Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Violência religiosa continua a aumentar

O conflito na Ucrânia não poupou esta igreja ortodoxa de Kuibyshevski, no leste do país

Antonio Bronic / Reuters

O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2016 é apresentado esta quinta-feira em Lisboa. Dos 196 países analisados, 38 registam violações significativas O documento dá relevância a um novo tipo de violência: o “hiperextremismo islamita”

“Boa Sexta-feira Santa e uma Páscoa muito feliz, em especial para a minha amada nação cristã! Vamos seguir os passos verdadeiros do amado e santo Jesus Cristo (a paz esteja com ele) e alcançar o verdadeiro sucesso em ambos os mundos”, escreveu em março, no sua conta do Facebook, Asad Shah, um muçulmano de origem paquistanesa residente em Glasgow, na Escócia (Reino Unido).

Este foi o seu último post naquela rede social. Uns dias mais tarde, Tanveer Ahmed, igualmente muçulmano, esfaqueou-o até à morte à porta da sua loja de conveniência. Ahmed justificou-se afirmando que Shah tinha desrespeitado o Islão e que por isso merecia morrer.

A polícia local descreveu as ações de Tanveer Ahmed como tendo “motivações religiosas”.

O muçulmano Asad Shah foi assassinado por outro muçulmano em Glasgow

O muçulmano Asad Shah foi assassinado por outro muçulmano em Glasgow

FUNDAÇÃO AIS

O caso de Asad Shah é um dos exemplos de “hiperextremismo islamita”, a maior ameaça à liberdade religiosa na atualidade, como é referido no Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo 2016. O documento, coligido pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), é apresentado esta quinta-feira na Sociedade de Geografia, em Lisboa, às 16h.

O “hiperextremismo islamita” é um novo fenómeno de violência com motivações religiosas, que está na origem de ataques terroristas brutais e da maior crise de refugiados que assola a Europa desde a II Guerra Mundial e o próprio Médio Oriente.

“O objetivo-chave do ‘hiperextremismo islamita’ é desencadear a total eliminação das comunidades religiosas das suas terras natais ancestrais”, lê-se no relatório, “um processo de êxodo em massa induzido”.

No Iraque, o Daesh forçou ao êxodo milhões de pessoas da minoria yazidi

No Iraque, o Daesh forçou ao êxodo milhões de pessoas da minoria yazidi

Rodi Said / Reuters

Um outro caso abrangido pelo conceito de “hiperextremismo islamita” é a história de Ekhlas, uma adolescente yazidi que, juntamente com todas as outras raparigas da sua comunidade, foi capturada, violada e torturada pelo autodenominado Estado Islâmico (Daesh) no Iraque, um dos países com níveis mais altos de perseguição religiosa.

Para além das atrocidades que sofreu, Ekhlas viu a sua família ser morta, assistiu ao assassínio de uma criança de dois anos à frente da própria mãe e conheceu uma menina de nove anos que foi violada tantas vezes que acabou por morrer.

Depois de ter conseguido escapar, Ekhlas lutou para que a violência do Daesh contra yazidis, cristãos e outras minorias fosse considerado genocídio. Em Londres, a adolescente deu o seu testemunho a um grupo de deputados. E a verdade é que a 20 de abril deste ano, o Parlamento britânico aprovou por unanimidade uma moção nesse sentido.

Bons exemplos

Mas nem todos as histórias contadas no relatório são tragédias. No Paquistão, foi criado um torneio de futebol interreligioso com o objetivo de combater o ódio manifestado por crentes de diferentes sensibilidades religiosas no país.

A iniciativa atraiu mais de 30 equipas dos quatro cantos do país. “Os nossos objetivos passam por criar uma atmosfera de paz e diálogo entre os jovens de vários credos e alimentar a irmandade e tolerância numa sociedade atormentada pelo terrorismo”, afirmou o sacerdote católico Emmanuel Parvez, fundador do evento.

Da esquerda para a direita: o Bispo católico Joseph Arshad de Faisalabad, o padre católico Emmanuel Parvez, o futebolista Salim Bad e Mohammed Shafiq, proprietário do Clube de Futebol Sumundri

Da esquerda para a direita: o Bispo católico Joseph Arshad de Faisalabad, o padre católico Emmanuel Parvez, o futebolista Salim Bad e Mohammed Shafiq, proprietário do Clube de Futebol Sumundri

John Pontifex / FUNDAÇÃO AIS

No Relatório sobre a Liberdade Religiosa 2016 são analisados 196 países, dos quais 38 registam “violações significativas” da liberdade religiosa. Destes, 15 encontram-se na categoria “Discriminação”, com vários relatos de casos de intolerância religiosa levada a cabo pelo próprio Estado. Um exemplo é a Ucrânia, onde as autoridades exigem “ser notificadas de encontros religiosos públicos com pelo menos dez dias de antecedência” e “as atividades de grupos religiosos estrangeiros [foram] restringidas”.

Os restantes 23 países estão colocados na categoria “Perseguição”, o mais alto nível de violação religiosa proveniente de atores estatais, não estatais e grupos terroristas. São exemplos vários países em situação de conflito como o Afeganistão, a Síria, o Iémen e o Iraque.

Na cerimónia de apresentação do relatório em Lisboa estará presente D. Bashar Warda, arcebispo de Erbil, no Iraque

O Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo é publicado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), uma organização dependente da Santa Sé. É elaborado de dois em dois anos e esta é a sua 13ª edição. É publicado em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, holandês e também português. Pode ser consultado aqui.

  • Terror religioso está a aumentar

    Relatório sobre a Liberdade Religiosa é divulgado esta terça-feira em todo o mundo. Dos 196 países analisados, só em 80 não há indícios de perseguições motivadas pela fé.