decisões sobre o corpo. Inicialmente, o pai, que estava afastado da ex-mulher e da filha há alguns, opunha-se a este pedido mas acabou por apoiá-lo. O juiz-chefe Peter Jackson ditou que nenhum pormoner sobre este caso fosse tornado público enquanto a adolescente estava viva para a proteger da cobertura mediática.

Nos seus últimos meses de vida, a adolescente, conhecida apenas como JS e que sofria de um tipo raro de cancro, usou a internet para investigar mais sobre o método criogénico, tendo enviado uma carta ao tribunal onde declarava: "Foi-me pedido que explicasse porque quero fazer esta coisa tão fora do comum. Só tenho 14 anos e não quero morrer, mas sei que vou morrer. Penso que ser criopreservada me dá uma hipótese de ser curada e acordada, mesmo que seja daqui a centenas de anos. Não quero ser enterrada debaixo da terra. Quero viver e viver muito tempo e penso que, no futuro, eles podem encontrar uma cura para o meu tipo de cancro e acordar-me. Quero ter esta oportunidade. Este é o meu desejo."

Após a sentença, num caso descrito pelos juízes como excecional, o seu corpo foi preservado e será agora transportado de Londres para os Estados Unidos, onde será congelado "em perpetuidade" por uma empresa privada que cobra 37 mil libras (cerca de 43 mil euros) pelo serviço. Quando a decisão do tribunal foi anunciada à porta fechada, a adolescente já estava demasiado doente para estar presente em tribunal, pelo que o juiz Jackson a visitou no hospital de Londres onde estava internada.

"Fiquei comovido pela forma valente com que ela enfrentou esta situação", escreveu na sentença, citada pelo "The Guardian". "Não é uma surpresa que este pedido tenha sido o único desta natureza a chegar aos tribunais deste país e provavelmente do outras partes do mundo. É um exemplo das novas questões que a ciência está a colocar à lei, talvez mais até ao direito familiar. Nenhum outro progenitor foi colocado na situação [do pai de JS]", com quem a jovem não teve qualquer contacto entre o divórcio dos pais, em 2008, e 2015, quando descobriram que ela estava a morrer de cancro. "Uma disputa sobre um pai poder ver o filho após a sua morte seria grande o suficiente por si só, mas este caso levantou ainda a questão da preservação criogénica."

Desde que começou a ser testado nos anos 1960, esse processo só foi executado algumas centenas de vezes em todo o mundo, tendo ganhado notoriedade com o rei da pop, Michael Jackson, que em vida declarou várias vezes que queria que o seu corpo fosse congelado para mais tarde ser ressuscitado. O processo passa por preservar um corpo numa câmara criogénica cheia de nitrogénio líquido a temperaturas muito baixas (abaixo dos -130 ºC) e, atulamente, só é possiblitado pelos EUA e a Rússia. Ainda não se sabe se é de facto possível ressuscitar pessoas cujos corpos foram criopreservados.

Para funcionar, o corpo deve ser preparado pouco tempo antes de morrer, idealmente nos minutos anteriores à morte, e depois transportado para uma casa funerária a fim de ser preservado até ao momento da congelação. "A teoria científica que sustém a criogenia é especulativa e controversa e existe um considerável debate sobre as suas implicações éticas", reconhece Jackson na sentença. Ainda assim, contrapõe, "a criopreservação, ou seja a preservação das células e tecidos através de congelação, já é um processo bem conhecido que é usado em certos ramos da medicina, por exemplo na preservação de esperma e embriões para tratamentos de fertilidade. A criogenia é a criopreservação levada a um extremo."

Neste caso, esteve envolvido um grupo britânico de ativistas pró-criogenia, sem conhecimentos médicos, que se ofereceu para ajudar a família a pagar o valor cobrado pela empresa que vai guardar o corpo de JS. O hospital onde esteve internada também cooperou, embora a administração tenha sublinhado que não patrocina o método de criopreservação de corpos. "Pelo contrário, os profissionais sentem um profundo mal-estar em relação a ele", referiu o juiz. A Autoridade de Tecidos Humanos (HTA), que regula as organizações que removem, armazenam e usam tecidos e células humanas no Reino Unido, foi consultada no decorrer do caso mas escusou-se a intervir. "Estamos a reunir informações sobre a criopreservação para determinar quão disseminada [a prática] está ou pode vir a estar no futuro e avaliar quaisquer riscos que possa representar para o indivíduo ou para a confiança do público em geral", disse a HTA em comunicado. "Estamos em discussões com importantes intervenientes do setor sobre a eventual necessidade de supervisão regulamentar."

Na sentença, Jackson acrescentou que, no futuro, poderá ser igualmente necessária a intervenção do Governo britânico em decisões semelhantes. "Os eventos neste caso sugerem a necessidade de regulações apropriadas para a preservação criogénica neste país, se isto acontecer no futuro." Em comunicado, o Departamento de Saúde britânico respondeu que "casos como este são raros" e que, "embora não haja atualmente planos para alterações legislativas na área, vamos continuar a analisar a questão com a Autoridade de Tecidos Humanos". Contactadas pelos media britânicos, as autoridades norte-americanas diretamente envolvidas neste caso disseram que nada proibe o envio de restos humanos para os EUA para serem congelados em câmaras criogénicas salvo as regras em vigor.

Durante o processo, o pai da jovem mudou de ideias, dizendo ao tribunal que "respeita a decisão" da filha, "a última e única coisa" que ela lhe pediu antes de morrer. O juiz concluiu que permitir que a mãe escolhesse se queria ou não dar seguimento a esse pedido contemplava o melhor interesse da criança, rematando que JS morreu de forma pacífica por saber que o seu corpo ia ficar preservado para a eternidade.